Apelo por distribuição de remédios cita medicamentos sem eficácia comprovada contra o coronavírus
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Apelo por distribuição de remédios cita medicamentos sem eficácia comprovada contra o coronavírus

Post viral no Facebook defende que governadores e prefeitos deixem população se tratar em casa para evitar superlotação de hospitais

Samuel Lima, especial para o Estado

12 de maio de 2020 | 18h09

Remédios que aparecem em postagens nas redes sociais com apelos a governadores e prefeitos não têm eficácia comprovada contra a covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus. Os posts analisados pelo Estadão Verifica — que defendem a distribuição de até quatro medicamentos para a população se tratar em casa, de modo a evitar a superlotação de hospitais — tiveram mais de 660 mil visualizações e 20 mil compartilhamentos no Facebook até a tarde desta terça-feira, 12.

Os textos são acompanhados por fotos de caixas de dois ou quatro remédios, entre eles ivermectina, hidroxicloroquina, azitromicina e Tamiflu (nome comercial do oseltamivir). “Pelo amor de Deus, governador e prefeito, distribua essas remédios para o povo se tratar em casa no início do contágio e você vai ver os hospitais desafogando”, diz a legenda das postagens.

Postagens com apelo a governadores e prefeitos pela distribuição de remédios viralizou no Facebook. Foto: Reprodução

Procurado pelo Estadão Verifica, o Ministério da Saúde afirma que não recomenda o uso de nenhum medicamento sem prescrição médica. “Não existem estudos conclusivos que comprovem a eficácia de qualquer medicamento para o tratamento de covid-19. No momento, os medicamentos citados não têm indicação para prevenção ou para tratamento de pacientes infectados”, esclarece o órgão de saúde.

O uso de remédios ainda em fase de testes, sem recomendação médica, pode causar graves danos à saúde. Além da possibilidade de intoxicação e de efeitos colaterais, essa prática pode resultar em desabastecimento de produtos para quem realmente precisa, de acordo com notas do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Leonardo Weissmann relata que nenhum dos remédios citados foi desenvolvido para essa finalidade. A ivermectina é um remédio utilizado no tratamento para vermes; a hidroxicloroquina é recomendada contra malária e doenças autoimunes, como artrite reumatóide e lúpus; a azitromicina é um antibiótico que combate infecções por bactérias; e o Tamiflu (oseltamivir) é direcionado a pacientes com gripe, causada pelo vírus influenza, diferente do coronavírus. “Todos eles têm estudos analisando uma possível eficácia contra o SARS-Cov-2 (novo coronavírus), mas nada de comprovado até o presente momento”, afirma o médico.

Dessa forma, não faz sentido distribuir os medicamentos para a população se tratar em casa, sem acompanhamento profissional. “O risco de tomar medicamentos sem necessidade é desenvolver efeitos adversos por medicamentos que talvez nem tenham benefício”, avalia Weissmann. Todos os efeitos adversos dos remédios podem ser consultados no bulário eletrônico da Anvisa, pesquisando pelo nome dos medicamentos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que não há vacina, nem medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar a covid-19. A orientação para quem apresenta sintomas leves (os mais comuns são febre, cansaço e tosse seca) é de ficar em casa, praticar o isolamento social e monitorar os sintomas. Em torno de 80% das pessoas se recuperam sem precisar de tratamento especial, informa a organização. A OMS indica atendimento médico imediato em caso de dificuldade de respirar ou de dor e pressão no peito.

Pesquisas em andamento

O que existem, de fato, são pesquisas com essas e outras drogas para descobrir se elas podem ajudar no combate da covid-19 em alguma maneira. Porém, ainda não há resultados conclusivos, o que descarta a possibilidade de uso na prevenção ou no tratamento pela população em geral, especialmente sem prescrição médica.

A ivermectina foi testada em estudo feito por pesquisadores da Universidade de Melbourne e do Hospital Royal Melbourne, na Austrália, que demonstrou que o medicamento é capaz de matar o novo coronavírus in vitro. No entanto, os próprios cientistas pediram cautela sobre a descoberta e afirmaram que são necessários testes clínicos para avaliar a eficácia do remédio na prática, fora do laboratório.

A hidroxicloroquina foi combinada com a azitromicina em algumas pesquisas, obtendo resultados promissores. Assim, passou a ser defendida publicamente pelos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro. Estudos recentes, porém, colocaram em dúvida a eficácia, ao concluir que o uso desses medicamentos não traz benefícios aos pacientes, e outra pesquisa em Manaus, no Amazonas, apontou para riscos cardíacos da associação.

A aplicabilidade do Tamiflu (nome comercial do oseltamivir) também foi cogitada para conter o novo coronavírus, mas foi descartada por levantamento recente da Universidade do Texas, feito a pedido da Associação. Médica Americana. A pesquisa, divulgada em 15 de abril, revisou 109 testes clínicos realizados até então.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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