Vídeo viral repercute discurso distorcido de virologista belga para atacar vacinação de covid
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Vídeo viral repercute discurso distorcido de virologista belga para atacar vacinação de covid

Especialistas consultados pelo Estadão dizem que benefícios da imunização superam em muito risco de surgimentos de novas variantes, diferentemente do que afirma gravação que circula nas redes

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

06 de abril de 2021 | 13h03

Um vídeo viral nas redes sociais e aplicativos de mensagens repercute uma entrevista do virologista belga Geert Vanden Bossche sobre a imunização em massa contra a covid-19. Bossche publicou recentemente uma carta aberta em seu site com críticas à vacinação, que afirma poder favorecer o surgimento de variantes cada vez mais letais e agravar a crise sanitária global — esses argumentos são rechaçados por especialistas consultados pelo Estadão

Na avaliação desses especialistas, o conteúdo dissemina um discurso perigoso que se apropria de conceitos reais para difundir argumentos exagerados e alarmistas contra a vacinação de covid-19. Os benefícios trazidos pelas vacinas no combate à pandemia superam em muito os riscos de surgimento de variantes do coronavírus. Virologistas também contestam os apontamentos de Bossche de que as vacinas e o isolamento social podem prejudicar a resposta natural do organismo contra o novo coronavírus. 

Com mais de 4 mil compartilhamentos no Facebook, um post que direciona para o vídeo chega a classificar a vacinação em massa como um processo de “destruição da imunidade”, o que é completamente falso. O conteúdo também resgata boatos já desmentidos pelo Estadão Verifica, como o de que o coronavírus não teria origem natural. Leitores sugeriram a checagem deste conteúdo por WhatsApp: (11) 97683-7490

Estudante de Farmácia prepara seringa para vacinação na Universidade de Pittsburgh. Foto: AP Photo/Gene J. Puskar

Vacina e novas variantes

O principal argumento de Bossche aponta que os imunizantes disponíveis atualmente protegem contra as formas graves da doença, mas não contra a transmissão do vírus. Segundo ele, isso impõe uma “pressão mutagênica” sobre o coronavírus, que levaria a novas variantes capazes de superar as vacinas e provocar doenças ainda mais severas. 

Para Flávio Fonseca, virologista do CT de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a argumentação de Bossche “é das mais perigosas possíveis, porque ela tem pontos corretos, mas apresenta deturpações”. Ele explica que uma vacinação limitada a pequenas parcelas da população, como tem acontecido no Brasil, poderia exercer pressão para o surgimento de mutações do coronavírus, uma vez que o vírus ainda encontra organismos para infectar e se multiplicar. 

Fonseca ressalta, entretanto, que isso não esvazia os impactos positivos da imunização. O especialista cita, por exemplo, as recentes quedas nos números de óbitos e infecções no Reino Unido e nos Estados Unidos. Os britânicos têm 8% da população imunizada com duas doses e 47% com a primeira; lá, foram registradas apenas 10 mortes por covid-19 neste domingo, 4 de abril. O cenário é atribuído também às medidas restritivas adotadas pelo governo local

O pesquisador da Faculdade de Medicina da USP José Eduardo Levi também avalia que o possível surgimento de novas variantes resistentes à vacina não pode ser um argumento contra a vacinação. “A vacina sem dúvidas previne doenças graves e mortes”, pontua o cientista, que também é virologista na empresa de diagnóstico médico DASA.  Ele reforça que a imunização pode ser eficiente em reduzir a circulação do vírus e, assim, diminuir as chances da incidência de novas variantes. 

Há evidências que apontam que imunizantes contra a covid-19 podem sim reduzir a transmissão do coronavírus. É o caso de um estudo com a vacina da Pfizer conduzido em Israel que apontou que o produto é até 89% eficaz na prevenção de infecções do SARS-CoV-2. Os dados ainda são preliminares.

Vacinação e novas pesquisas

Dados preliminares indicam que as vacinas de RNA mensageiro da Pfizer e da Moderna são eficazes contra as novas variantes originárias do Reino Unido e da África do Sul. Ainda assim, as duas fabricantes trabalham em doses de reforço contra novas cepas. 

Já a vacina de Oxford/Astrazeneca, que é aplicada no Brasil, mostrou-se eficaz contra a variante de Manaus e do Reino Unido, mas apresentou resultados preocupantes em relação à cepa sul-africana. Uma análise com dados de oito voluntários indicou que a variante brasileira pode escapar dos anticorpos produzidos pela Coronavac, o principal imunizante utilizado no País, mas ainda são necessários estudos mais robustos para confirmar essa hipótese. 

