Discurso de prêmio Nobel engana ao afirmar que vacinas ‘criam variantes’ e agravam pandemia
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Discurso de prêmio Nobel engana ao afirmar que vacinas ‘criam variantes’ e agravam pandemia

Ao contrário do que diz médico francês, não há evidências de que imunizantes de covid possam favorecer surgimento de novas cepas ou desencadear fenômeno de 'aumento de anticorpos dependentes'

Victor Pinheiro

25 de maio de 2021 | 18h21

É enganoso um discurso do prêmio Nobel de Medicina Luc Montagnier em que ele afirma que a vacinação contra o novo coronavírus seria responsável pela criação de novas variantes e o agravamento da pandemia. Ao Estadão, especialistas contestaram as alegações do médico francês e indicaram que a imunização em massa é uma estratégia fundamental para prevenir o surgimento de novas cepas do vírus.

Com mais de 3,5 mil interações no Instagram, uma postagem repercute declarações de Montagnier em entrevista ao produtor de um documentário que reúne ideias conspiratórias acerca da crise sanitária mundial. O filme foi excluído de plataformas de compartilhamento de vídeos, como o Vimeo e YouTube, por propagar desinformação.

A verificação deste conteúdo foi solicitada por leitores no WhatsApp do Estadão Verifica (11) 97683-7490.

Não, variantes não são resultado da vacinação

Na entrevista, Montagnier afirma que as “novas variantes são produtos e resultados da vacinação” e depois diz que em cada país a curva de vacinação é acompanhada pela curva de mortes. De acordo com a imunologista e professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre Cristina Bonorino, as afirmações do médico francês não procedem.

A cientista explica que a vacinação em massa é, na verdade, essencial para reduzir as chances de variantes potencialmente mais perigosas surgirem. Ela expõe que quanto maior a circulação do vírus na sociedade, mais chances de uma nova linhagem emergir. Trata-se de um processo natural que acontece na multiplicação desses microorganismos nas células invadidas.

Durante a replicação do material genético do vírus podem ocorrer erros aleatórios, com o potencial de gerar novas características ao agente infeccioso. As mudanças podem resultar em vantagens ou desvantagens para o vírus, como aumentar e diminuir sua capacidade de transmissão.

Bonorino ressalta que as vacinas de covid-19 disponíveis até o momento foram desenvolvidas para prevenir o agravamento da doença, e não para impedir a transmissão do vírus. Mesmo assim, os imunizantes já desempenham um papel importante ao reduzir a capacidade do vírus de se multiplicar na pessoa infectada.

O imunologista e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo Eduardo Silveira também exclui a possibilidade de uma infecção por vacina resultar no surgimento de uma nova variante. Ele explica que as vacinas de covid-19 não têm a capacidade de provocar a doença nos pacientes, uma vez que não carregam o vírus enfraquecido.

Já a virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Giliane Trindade salienta que o cenário favorável para o surgirmento de novas variantes é, na verdade, a transmissão descontrolada do vírus.

“Quanto menos medidas de proteção uma população adota — uso de máscaras, prática do distanciamento social, vacinação — o resultado é uma alta taxa de transmissão”, diz Trindade. “Quanto maior a taxa de transmissão, maior a replicação do vírus naquela população. Quanto maior a replicação, maior a chance da emergência de mutantes”.

Luc Montagnier venceu o Prêmio Nobel, em 2008, por sua contribuição na descoberta do vírus do HIV. Durante a pandemia, o médico francês tem chamado atenção por manifestações polêmicas e enganosas (Foto: Reprodução/Odysse)

Pressão evolutiva

Em abril, o Estadão Verifica desmentiu um conteúdo semelhante ao analisado aqui, que afirmava que a vacinação em massa poderia favorecer novas cepas capazes de resistir à vacina e com o potencial de causar doenças mais severas. Especialistas afirmaram que as vacinas exercem uma pressão seletiva sobre o vírus, mas isso não esvazia os benefícios da imunização para o combate à pandemia e nem torna as vacinas nocivas.

De acordo com Giliane, os vírus podem desenvolver aleatoriamente a capacidade de subverter o sistema de defesa do corpo humano. As cepas com tal habilidade, naturalmente, tornam-se mais proeminentes em relação a outras, pois têm maior capacidade de infectar um hospedeiro e se reproduzir.

Se pessoas vacinadas ainda convivem em um ambiente com muitos outros indivíduos não imunizados, é possível que ocorra uma seleção natural de cepas capazes de vencer ou resistir melhor aos efeitos da vacina. Giliane ressalta, no entanto, que não faz sentido usar esse argumento em detrimento da vacinação. Afinal, a própria infecção natural — de não vacinados — também exerce uma pressão seletiva e evolutiva sobre os vírus.

A vacinação em massa tem o potencial de interromper a transmissão e reduzir as chances de novas variantes. “A gente não ouve notícias de emergência de variantes em Israel, que já tem boa parte da população imunizada”, ressalta a virologista. “Nós observamos o surgimento de cepas de populações com pandemia descontrolada, no Brasil, na Índia.”

Uma preocupação recente de autoridades sanitárias, por exemplo, é a variante com origem atribuída à Índia. Embora o país tenha aplicado mais de 194 milhões de doses de vacinas, apenas 3% da população indiana já recebeu as duas injeções de imunizantes contra a covid, segundo dados da plataforma Our World in Data.

Realce de anticorpos dependentes

A publicação analisada pelo Estadão Verifica ainda associa a vacinação a um aumento no número de mortes por covid-19 e diz que os imunizantes promovem um fenômeno chamado “aumento de anticorpos dependentes”, também conhecida pela sigla em inglês, ADE. Especialistas afirmam que a associação é enganosa e que não existem evidências factíveis de que a ADE esteja relacionada ao novo coronavírus.

Algumas das variantes hoje conhecidas, como a cepa britânica e a brasileira, foram identificadas antes mesmo do início dos programas de vacinação nesses países. Vale ressaltar ainda que países como o Reino Unido e Israel começaram a vacinar já em meio a um crescimento no número de casos e mortes por covid-19

Já o “aumento de anticorpos dependente” descreve um fenômeno em que anticorpos produzidos contra um vírus não são capazes de neutralizar um invasor semelhante e servem de auxílio para que o agente infeccioso ataque células do corpo humano. De acordo com Eduardo Silveira, após mais de um ano de pandemia, não há relatos que liguem a covid a esse fenômeno.

Foto: Alejandra De Lucca V. / Ministério da Saúde do Chile (Minsal)

O imunologista ressalta que o observado atualmente é uma queda no número de internações e mortes entre os grupos prioritários já vacinados. “Se esse fenômeno fosse aplicado a covid-19, com o surgimento de novas variantes, veríamos um aumento no número de ocorrências nesses grupos”, afirma.

Já Cristina Bonorino pontua que o ADE tem uma manifestação inflamatória característica, e que, caso ocorresse, poderia ser claramente observada e caracterizada em pacientes com covid pós-vacinação. No entanto, isso não foi registrado até o momento, mesmo após a aplicação de centenas de milhões de vacinas no mundo.

Giliane Trindade, por sua vez, cita um artigo publicado na revista Science o qual pontua que o fenômeno não foi observado nas etapas pré-clínicas e nos testes clínicos das vacinas de covid aprovadas por agências regulatórias. “Não há nenhuma evidência de que vacinas causam ADE”, destaca a pesquisadora da UFMG.

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