Após ataque de Bolsonaro ao presidente da OAB, simpatizantes do governo espalham boatos infundados sobre Fernando Santa Cruz
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Após ataque de Bolsonaro ao presidente da OAB, simpatizantes do governo espalham boatos infundados sobre Fernando Santa Cruz

Registros oficiais indicam que desparecimento de pai de Felipe Santa Cruz foi "em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado Brasileiro"

Alessandra Monnerat

30 de julho de 2019 | 16h25

O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz Foto: Isac Nóbrega/Planalto e Wilton Junior/Estadão

A máquina de desinformação alimentada por simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro elegeu como alvo mais recente Fernando Santa Cruz, pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. Boatos que circulam no Facebook buscam falsamente ligar Fernando a atos terroristas cometidos durante a ditadura militar. Não há indícios de ele tenha participado da luta armada na época. Militante político, Fernando foi preso pelos militares em 1974 e assassinado. Os registros oficiais indicam que seu desaparecimento ocorreu “em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado Brasileiro”.

Os boatos passaram a circular nas redes sociais após Bolsonaro atacar o presidente da OAB e afirmar, sem evidências na realidade, que Fernando Santa Cruz foi morto por seus correligionários que combatiam a ditadura, e não pelos militares. As investigações da Comissão Nacional da Verdade (CNV) contradizem o presidente e as publicações enganosas no Facebook.  O relato oficial dos militares sobre o combate à luta armada também contraria a versão propagada por Bolsonaro. O nome de Fernando não aparece no “Orvil” – livro feito por oficiais que tiveram acesso a documentos secretos da ditadura – entre os que teriam executados pelos próprios grupos de esquerda.

De acordo com o relatório final da CNV, diferentemente de outros desaparecidos, “Fernando tinha emprego e endereço fixos e, portanto, não estava clandestino ou foragido dos órgãos de segurança quando desapareceu, aos 26 anos”. 

Ele era funcionário público do Departamento de Águas e Energia Elétrica, em São Paulo. Era casado com Ana Lúcia Valença desde 1970. Quando foi morto, em 1974, seu filho Felipe ainda não havia completado 2 anos. 

Em entrevista ao jornal O Globo, o advogado Pedro Dallari, que foi coordenador e relator da CNV, reforçou que não há indícios de que Fernando tenha aderido à luta armada. “Mas isto não é o mais relevante”, afirmou. “As famílias têm o direito de velar e sepultar seus filhos. Há dois documentos que indicam que o Fernando Santa Cruz esteve detido em repartição militar em fevereiro de 1974, portanto, ele estava custodiado pelo Estado brasileiro e depois desapareceu. Isto sim é grave.”

Segundo a CNV, Santa Cruz foi preso em 22 ou 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, junto com um amigo de infância, Eduardo Collier Filho. O relatório da comissão cita duas possibilidades envolvendo o desaparecimento dos dois. Eles podem ter sido levados para o DOI-CODI de São Paulo e sepultados como indigentes no Cemitério Dom Bosco, em Perus; ou encaminhados à chamada Casa da Morte, em Petrópolis, e seus corpos levados para incineração em uma usina de açúcar.

Anúncio publicado em 30/1/1975 informando sobre o desaparecimento de Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira. Foto: Acervo Estadão

O relatório da CNV sobre Fernando Santa Cruz se baseia em 16 documentos, dois depoimentos de familiares e três depoimentos de agentes do Estado. 

Na semana passada, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao governo, emitiu uma retificação de atestado de óbito do pai do presidente da OAB. Com isso, o Estado reconheceu oficialmente responsabilidade pela morte “não natural e violenta”.

Fernando Santa Cruz militou na Ação Popular (AP) e na Ação Popular Marxista Leninista (APML). As duas organizações políticas foram formadas por membros da Juventude Universitária Católica (JUC) e da Juventude Estudantil Católica (JEC). Entre os integrantes mais notáveis estão o sociólogo Herbert José de Sousa, o Betinho, e o ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB).

De acordo com o CPDOC da FGV, com a repressão do regime militar a AP alterou sua atuação. Muitos de seus quadros fugiram para o exterior, passaram à clandestinidade ou foram presos. A organização passou a se dedicar à “preparação de quadros para enfrentar uma eventual luta insurrecional”.

Uma das publicações no Facebook tenta relacionar Fernando Santa Cruz ao atentado ao aeroporto de Guararapes, em Recife, que deixou dois mortos e 14 feridos. Para isso, utiliza uma foto de uma capa do Jornal do Commercio de 1966 sobre o ocorrido. No dia 25 de julho daquele ano, uma bomba explodiu no saguão do terminal. O alvo era o general Arthur da Costa e Silva. 

De acordo com um documento do Ministério da Aeronáutica de março de 1970, divulgado pela Comissão da Verdade de Pernambuco, o autor do atentado foi Raimundo Gonçalves de Figueiredo, militante da AP. Os militares escreveram na época que se tratava de uma ação isolada de Raimundo, que “agiu à revelia do Comando Nacional da AP”.

Não há indícios que Fernando Santa Cruz tenha participado do atentado. Por décadas, o ex-deputado federal Ricardo Zarattini e o professor Edinaldo Miralda foram acusados de terem plantado a bomba no aeroporto. Os dois foram presos e torturados. Só seriam inocentados em 2013.

Na semana passada, a jornalista Miriam Leitão também foi alvo de desinformação nas redes sociais após ser atacada pelo presidente Jair Bolsonaro. Assim como Fernando Santa Cruz, ela foi falsamente acusada de ter participado da luta armada.

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