Boato circula com falso ‘plano de dominação comunista’ do PT
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Boato circula com falso ‘plano de dominação comunista’ do PT

Mentira nas redes sociais se refere a propostas de correntes petistas não-hegemônicas apresentadas em congresso de 2015

Alessandra Monnerat e Caio Sartori

12 Julho 2018 | 05h00

A presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), e a ex-presidente Dilma Rousseff participam de reunião na sede do PT, em São Paulo, nesta segunda-feira, 9, um dia depois do vaivém das decisões judiciais sobre o pedido de liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Um boato antigo sobre o PT voltou a circular no WhatsApp depois da novela judicial deste domingo, 8, envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso no âmbito da Operação Lava Jato. O texto, recebido várias vezes pelo Estadão Verifica no número 11 99263-7900, afirma que o partido teria publicado em seu site oficial um “plano de Dominação Comunista do País” e que espalhar a mensagem seria a “última chance de impedir que nosso país se torne uma nova Cuba.”

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A mensagem enumera uma série de diretrizes supostamente apontadas pela sigla, como a estatização da Rede Globo e a anulação das sentenças do mensalão. No entanto, não há nada do tipo apresentado como posicionamento oficial no site do PT. O link que acompanha o boato é um arquivo em formato PDF que reúne teses apresentadas por diferentes correntes petistas num congresso do partido realizado entre 11 e 13 de junho de 2015, em Salvador.

As afirmações do boato, quando existentes, foram citadas por alas diferentes da legenda. No entanto, elas não aparecem nas resoluções aprovadas naquele congresso, que foram documentadas pelo partido no relatório abaixo. Ou seja, não avançaram. São apenas ideias mais radicais — e às vezes deturpadas pelo boato — de correntes petistas específicas e não-hegemônicas.

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Veja o ponto a ponto do boato e o contexto (ou a falta dele) de cada afirmação:

‘Estatização da Rede Globo e de todas emissoras religiosas’

De fato, a frase é citada na tese da chapa Virar à Esquerda! Reatar com o Socialismo!, da Esquerda Marxista. Porém, a proposição é de um documento chamado “Carta Aberta ao companheiro Lula, à Presidente Dilma Rousseff e ao Diretório Nacional do PT”, escrito no final de 2014. No congresso de 2015, a própria corrente marxista admite que o partido tomou um caminho diferente do proposto na carta. Nas resoluções finais petistas, não há nenhuma diretriz sobre o assunto.

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Veja o documento abaixo.

‘Imunidade aos movimentos como MST e MTST, que poderão agir sem serem presos’.

Não há nenhuma menção a essa frase no documento de teses do Congresso do PT. A única vez em que os movimentos são citados é na sentença “constituir um governo apoiado nas organizações populares, na CUT, no MST, entre outras”, proposta da carta aberta da Esquerda Marxista citada acima.

‘Anulação das sentenças do Mensalão’ e ‘impeachment dos Ministros do STJ que foram a favor da condenação do Mensalão’

A chapa Diálogo e Ação Petista pede a “anulação da Ação Penal 470” — processo criminal aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) contra os 40 denunciados no escândalo do Mensalão. Já a Esquerda Marxista sugere o “impeachment dos ministros do STF que votaram na farsa da AP 470, a liberdade imediata e anulação da sentença dos dirigentes do PT”. Nenhuma das diretrizes foi aprovada pelo partido. Nas resoluções petistas, o PT concorda em lutar contra a corrupção, aprofundando “a participação e o controle social da gestão do Estado.”

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‘Cancelar todas as privatizações do Brasil, assim como a Bolívia fez no passado’

A reestatização de empresas privatizadas é sugerida por duas chapas: Diálogo e Ação Petista e Virar à Esquerda! Reatar com o Socialismo!. No entanto, não há qualquer menção à Bolívia nesse sentido. No documento final aprovado pelo PT, o partido afirma ser contrário a privatizações, mas não fala de cancelamento.

‘Cassação do mandato de Jair Bolsonaro

A tendência Articulação de Esquerda, responsável pela tese ‘Um partido para tempos de guerra’, diz que, num Congresso conservador e então presidido por Eduardo Cunha, temas como a reforma política, a “lei da mídia democrática”, a punição dos crimes da ditadura militar, o combate à corrupção e “mesmo a cassação do deputado Jair Bolsonaro” só terão chance de avançar caso haja pressão social. Ou seja, deixa subentendido que é sim a favor da cassação de Bolsonaro. No entanto, a resolução também não entrou no relatório final do partido.

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Militantes do PT protestam em frente à sede do partido, em São Paulo, na segunda-feira, 9. Foto: EFE/Marcelo Chello

‘Fim do Financiamento Público a qualquer mídia que seja contrária ao Partido’.

A corrente Esquerda Marxista pede o “fim imediato do financiamento público a toda a imprensa burguesa (jornais e revistas) feitos através dos anúncios de publicidade estatais”. A resolução final do partido, no entanto, não acata essa sugestão.

‘Calote da dívida interna e externa’

A proposta só é sugerida por um grupo, a Chapa Virar à Esquerda! Reatar Com o Socialismo, que assina a tese ‘Abaixo a política de austeridade’. De fato eles sugerem enviar ao Congresso uma lei orçamentária que acabe com o pagamento das dívidas interna e externa para usar o dinheiro com “Transporte, Saúde e Educação, públicos e gratuitos para todos, uma política para elevar o Salário Mínimo ao piso constitucional (DIEESE), reduzir a jornada para 40 horas sem redução de salários.” Mas, assim como as outras medidas citadas pelo boato, não foi aprovada como resolução do partido.

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‘Declaração de que o Brasil é o fiador dos países comunistas da América’

A afirmação está completamente deturpada. O que há, na verdade, é um parágrafo da chapa Partido Para Todos e na Luta, na tese ‘O Tempo Não Para’, dizendo que a reeleição de Dilma em 2014 foi “a grande vitória das possibilidades democráticas e populares no Brasil e no mundo” e que o Brasil é fiador de “um importante processo político e econômico em curso no mundo”, cuja derrota seria prejudicial à esquerda na América Latina. Nada relacionado a comunismo.