Para os especialistas, o caminho mais adequado é prosseguir com as campanhas de vacinação enquanto ocorrem pesquisas sobre novas gerações de vacinas capazes de coibir a transmissão e se adaptar às variantes. “O negócio agora é vacinar. Até porque a gente não sabe quando [as variantes] vão aparecer, em que escala e o grau de resistência que elas terão contra as vacinas”, destacou Levi.

Pfizer e BioNTech relataram que a vacina das empresas contra covid-19 permanece altamente eficaz por pelo menos seis meses após a segunda dose. Foto: Alejandra De Lucca V. / Ministério da Saúde do Chile (Minsal)

Novas variantes capazes de escapar de vacinas e a estratégia de adaptar imunizantes não são novidades em programas de imunização. “Há potencial, sim, que variantes sejam um problema. Por isso, já está sendo discutido no mundo inteiro que as vacinas se adaptem a essas novas variantes, mas isso não é novidade nenhuma, fazemos isso todo ano contra a gripe”, ressaltou Flávio Fonseca. 

Vacinas podem suprimir o sistema imunológico natural?

Outro argumento exposto por Vanden Bossche aponta que os efeitos das vacinas devem suprimir o sistema imunológico natural das pessoas, de forma que pacientes jovens e saudáveis antes protegidos por esse mecanismo de defesa natural fiquem mais expostos às novas variantes e infecções severas. 

Para Levi, o argumento do virologista é equivocado. O pesquisador da FMUSP aponta que o fato de uma pessoa ser vacinada não impede o desenvolvimento de uma reação natural. Ele acrescenta que em algumas infecções, como a gripe, a resposta natural do organismo pode ser mais eficaz do que a gerada por vacinas, o que não exclui a importância da imunização para evitar sintomas e a propagação da doença. 

No caso da covid-19, porém, essa questão ainda é incerta. Um estudo com a vacina da Moderna publicado no início de 2021 indica que voluntários que receberam doses do imunizante geraram mais anticorpos do que um grupo de pessoas infectadas naturalmente. Não está claro, no entanto, o tempo de duração da imunidade natural e da promovida por vacinas. 

A imunização ainda é o método mais seguro e controlado para se proteger do vírus, ao passo que vacinas também previnem sintomas graves e mortes. Flavio Fonseca ressalta que o recente aumento no número de casos e óbitos na população em jovens adultos não pode ser associado à vacinação. O especialista lembra que esse grupo nem sequer corresponde à população prioritária de programas de vacinação. 

Lockdown e vacinas vão agravar a pandemia

A carta de Bossche ainda defende que medidas restritivas à circulação de pessoas, como lockdowns, vão prejudicar a adaptação da resposta natural do organismo às novas variantes. Segundo Fonseca, trata-se de mais um argumento distorcido. O cientista da UFMG diz que o isolamento social diminui a exposição às novas cepas e portanto as pessoas estariam menos suscetíveis a elas. Ele ressalta, porém, que o objetivo dessas medidas não é confinar as pessoas por longos períodos, mas, sim, desafogar os sistemas de saúde. 

Já Levi diz que o argumento de Bossche é “negacionista” ao sugerir que seria melhor apostar na infecção natural. “É o argumento que alguns países adotaram: deixa o sistema imune trabalhar que a gente adquire uma imunidade de rebanho coletiva. Mas isso falhou horrorosamente”, ressaltou o pesquisador. 

Profissional da saúde segura bandeja com doses da vacina Pfizer contra covid-19, no noroeste da Inglaterra. Foto: Oli SCARFF / AFP

Solução sem respaldo

Após criticar a vacinação em massa, Bossche sugere que a solução para a crise seria uma vacina de células NK, ou Natural Killer Cells. Trata-se de células do sistema imunológico natural que exercem um papel importante no combate a agentes invasores. 

Como mostra uma verificação do site norte-americano Snopes, Bossche se autoproclama inventor de uma tecnologia de vacina universal focada na atividade dessas células. Não há, no entanto, evidências de que essa tecnologia funcione nem existem produtos semelhantes no mercado. O site identificou ainda duas patentes no nome do virologista, mas ambas foram encerradas antes da publicação.

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