Boato distorce fala da OMS sobre retomada de atividades durante pandemia

Boato distorce fala da OMS sobre retomada de atividades durante pandemia

Ao contrário do que alegam publicações que viralizaram no Facebook, diretor da entidade apenas reforçou orientações já apresentadas sobre retorno de serviços, afirmando que avaliação cabe a cada país

Gabi Coelho, especial para o Estado

31 de julho de 2020 | 13h37

Publicações no Facebook tiram de contexto uma frase dita durante uma coletiva de imprensa da Organização Mundial da Saúde (OMS) pelo epidemiologista e diretor do Programa de Emergências em Saúde da entidade, Michael Ryan. No dia 27 de julho, ele disse que “as economias têm que se abrir, as pessoas têm que trabalhar, o comércio tem que voltar”. No entanto, a declaração não representa uma mudança no discurso da OMS nem uma orientação imediata para a suspensão de medidas de quarentena, como postagens enganosas nas redes sociais fazem crer. Ryan respondia a uma pergunta sobre fechamento de fronteiras e afirmou considerar que, a médio prazo, “vai ser quase impossível para cada país manter suas fronteiras fechadas num futuro próximo”.

Sobre a reabertura das fronteiras, o epidemiologista orientou que os riscos sejam avaliados em cada país, pois algumas áreas estão com a situação controlada, e as viagens internacionais podem fazer com que o número de casos volte a crescer. Para ele, é importante que cada governo avalie suas condições para voltar às atividades, prezando por estratégias que evitem a disseminação da doença entre os países.

Além disso, no início de sua resposta, Ryan deixa claro que “a OMS sempre aconselhou que medidas de viagem devem ser usadas em conjunto com outras medidas, que por si só as medidas de viagem não são eficazes para lidar com o movimento da doença”. Veja o contexto completo da frase citada na postagem enganosa.

“Se trabalhamos muito duro em um determinado país e suprimimos a infecção a um nível muito baixo e conseguimos isso durante três ou quatro meses de trabalho muito duro, qual é o risco extra agora de abrir fronteiras e aumentar a mobilidade, e como você administra esse risco? Mais uma vez, volta-se a esta ideia de que será quase impossível para cada país manter suas fronteiras fechadas num futuro próximo. As economias têm que se abrir, as pessoas têm que trabalhar, o comércio tem que retomar. Então, como reabrimos e como retomamos o comércio global e o movimento de pessoas, bens e serviços, mas como o fazemos de forma que seja possível identificar e minimizar os riscos associados a viagens internacionais? Acho que é com isso que os governos estão se debatendo agora e nós acreditamos que é possível identificar e minimizar os riscos associados a viagens internacionais e, obviamente, isso cabe aos governos em termos de que políticas públicas adotar para o movimento de pessoas entre um país e outro”.

A transcrição completa da entrevista coletiva está abaixo, em inglês. A resposta de Ryan sobre reabertura de fronteiras pode ser lida a partir da página 13.

Transcrição OMS

Na mesma coletiva, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a pandemia do novo coronavírus é a pior emergência de saúde pública de interesse internacional decretada pela organização. Ele também afirmou que, ao longo desses seis meses, as medidas de combate à covid-19 devem permanecer as mesmas: encontrar os casos por meio de testagem e rastreamento de contatos, isolar suspeitos e confirmados, oferecer tratamento àqueles com a doença.

Tedros voltou a recomendar o distanciamento social, a higienização das mãos e o uso de máscaras. “Onde essas medidas são seguidas, os casos caem. Onde elas não são, os casos sobem”, disse ele, elogiando casos como Alemanha, China, Canadá, Vietnã, Nova Zelândia, Ruanda e Tailândia.

Outras falas da OMS foram distorcidas

No início de junho o Estadão Verifica publicou uma checagem sobre informações enganosas que tiveram um grande alcance nas redes sociais depois de afirmarem que a OMS teria divulgado que “assintomáticos não transmitem a doença”.

A viralização aconteceu após uma entrevista da diretora técnica da OMS Maria Van Kerkhove a jornalistas no dia 8 de junho. Sem afirmar que a transmissão por assintomáticos não é possível ou apontar que medidas de isolamento mais amplas foram desnecessárias, a porta-voz disse apenas que existem alguns estudos em países que estão fazendo rastreamentos detalhados de casos que apontam que uma transmissão secundária por esse grupo é “muito rara”.

A Agência Lupa também checou o boato sobre a frase dita por Michael Ryan.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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