É falso que médicos franceses tenham protestado contra ‘farsa’ da covid-19

É falso que médicos franceses tenham protestado contra ‘farsa’ da covid-19

Vídeo compartilhado no Facebook foi gravado em 14 de janeiro, quando ainda não havia casos confirmados de infectados na França

Pedro Prata

20 de julho de 2020 | 16h29

É falso que médicos franceses tenham feito um protesto ao descobrir que a pandemia de covid-19, que já matou 608.420 pessoas no mundo, seria uma “farsa”. Na verdade, o vídeo que viralizou no Facebook, no qual profissionais da saúde atiram jalecos ao chão, foi gravado em janeiro de 2020 e mostra gesto em defesa dos hospitais públicos. O Estadão Verifica checa conteúdos virais nas redes sociais e se voltou para este conteúdo após ele ser compartilhado 1,6 mil vezes.

O Estadão Verifica utilizou a ferramenta inVID para procurar outras vezes em que este vídeo foi publicado. Esta ferramenta captura frames do vídeo e busca imagens semelhantes no Google.

Gesto era de apoio a campanha salarial e por maior orçamento para os hospitais. Foto: Reprodução

Dessa forma, foi possível identificar que o protesto foi realizado em 14 de janeiro deste ano em alguns hospitais da França. Os profissionais realizaram o gesto como apoio à campanha por melhores salários e mais orçamento para os hospitais. O primeiro caso de covid-19 no país só foi confirmado no dia 24.

A versão francesa do site Huffington Post relatou a manifestação no hospital St-Louis, de Paris. Ao comparar a imagem do manifesto mostrado na reportagem com o vídeo utilizado no boato, é possível identificar detalhes que mostram se tratar da mesma gravação feita no St-Louis: o material do piso e das paredes, o corrimão do corredor superior, uma coluna e um aparelho retroprojetor.

Detalhes comuns aos dois vídeos permitem concluir se tratar do mesmo vídeo. Foto: Twitter/Reprodução

Dessa forma, as postagens que dizem se tratar de “Médicos franceses tirando roupa de médico em protesto indo embora do hospital porque descobriram o golpe do covid. A mentira por trás da nova ordem mundial”, são falsas. Elas tiraram o vídeo de seu contexto original.

Boatos negam a pandemia

Em 31 de dezembro de 2019, as autoridades chinesas alertaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre vários casos de pneumonia na cidade de Wuhan, província de Hubei, causados por uma nova cepa (tipo) de coronavírus que não havia sido identificada antes em seres humanos. A informação foi confirmada em 7 de janeiro e, em 30 de janeiro deste ano, a OMS declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) — seu mais alto grau de alerta. É a sexta vez que OMS declara este tipo de emergência.

A OMS declarou pandemia de novo coronavírus em 11 de março de 2020. Isso significa que a partir daquela data existiam surtos da covid-19 em vários países e regiões do mundo. A definição de pandemia não se refere à sua gravidade, mas sim à sua distribuição geográfica.

Até este sábado, 18, a França havia registrado 214.023 casos confirmados de covid-19 e 30.180 mortos, segundo dados da Universidade John Hopkins. Este é o terceiro país europeu com o maior número acumulado de óbitos e responde sozinho por 5% do total de todo o mundo.

Não é a primeira vez que vídeos foram tirados de contexto para negar a gravidade da pandemia de covid-19. O Estadão Verifica já provou que o vídeo de médicos israelenses dançando não tinha relação com o controle da doença, mas sim com o aniversário da independência de Israel. Já o vídeo de uma aglomeração de pessoas em Genebra, sede da OMS, foi usado para inventar uma conspiração e dizer que a covid-19 seria uma mentira. No entanto, o vídeo engana ao não mencionar que a pandemia atingiu a Suíça antes do Brasil e que o país europeu passou por oito semanas de medidas restritivas de isolamento social.

Esse boato também foi checado por Agência Lupa, Fato ou Fake e AFP Checamos.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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