Áudio com informações falsas sobre Coronavac não é de médico do Hospital Albert Einstein
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Áudio com informações falsas sobre Coronavac não é de médico do Hospital Albert Einstein

Homem identificado como 'Roberto Klaus' em gravação que circula no WhatsApp espalha dados errados sobre imunizantes contra covid; não há registro de profissional com esse nome no Conselho Federal de Medicina

Pedro Prata

03 de junho de 2021 | 08h32

É falso que o hospital Albert Einstein tenha um médico chamado Roberto Klaus em seu corpo clínico. Circula nas redes sociais um áudio de um homem que é identificado dessa maneira — ele desencoraja a vacinação contra a covid-19 e recomenda uso profilático de ivermectina, medicamento sem eficácia comprovada contra o coronavírus. Leitores solicitaram a checagem desta alegação por meio do WhatsApp do Estadão Verifica, (11) 97683-7490.

A assessoria de comunicação do Hospital Israelita Albert Einstein confirmou por e-mail que não há um Roberto Klaus no corpo clínico da unidade. Procuramos médicos com nome ou sobrenome “Klaus” nos registros do Conselho Federal de Medicina (CFM) para tentar localizar o autor do áudio. No entanto, não há nenhum Roberto Klaus dentre os médicos cadastrados. A busca considerou também as possíveis variações como, por exemplo, Klauss, Klausner e Grossklaus.

Foto: Luis Robayo/AFP

Dados de testes clínicos com a Coronavac

O suposto médico Roberto Klaus diz que “a eficiência da Coronavac é a pior que surgiu nos tempos atuais. Ela tem 50,38%”. Também diz que isso “significa que metade das pessoas que tomarem, não vão fabricar nenhum tipo de proteção”.

Os ensaios clínicos de fase 3 conduzidos no Brasil contaram com 13.060 voluntários, todos médicos. A eficácia obtida foi de 50,38%. É falso, porém, que isso queira dizer que metade das pessoas não terão proteção alguma.

Esse número foi obtido a partir do número de casos sintomáticos que ocorreram dentre os voluntários. Foram 252 contaminados, sendo 167 no grupo placebo (que não recebeu vacina) e 85 nos que receberam o imunizante. O número de vacinados que desenvolveu a doença é 50,38% menor do que o de contaminados sem vacina. 

O índice sobe para 78% em casos leves que precisaram de algum tipo de atendimento médico. Já para casos moderados e graves, a taxa encontrada foi de 100%. No entanto, esse dado foi obtido com análise de apenas sete pacientes com este quadro, todos identificados no grupo placebo, que não recebeu a vacina. Este número é estatisticamente pequeno, por isso seriam necessários mais casos graves para poder se obter um dado relevante.

O homem no áudio fala que “(a Coronavac) não foi avaliada nem acima de 59, nem abaixo de 18 (anos)”. Na verdade, ela foi sim avaliada em idosos na China, nos ensaios de fase 2, e no Chile, em ensaios de fase 3.

No Brasil, em setembro de 2020, o Instituto Butantan ampliou a testagem da vacina e permitiu que pessoas acima de 60 anos pudessem participar dos ensaios clínicos.

Após conseguir autorização emergencial para uso em adultos, a Coronavac agora é testada em crianças e adolescentes. Dados preliminares de um teste com 500 voluntários entre 3 e 17 anos mostram que a vacina deverá ser segura e capaz de provocar reações imunológicas. Os dados ainda não foram publicados em nenhuma revista científica.

Vacina da Coronavac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac. Foto: Gent Shkullaku/AFP

É falso que vacinas interajam com DNA

O áudio falsamente alega que “não sabemos nada da segurança delas a médio/longo prazo porque são vacinas gênicas, mexem com nosso código genético”. Essa informação falsa refere-se aos imunizantes desenvolvidos com tecnologia RNA, como os das empresas Pfizer e Moderna.

O DNA é a molécula que contém toda a nossa informação genética. Em nossa célula, o DNA fica dentro do núcleo. Para haver a produção de proteínas necessárias ao funcionamento da célula, a informação do DNA precisa ser transcrita em RNA. Quando isso acontece, o RNA é enviado como se fosse uma mensagem para o citoplasma, onde estão as estruturas celulares que vão produzir as proteínas.

No caso dos imunizantes contra a covid-19, eles contêm pedaços selecionados do RNA do coronavírus responsáveis pela proteína S (spike), característica do SARS-CoV-2. Esse pedaço do RNA entra na célula e determina a produção da proteína S. É essa proteína que os anticorpos vão identificar e atacar. Assim, quando o corpo entrar em contato com o coronavírus, vão identificá-lo a partir dessa proteína e evitarão a infecção.

