É falso que associação de infectologistas tenha obrigado médicos a assinar documento com proibição a tratamento ineficaz contra covid-19

É falso que associação de infectologistas tenha obrigado médicos a assinar documento com proibição a tratamento ineficaz contra covid-19

Profissionais de saúde têm autonomia para prescrever medicamentos com consentimento do paciente, mas 'tratamento precoce' não tem eficácia comprovada contra novo coronavírus

Alessandra Monnerat

18 de março de 2021 | 16h44

É falso que a “Associação Brasileira de Infectologistas” tenha obrigado médicos a assinar um documento que os proíbe de prescrever o chamado “tratamento precoce” contra covid-19. A informação falsa circula em vídeo no WhatsApp e no Instagram. O Estadão Verifica não encontrou registro de associação com o nome citado na gravação viral. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), por sua vez, nega ter emitido documento com proibições a médicos.

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Cloroquina não tem eficácia comprovada contra a covid-19. Foto: LQFEx/Ministério da Defesa

Em janeiro, a SBI divulgou um informativo em que deixa claro que “as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no ‘tratamento precoce’ para a covid-19 até o presente momento”. A entidade também ressaltou que os principais organismos de saúde internacionais e a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) não recomendam o uso de remédios para prevenir ou tratar precocemente a doença causada pelo novo coronavírus.

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Em atualização de dezembro de 2020, a SBI informou que cloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida e outros medicamentos normalmente associados ao chamado “tratamento precoce” não têm eficácia contra covid-19 comprovada cientificamente. “Os estudos clínicos randomizados com grupo controle existentes até o momento não mostraram benefício e, além disso, alguns destes medicamentos podem causar efeitos colaterais”, comunicou a entidade. 

Médicos têm autonomia para receitar medicamentos

No vídeo com informações falsas, um homem diz que “a Associação Brasileira de Infectologistas fez com que todos os infectologistas assinassem um documento onde eles ficam proibidos de prescrever o tratamento precoce”. Em nota, a SBI disse desconhecer a “Associação Brasileira de Infectologistas” e negou ter emitido um documento como o descrito na gravação.

Em abril do ano passado, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou um parecer em que considera que o uso de cloroquina e hidroxicloroquina deve ficar “a critério do médico assistente, em decisão compartilhada com o paciente”. O profissional da saúde fica obrigado a informar ao doente que “não existe até o momento nenhum trabalho que comprove o benefício do uso da droga para o tratamento da covid-19, explicando os efeitos colaterais  possíveis”.

No parecer, o CFM define que o médico que receitar cloroquina ou hidroxicloroquina não comete infração ética. Essa posição foi reafirmada pelo presidente do conselho, Mauro Luiz de Britto Ribeiro, em artigo na Folha de S. Paulo em janeiro deste ano.

Em dezembro do ano passado, o Ministério Público Federal de Goiás encaminhou um ofício ao CFM solicitando o posicionamento da entidade a respeito das recomendações da SBI, contrárias ao “tratamento precoce”. Em resposta, o Conselho voltou a ressaltar a autonomia dos médicos e indicou que a Sociedade Brasileira de Infectologia pode apenas “recomendar protocolos clínicos de atendimento, nada além disso”.

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No ano passado, o Estadão Verifica desmentiu um boato semelhante, que afirmava que médicos poderiam ter os registros profissionais cassados ao receitar cloroquina. Mensagens desse tipo dão a entender que existe uma conspiração de entidades de profissionais de saúde contra o medicamento, o que não é verdade.

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