Médica antivacina espalha tese improvável sobre efeitos adversos de imunizantes contra covid-19

Médica antivacina espalha tese improvável sobre efeitos adversos de imunizantes contra covid-19

Fenômeno citado em artigo viral não foi observado em testes clínicos e pré-clínicos de imunizantes de covid-19; agência de saúde americana reforça que vacinas de RNA mensageiro são seguras e eficazes

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

29 de março de 2021 | 12h51

Circula no Facebook e no WhatsApp um artigo que diz que 30% das pessoas vacinadas contra a covid-19 morrerão nos próximos meses devido a um fenômeno imunológico chamado “realce de anticorpos dependentes”, identificado pela sigla em inglês ADE. A afirmação falsa e alarmista é atribuída a uma médica americana conhecida por disseminar discursos antivacina.

O boato faz referências específicas a imunizantes com tecnologia de RNA mensageiro, como os produtos da Pfizer e da Moderna. Contudo, não há evidências de que essas e outras vacinas contra a covid-19 possam desencadear problemas imunológicos ou causar a morte de pacientes inoculados. Para especialistas, a hipótese de que os imunizantes poderiam promover ADE é improvável. 

Além disso, o texto apresenta relações enganosas entre vacinas e novas variantes do vírus, bem como distorce e exagera notificações do sistema de monitoramento de eventos adversos dos Estados Unidos. O Centro de Controle de Doenças americano (CDC) diz que os resultados da vacinação no país até o momento reafirmam que os imunizantes são seguros e eficazes.

Relação de vacinas de covid-19 com ADE é improvável

“Realce de anticorpos dependentes” ou “potenciação dependente de anticorpos” são termos que descrevem situações em que a atividade viral não consegue ser bloqueada por anticorpos produzidos anteriormente, durante infecções passadas ou por vacinas. Neste caso, esses anticorpos podem facilitar a entrada dos vírus nas células e provocar um quadro da doença ainda mais severo. 

Esse fenômeno já foi amplamente documentado em infecções pelo vírus da dengue, mas não há registros de ocorrências associadas à covid-19 ou à vacinação contra o novo coronavírus. Segundo o médico infectologista Renato Kfouri, o ADE foi uma preocupação inicial no desenvolvimento dos imunizantes, devido aos resultados de estudos antigos com outros coronavírus em modelos animais. No entanto, atualmente representa uma “hipótese praticamente descartada”.

“Nenhuma das vacinas de covid demonstrou esse risco, nem a infecção natural”, pontuou Kfouri. “Se houvesse riscos, [o ADE] não aconteceria só com as vacinas. Uma pessoa que contraísse covid-19 novamente teria uma infecção potencializada pelos anticorpos”.

Uma reportagem do Estadão Verifica publicada em janeiro também demonstrou que cientistas consideram os riscos de vacinas de covid-19 gerarem ADE improvável. Pesquisadores argumentaram em artigo divulgado na revista científica Journal of Infectious Diseases que doenças provocadas por coronavírus em humanos “não apresentam as características clínicas, epidemiológicas, biológicas e patológicas da doença ADE exemplificada pelos vírus da dengue”.

Vacina Pfizer/BioNTech. Foto: Alejandra De Lucca V. / Ministério da Saúde do Chile (Minsal)

Quatro pontos contra o risco de vacinas de covid-19 provocarem ADE

Em meio à disseminação de teorias conspiratórias, o médico pediatra americano especializado em doenças infecciosas Paul Allan Offit publicou um vídeo no YouTube em que lista ao menos quatro motivos porque o realce de anticorpos dependentes relacionado à covid-19 é improvável.  Segundo ele, muitas pessoas já foram infectadas com outros coronavírus ao longo da vida, mas nenhum caso foi associado ao fenômeno. 

Outro argumento é que ensaios clínicos com humanos já demonstraram que pessoas com histórico de infecções por coronavírus não desenvolveram ADE quando infectadas com diferentes tipos de vírus dessa mesma família.

A terceira evidência de Offit aponta que não foram registradas ocorrências de ADE nos testes de vacinas de covid-19 com modelos animais. Por fim, pacientes tratados em testes de plasma sanguíneo contendo o SARS-CoV-2 também não apresentaram nenhum caso de realce de anticorpos dependentes. 

Os estudos publicados pela Pfizer e a Moderna de fato não relatam a ocorrência  de ADE nos ensaios clínicos em curto prazo. Apesar de improvável, no entanto, essa possibilidade ainda não é totalmente descartada. Relatórios da agência sanitária americana FDA sobre os dois imunizantes dizem que os dados até o momento não indicam risco de doenças agravadas por vacina, mas que essa hipótese no longo prazo ainda permanece incerta. 

Vacinas e novas variantes

O artigo enganoso ainda afirma que as variantes inglesa e brasileira “já estão presentes em nossos corpos devido às vacinações em massa”. Renato Kfouri explica, no entanto, que essa alegação é equivocada. Ele lembra que a variante britânica, por exemplo, surgiu em novembro, antes do início das primeiras campanhas de vacinação.

Segundo o especialista, as vacinas não exercem pressão para o surgimento de novas variantes dos vírus nesse momento. “O que a gente sabe é que a circulação do vírus, sim, cria uma pressão para mutações”, pontuou Kfouri. “As vacinas, pelo contrário, inibiriam essa circulação. Com mais indivíduos protegidos, menor é a chance de novas mutações aparecerem”. 

A Pfizer iniciou recentemente os testes de sua vacina para a covid-19 em crianças de 6 meses a 11 anos Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Boato distorce notificações de eventos adversos

Os dados sobre eventos adversos provocados por vacinas nos Estados Unidos citados no artigo também são falsos. O texto viral diz que, após 30 dias de vacinação, ocorreram 40 mil eventos adversos, incluindo 31 mil casos de reações alérgicas graves à vacina e cerca de 5 mil reações neurológicas. 

Um relatório do CDC mostra que durante o primeiro mês de vacinação nos Estados Unidos foram confirmadas apenas 62 ocorrências de choques anafiláticos desencadeados por imunizantes de covid-19, um índice de 4,5 casos por milhão de doses aplicadas. O sistema de farmacovigilância americano VAERS registrou 7 mil, e não 40 mil, notificações de eventos adversos nesse período. 

Ainda assim, não é correto afirmar que os eventos relatados estejam de fato associados às vacinas. O site do VAERS ressalta que os dados de registros de eventos adversos “não podem ser interpretados isoladamente para chegar a conclusões sobre a existência, severidade e frequência de problemas associados a imunizantes”. As autoridades sanitárias incentivam pacientes a relatarem qualquer ocorrência que tenha acontecido após a vacinação, mesmo que a causalidade com a vacina não seja confirmada. 

Este boato também foi verificado pela Agência Lupa.

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