Médico ignora diferenças entre covid-19 e tuberculose para minimizar pandemia
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Médico ignora diferenças entre covid-19 e tuberculose para minimizar pandemia

Ambas as doenças podem ser letais, mas a pandemia de covid-19 exerce um impacto desproporcional sobre serviços de saúde, segundo especialistas

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

26 de novembro de 2020 | 12h10

Circula no WhatsApp um vídeo em que o médico Alessandro Loiola compara a fatalidade entre a covid-19 e a tuberculose para minimizar a gravidade da doença provocada pelo novo coronavírus. Embora de fato a tuberculose mate mais de 1 milhão de pessoas todos os anos, a comparação carece de contexto. Até esta quinta-feira, 26, mais de 1,4 milhão de pacientes com covid-19 morreram este ano em todo o mundo. Na quarta-feira, 25, houve recorde no número de óbitos em decorrência do novo coronavírus — foram 12.785.

Em entrevista publicada no canal do YouTube do jornalista Luis Lacombe, Loiola disse que “por uma doença [covid-19] que está matando menos do que a tuberculose, a gente fechou o mundo inteiro”. Um trecho da entrevista foi enviado ao WhatsApp do Estadão Verifica(11) 97683-7490.

Na foto baciloscopia é feito para detecção do bacilo da turbeculose no laboratorio do Instituto Adolpho Lutz. FOTO:WERTHER SANTANA/ESTADÃO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a tuberculose a doença infecciosa mais letal do mundo. Segundo relatório publicado em outubro, mais de 10 milhões de pessoas foram contaminadas e 1,4 milhão morreram em decorrência dessa enfermidade em 2019. Já em relação à covid-19, há mais de 59,8 milhões de casos confirmados e 1,3 milhão de mortes de 11 de janeiro a 26 de novembro de 2020.

A comparação feita por Loiola entre as doenças ignora aspectos importantes a respeito do impacto das duas. Ao Estadão Verifica, o professor do departamento de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Eliseu Waldman classificou a comparação como “negacionista”. 

Ele explica que a tuberculose é um “problema crônico” que afeta principalmente populações vulneráveis de países de baixa renda, enquanto a pandemia do novo coronavírus apresenta escaladas súbitas e pode provocar o colapso de sistemas de saúde.

“Os problemas crônicos não têm o mesmo impacto, porque a mortalidade se distribui ao longo do ano e já é esperada. Os serviços de saúde não são pegos de surpresa”, destacou Waldman. “Por outro lado, os sistemas de saúde devem estar preparados para enfrentá-los, o que de via de regra não acontece em países de baixa renda”. 

De acordo com a OMS, o sudoeste asiático concentra mais de 44% dos casos de tuberculose, seguido pela África, com 25%. As Américas e a Europa correspondem a 2,9% e 2,5% de infecções, respectivamente. 

No Brasil, foram confirmados cerca de 4,8 mil óbitos de tuberculose em 2018, um número significativamente mais baixo do que as mais de 170 mil mortes por covid-19 registradas em 2020. Em abril, a quantidade de mortes diárias provocadas pelo novo coronavírus já superava os números de óbitos da tuberculose no País

Waldman pontua que as duas doenças podem ser transmitidas a partir do contato próximo entre indivíduos. Segundo ele, a covid-19 tem uma propagação mais rápida do que a tuberculose, mas ambas as doenças podem propagadas em ambientes fechados com aglomeração.

Menos letal do que a gripe?

Na entrevista, Lacombe cita um estudo de John Ioannidis, epidemiologista da Universidade de Stanford. De fato, um artigo publicado em preprint (ainda não revisado por outros autores) pelo cientista estima uma taxa de letalidade de 0,05% para covid-19. O dado, no entanto, refere-se a população com idade inferior a 70 anos. O índice geral de fatalidade médio exposto no estudo é de 0,27%. 

Os cálculos são efetuados a partir de dados de soroprevalência — isto é, de análises de anticorpos relacionados à covid-19 em populações de diversos países. Esses levantamentos podem indicar taxas mais precisas do número de infectados pela doença, uma vez que nem todos pacientes desenvolvem sintomas. 

As estatísticas do pesquisador, porém, não são consenso na comunidade científica. A OMS estima que o índice de fatalidade entre todas as idades de covid-19 seja de 0,6%, segundo a agência de notícias EFE. A entidade considera que a gripe sazonal costuma apresentar índices inferiores a 0,1% — valor já abaixo do total estimado por Ioannidis. Um artigo publicado na revista International Journal of Infectious Diseases aponta uma taxa de fatalidade um pouco maior, de 0,68%. 

De acordo com a professora do departamento de epidemiologia da USP Márcia Furquim, a despeito dos índices de mortalidade, a comparação entre a covid-19 e a gripe é equivocada porque desconsidera as sequelas que a doença causada pelo novo coronavírus pode deixar nos pacientes. “É uma falsa comparação”, afirma a epidemiologista. 

Estadão Verifica entrou em contato com Alessandro Loiola, mas não obteve resposta até a publicação desta checagem.

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