É falso que Witzel tenha mandado recolher ivermectina das farmácias do Rio
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É falso que Witzel tenha mandado recolher ivermectina das farmácias do Rio

Medicamento está com baixos estoques em razão de boatos sobre alternativa de cura para covid-19, de acordo com o Conselho Regional de Farmácia

Samuel Lima, especial para o Estado

14 de maio de 2020 | 17h45

Não é verdade que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, mandou recolher o remédio ivermectina das farmácias do Estado, como acusam postagens falsas em circulação no Facebook. O Estado verificou a informação com a Secretaria Estadual de Saúde e outras duas fontes. O desabastecimento ocorre, na verdade, por conta do crescimento da procura após boatos sobre a eficácia do medicamento contra a covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus.

O conteúdo enganoso no Facebook traz a foto do remédio com a seguinte legenda: “Governador do Rio está mandando recolher das farmácia (sic) o remédio ivermectina, disse que tá surtindo efeito, mas não quer que seja vendido de qualquer jeito”. A postagem tinha 10,4 mil compartilhamentos e 235 mil visualizações até a tarde desta quinta-feira, 14.

O governador do Rio, Wilson Witzel Foto: Wilton Junior/ Estadão

Em pesquisas no Google, o Estadão Verifica não encontrou nenhuma notícia de recolhimento do remédio nas farmácias do Rio de Janeiro, nem da suposta declaração de Witzel de que a ivermectina estaria “surtindo efeito” contra a covid-19. A reportagem questionou diretamente a Secretaria Estadual de Saúde, que afirmou que “não procede a informação de recolhimento da medicação nas farmácias do estado”.

A versão é confirmada pelo Conselho Regional de Farmácia do Rio de Janeiro (CRF-RJ), entidade que representa os profissionais farmacêuticos. O órgão afirma que não recebeu qualquer informação de retirada de produtos nos estabelecimentos e que a situação é semelhante ao que ocorre com outros medicamentos divulgados como supostas alternativas no tratamento do novo coronavírus — entre eles, a hidroxicloroquina, a azitromicina e as vitaminas C e D.

Ainda em fase de testes e com resultados apenas em laboratório, a ivermectina passou a ser compartilhada como “cura” da covid-19 nas redes sociais, resultando em aumento nas compras e estoques baixos nas farmácias. A situação recorrente é considerada “extremamente alarmante” pelo CRF-RJ. “O desabastecimento da hidroxicloroquina em função do aumento de 67,93% na busca (em comparação ao primeiro trimestre de 2019), por exemplo, trouxe problemas aos pacientes de lúpus e artrite reumatoide que fazem uso da medicação de forma contínua e, agora, enfrentam dificuldades de encontrá-la nas farmácias comunitárias”, destaca.

Procurada pelo Estadão Verifica, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também negou qualquer ação nesse sentido. O órgão informou que o medicamento “não sofreu restrição de comercialização pela Anvisa” e que apenas passou a constar em uma lista de produtos que precisam de anuência prévia para a exportação, ou seja, o envio para outros países. “Porém, essa alteração não afeta a disponibilidade e distribuição do medicamento no país.”

Até o momento, a Anvisa enquadrou como medicamento controlado apenas a cloroquina, a hidroxicloroquina e a nitazoxanida, sob a justificativa de que estes “tiveram seus nomes associados a pesquisas em torno do tratamento da covid-19”, ainda que inconclusivas. A alteração afeta o regime de comercialização, que passa a ser feito mediante receita branca especial, prescrita pelos médicos em duas vias.

Automedicação pode trazer danos graves à saúde

A ivermectina é usada para o tratamento de condições causadas por vermes e parasitas — como lombriga, sarna e piolho —, sem relação com a covid-19. O que existe, de fato, são pesquisas com essas e outras drogas para descobrir se elas podem ajudar no combate do novo coronavírus de alguma maneira

A ivermectina foi testada em estudo feito por pesquisadores da Universidade de Melbourne e do Hospital Royal Melbourne, na Austrália, que demonstrou que o medicamento é capaz de matar o novo coronavírus in vitro. No entanto, os próprios cientistas pediram cautela sobre a descoberta e afirmaram que são necessários testes clínicos para avaliar a eficácia do remédio na prática, fora do laboratório.

O Ministério da Saúde afirma que não recomenda o uso de nenhum medicamento sem prescrição médica. “Não existem estudos conclusivos que comprovem a eficácia de qualquer medicamento para o tratamento de covid-19”, aponta o órgão de saúde. O uso de remédios ainda em fase de testes, sem acompanhamento profissional, pode causar graves danos à saúde. Além da possibilidade de intoxicação e de efeitos colaterais, essa prática pode resultar em desabastecimento de produtos para quem realmente precisa.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que não há vacina, nem medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar a covid-19. A orientação para quem apresenta quadro leve é de ficar em casa, praticar o isolamento social e monitorar os sintomas — os mais comuns são febre, cansaço e tosse seca. Em torno de 80% das pessoas se recuperam sem precisar de tratamento especial, informa a organização. A OMS indica atendimento médico imediato em caso de dificuldade de respirar ou de dor e pressão no peito.

Postagem falsa no Facebook afirma que governo do Rio de Janeiro mandou recolher remédio de farmácias. Foto: Reprodução

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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