A segurança das vacinas de RNA foi testada rigorosamente e estudos clínicos mostraram que elas oferecem resposta imune duradoura”, diz a Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade nega que vacinas de RNA interajam com o DNA humano.

A Coronavac é desenvolvida com tecnologia diferente das vacinas Pfizer e Moderna. O imunizante usa vírus inativados, uma técnica usada há mais de um século.

O suposto médico Roberto Klaus questiona a velocidade com que os atuais imunizantes contra a covid-19 foram aprovados. O Projeto Comprova mostrou que agências reguladoras não estipulam tempo mínimo para a realização de testes de uma vacina.

Vacinas contra a covid-19 foram aprovadas em tempo recorde. A primeira vacina fora de testes foi aplicada no Reino Unido, em dezembro de 2020, menos de um ano depois da detecção do coronavírus na China.

Essa agilidade foi possível porque toda a atenção científica estava voltada para a emergência em saúde da covid-19. Governos não pouparam investimentos em pesquisas de vacinas e autoridades regulatórias aprovaram medidas para acelerar processos burocráticos. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a submissão contínua de dados técnicos sobre as vacinas. Isso possibilitou à agência pular etapas, mas manteve exigência de requisitos essenciais como segurança, qualidade e eficácia.

De fato, é a primeira vez que vacinas gênicas são distribuídas à população. No entanto, elas eram estudadas há anos. As vacinas de RNA já eram avaliadas no combate à Zika, raiva e influenza. As vacinas de DNA já eram aplicadas em humanos em testes clínicos para alguns tipos de câncer.

Enfermeiro prepara dose da vacina da Pfizer no Kuwait. Foto: Yasser Al-Zayyat/AFP

Ivermectina

A ivermectina é um medicamento utilizado para tratar infecções intestinais e de pele causadas por parasitas. Seu uso fora do estipulado em bula, para o tratamento de covid-19, passou a ser alardeado depois que uma pesquisa na Universidade de Monash, na Austrália, mostrou que ela eliminou o coronavírus de células de cultura em laboratório.

No entanto, a própria universidade alerta que “o potencial uso da ivermectina no combate da covid-19 permanece sem comprovação” até que ele seja confirmado em estudos pré-clínicos, em animais, e estudo clínicos, em seres humanos. Isso porque muitas substâncias eliminam vírus em células em laboratório. No entanto, somente testes com seres vivos podem mostrar se o remédio vai apresentar o mesmo resultado quando em contato com o metabolismo humano. Além disso, a Universidade de Monash destaca que “somente testes clínicos vão determinar a eficácia do medicamento em quantidades seguras para o consumo humano”.

Muitas pesquisas foram publicadas sobre este medicamento desde então. As principais agências reguladoras do mundo se posicionam contra o uso de ivermectina fora de estudos clínicos controlados, tendo em vista que a eficácia do seu uso contra a covid-19 ainda não foi comprovada.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) revisou as evidências científicas sobre este medicamento e decidiu que os dados atuais não sustentam seu uso contra o coronavírus fora de estudos clínicos controlados. Segundo comunicado do EMA, “embora a ivermectina seja geralmente bem-tolerada nas doses autorizadas, efeitos adversos podem se intensificar com as doses muito maiores exigidas para se obter a concentração necessária para combater o coronavírus”.

É preciso considerar a toxicidade da ivermectina quando utilizada nas dosagens maiores do que as autorizadas. A Food and Drugs Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, emitiu alerta contra a automedicação com qualquer medicamento para a covid-19 que não tenha sido aprovado por ela.

A FDA recebeu relatos de pessoas que estariam ingerindo ivermectina aprovada para tratamento de parasitas em animais e lembra que isso pode causar danos à saúde. “Pessoas não devem consumir nenhum tipo de ivermectina que não tenha sido prescrito por um profissional de saúde licenciado e obtido de forma legítima”, diz o aviso da FDA. O órgão também desaconselha o uso de ivermectina fora de estudos clínicos controlados, tendo em vista que sua eficácia ainda não foi comprovada.

O Ministério da Saúde do Brasil publicou uma nota técnica, em março de 2021, na qual afirma que os resultados de pesquisas atuais “não suportam a recomendação de uso da ivermectina no tratamento de pacientes com covid-19”. Segundo a nota técnica, é adequada a “recomendação da OMS para que a ivermectina seja utilizada, apenas, em protocolos de pesquisa clínica”.

O documento lembra que o uso de ivermectina contra o coronavírus não foi respaldado pelas agências reguladoras e nem pelo fabricante do medicamento. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já reforçou que o uso de ivermectina não é recomendado contra o coronavírus.

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