Checamos o discurso de Bolsonaro na Cúpula das Américas: veja o resultado

Checamos o discurso de Bolsonaro na Cúpula das Américas: veja o resultado

Presidente repetiu dados contestados sobre preservação ambiental divulgados por ele durante Assembleia-Geral da ONU

Alessandra Monnerat e Clarissa Pacheco

10 de junho de 2022 | 16h32

Em discurso na Cúpula das Américas nesta sexta-feira, 10, o presidente Jair Bolsonaro repetiu dados contestados sobre preservação ambiental divulgados durante seu discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro do ano passado. Ele também elogiou a atuação de seu próprio governo nas buscas pelo jornalista britânico Dom Phillips e pelo indigenista brasileiro Bruno Pereira, desaparecidos no Vale do Javari, no Oeste do Amazonas. Cinco dias após o desparecimento, a Força Nacional ainda não foi enviada à região. A ONU considera que o início das buscas foi lento.  

Bolsonaro em discurso na Cúpula das Américas. Foto: Marcio Jose Sanchez/AP

Quantas pessoas o Brasil alimenta

O que Bolsonaro disse: que o Brasil alimenta 1 bilhão de pessoas no mundo, um sexto da população mundial.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é controverso. Um estudo divulgado pela Embrapa em março de 2021 aponta que a produção agrícola do Brasil é responsável por alimentar 800 milhões de pessoas no mundo, cerca de 10% da população mundial. A metodologia do estudo, no entanto, foi contestada por especialistas ouvidos em reportagem do portal UOL. Um dos pontos levantados é que a conclusão parte do pressuposto que todos os grãos exportados pelo Brasil são usados para alimentação, mas eles podem ser usados para rações de animais e outras finalidades.

No Brasil, a fome voltou a patamares registrados na década de 1990. Segundo o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19, 33,1 milhões de pessoas não têm o que comer no País atualmente; 14 milhões a mais do que no ano passado. Mais da metade da população brasileira (58,7%) convive com algum grau de insegurança alimentar (leve, moderado ou grave).

Porcentagem da vegetação nativa

O que Bolsonaro disse: que o Brasil preserva 66% da vegetação nativa e usa apenas 27% do território para pecuária e agricultura.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Bolsonaro repetiu dados divulgados por ele em 2021, na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) , contestados pelo Estadão Verifica e outras agências de checagem. 

O Projeto MapBiomas calcula que a cobertura vegetal no Brasil é de 66,3%, sendo 59,8% de florestas, a maior parte na região Amazônica. Isso não significa que a vegetação tenha sido preservada.  “Uma parte desta vegetação nativa já está degradada ou já foi desmatada e está em regeneração”, comentou Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas, em um texto no site da organização

Em relação à agropecuária, 31% do território brasileiro está ocupado por este tipo de uso. O uso do solo por este tipo de atividade cresceu 44,6% no Brasil entre 1985 e 2020. 

O MapBiomas calcula que o Brasil perdeu 87,2 milhões de hectares de áreas de vegetação nativa entre os anos de 1985 a 2019, o equivalente a 10,3% do território nacional.

Preservação da Amazônia

O que Bolsonaro disse: que, no bioma amazônico, 84% da floresta está intacta.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: não é bem assim. Bolsonaro mais uma vez repete um dado equivocado dito durante a Assembleia-Geral da ONU. A fonte do número parece ser o chefe-geral da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda. Em um documento disponível no site do órgão, Miranda soma dados de áreas protegidas na Amazônia, registros autodeclaratórios de proprietários rurais no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e vegetação nativa em áreas de imóveis rurais não cadastrados e terras devolutas para chegar ao porcentual de 84,1% de áreas “protegidas ou preservadas” no bioma.

Documento

Esse dado da Embrapa, porém, gera controvérsias. O Projeto MapBiomas, por exemplo, calcula que 78,4% do bioma ainda é composto por florestas. A perda de cobertura foi de 44,5 milhões de hectares desde 1985. Já o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informa que o desmatamento acumulado na Amazônia até 2020 era de 729.781,76 km², o que representa 17% da área total.

Documento

Em setembro de 2020, pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos publicaram um artigo na revista científica Science em que tentam mensurar o nível de degradação florestal na Amazônia entre 1992 e 2014. Eles estimaram que outras formas de exploração além do desmatamento foram responsáveis por elevar a área total de floresta degradada no período de 308.311 km² para 337.427 km² — a diferença é 29.116 km², ou 9,4%.

Área da Amazônia

O que Bolsonaro disse: que a área da Amazônia equivale a toda a Europa Ocidental

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é impreciso. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bioma da Amazônia possui uma área aproximada de 4,1 milhões de quilômetros quadrados, o que corresponde a 49% de todo o território do Brasil. A área da Amazônia se aproxima do território da União Europeia, que tem, segundo o site oficial, 4 milhões de quilômetros quadrados. No entanto, nem todos os países da União Europeia estão na Europa Ocidental.

Na verdade, houve até 2011 um bloco chamado União da Europa Ocidental (UEO), formado por Reino Unido, França, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Alemanha, Itália, Portugal e Espanha. O grupo foi extinto e as atividades foram incorporadas à União Europeia. O território dos antigos integrantes da UEO soma atualmente 2,2 milhões de quilômetros quadrados, quase metade da área da Amazônia.

Emissão de gases de efeito estufa

O que Bolsonaro disse: que o Brasil é responsável pela emissão de menos de 3% de gas carbônico do planeta, mesmo sendo a 10ª economia do mundo.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. O Brasil responde, de fato, por cerca de 3% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) no mundo, como já mostrou esta checagem do Estadão Verifica, mas isso não significa que o País polui pouco. Um levantamento divulgado em outubro do ano passado pelo think tank Carbon Brief mostra que o Brasil ocupa a quarta posição no ranking mundial de emissões de carbono acumuladas entre 1850 e 2021, atrás apenas de Estados Unidos, China e Rússia. Uma diferença considerável entre o Brasil e estes outros países é que neles o principal responsável pela emissão de gases poluentes é a queima de combustíveis fósseis, enquanto no Brasil é a agropecuária e o uso da terra que respondem pela maior parte das emissões, segundo dados do Sistema Nacional de Registros de Emissões (Sirene)  atualizados pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Se considerados apenas os dados de 2020, o Brasil ocupa a 12ª posição no ranking global, com 467 milhões de toneladas de CO2 lançadas na atmosfera. Atualmente, a China é o maior emissor, seguida pelos Estados Unidos e Índia.

Recentemente, o Brasil voltou a integrar a lista das maiores economias do mundo no ranking da agência Austin Rating, ocupando a 10ª colocação no primeiro trimestre de 2022. No ranking de crescimento, o Brasil ficou em 9º lugar.

Fontes renováveis

O que Bolsonaro disse: que 85% da energia gerada no Brasil vem de fontes renováveis.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: não é bem assim. De acordo com o Balanço Energético Nacional de 2022, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética do Ministério de Minas e Energia, em 2021 78,1% da energia elétrica nacional vinha de fontes renováveis. Porém, quando considerado todo o consumo de energia no País, a participação de fontes renováveis cai para 44,7%. O petróleo e seus derivados têm a maior parcela na entrega de energia no Brasil, 34,4%.

Segundo dados do Balanço Energético Mundial 2020, da Agência Internacional de Energia (IEA), o País tem o maior percentual entre as nações do G20. Logo atrás estão Indonésia (25%) e Índia (22%). A taxa do Brasil também supera a média mundial, de apenas 13,8% de energia renovável.

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