Agência dos EUA descartou relação de vacina com morte de voluntários da Pfizer; maioria dos óbitos ocorreu em grupo de placebo

Agência dos EUA descartou relação de vacina com morte de voluntários da Pfizer; maioria dos óbitos ocorreu em grupo de placebo

Postagens nas redes sociais espalham informação falsa de que seis pessoas teriam morrido após início da vacinação no Reino Unido

Pedro Prata

15 de dezembro de 2020 | 14h25

É falso que seis pessoas imunizadas com a vacina da Pfizer contra a covid-19 na Inglaterra teriam morrido. A alegação é feita em postagens nas redes sociais que tiram de contexto as circunstâncias de óbitos registrados ainda na fase de testes do imunizante. Duas das pessoas que morreram haviam tomado a vacina, e as outras quatro haviam tomado um placebo. Mais importante, a agência reguladora dos Estados Unidos descartou relação entre as mortes e o imunizante.

Em 2 de dezembro, o Reino Unido se tornou o primeiro país do Ocidente a autorizar uma vacina contra a covid-19 e a campanha de imunização em massa começou seis dias depois. Já nos Estados Unidos, a agência regulatória FDA aprovou o uso emergencial do imunizante e as primeiras doses começaram a ser administradas nesta segunda-feira, 14. A FDA considerou o imunizante seguro e eficaz contra a doença.

Quatro dos voluntários sequer haviam tomado a vacina. Foto: Reprodução

Não há registros na imprensa profissional de pessoas que teriam morrido na Inglaterra após tomar a vacina da Pfizer. As postagens analisadas nesta verificação acompanham o link para um site australiano que comenta sobre seis mortes ocorridas ainda durante o período de testes clínicos. Apesar disso, também é errôneo ligar os óbitos à vacina.

Das seis mortes registradas, duas ocorreram no grupo que recebeu o imunizante. Um dos voluntários morreu de parada cardíaca, 62 dias após tomar a segunda dose; e o outro morreu, três dias após receber a primeira dose, de arteriosclerose, condição médica que ele já tinha anteriormente. Nenhuma delas teve a vacina como causa considerada.

As quatro mortes restantes foram registradas no grupo de placebo, isto é, entre as pessoas que não receberam a vacina e que serviram de parâmetro para os resultados obtidos com os imunizados. Destes, dois não tiveram as causas da morte identificadas, um morreu de enfarte do miocárdio e outro de derrame hemorrágico.

Este conteúdo circulou nos Estados Unidos e foi checado por Reuters e Politifact. No Brasil, mensagens semelhantes viralizaram após serem compartilhadas pelo empresário bolsonarista Carlos Wizard e pelo médico Alessandro Loiola. Este último já teve alegações checadas pelo Estadão Verifica e uma entrevista retirada do ar pelo YouTube por espalhar desinformação sobre a pandemia de covid-19.

Entramos em contato com Wizard e Loiola por meio de e-mails ligados a seus sites, mas não obtivemos resposta até a publicação desta checagem.

A vacina da Pfizer

A vacina das empresas Pfizer e BioNTech utiliza uma tecnologia inovadora que introduz nas células humanas uma parte da informação genética do novo coronavírus (SARS-CoV-2) responsável pela produção de um antígeno viral. Desta forma, as células passam a produzir este antígeno, que será reconhecido pelo sistema imunológico e motivará a produção de anticorpos que protegerão o corpo contra o vírus.

A vacina da Pfizer precisa ficar armazenada em a temperaturas abaixo de -70ºC, o que levou o governo federal a inicialmente vê-la com ressalvas. Apesar disso, em meio à disputa política com o governador João Doria para entregar primeiro uma vacina, o ministro Eduardo Pazuello anunciou negociações para aquisição de 70 milhões de doses do imunizante. Estas, porém, não devem começar a chegar antes de janeiro.

As vacinas de tecnologia RNAm são alvo de desinformação nas redes sociais. O Estadão Verifica já desmentiu que as vacinas desenvolvidas desta forma possam causar defeitos genéticos. O Ministério da Saúde reconhece que elas são seguras, pois não há “integração do RNAm injetado ao genoma do indivíduo vacinado”.

Caixa do remédio sulfato de hidroxicloroquina, conhecido como Reuquinol, sem eficácia comprovada contra a covid-19. Foto: Márcio Pinheiro/SESA

Tratamento precoce

Em sua postagem sobre as mortes de voluntários de testes da vacina, Carlos Wizard ainda faz propaganda de um site com informações de um suposto tratamento precoce contra a covid-19. O site já foi desmentido pelo Projeto Comprova e o Estadão Verifica por divulgar informações de medicamentos que não possuem eficácia comprovada contra a infecção pelo novo coronavírus, como a ivermectina, azitromicina e hidroxicloroquina. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o FDA, dos Estados Unidos, não recomendam o uso indiscriminado da hidroxicloroquina e cloroquina “sem a confirmação de que realmente funcionam”.

Wizard é fundador da rede de escolas de inglês que leva o seu nome e chegou a ser convidado para chefiar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde. Ele coordenaria parcerias com a iniciativa privada para fabricação de medicamentos e outros insumos, mas desistiu após se envolver em polêmicas por sugerir que haveria fraude no número de mortos por covid-19 no País. Alegações deste tipo também já foram desmentidas pelo Estadão Verifica e o Projeto Comprova.

Até esta terça-feira, 15, o Brasil já tinha registrado 6,9 milhões de infecções pelo novo coronavírus, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. O País tem o segundo maior número de mortes, 181.835, atrás apenas dos EUA.

O Estadão Verifica fez esta checagem baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 15 de dezembro de 2020.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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