Governadores apontam Bolsonaro como pivô de crise federativa inédita desde a redemocratização

Governadores apontam Bolsonaro como pivô de crise federativa inédita desde a redemocratização

Alberto Bombig e Matheus Lara

17 de agosto de 2021 | 05h00

Há um ponto de consenso entre governadores do Nordeste ao Sul ouvidos pela Coluna em meio à pior relação entre os chefes de Executivo estaduais e federal desde a redemocratização: a culpa é do presidente.

Ontem, um grupo de 14 governadores assinou uma nota de apoio ao STF diante dos ataques de Bolsonaro e aliados à Corte. Não é a primeira vez que isso acontece diante de ameaças à democracia – e a tendência é que não seja a última.

“É a primeira vez que o Brasil tem da parte do poder central uma posição permanente antiestados e antimunicípios. É impensável, pois somos uma república federativa”, diz o governador do Piauí, Wellington Dias (PT). “Quando se coloca a disputa de poder pelo poder em primeiro lugar, perde-se a noção do todo.”

Governadores da esquerda à centro-direita veem Bolsonaro acuado diante de um governo desacreditado, em que só restam ameaças de rupturas institucionais. “Não me parece que o problema demande repensar a estrutura federativa. Definitivamente é caso de repensar o presidente”, avalia Eduardo Leite (PSDB-RS).

O governador Eduardo Leite (PSDB-RS). Foto: Dida Sampaio/Estadão

“A crise federativa deriva do presidencialismo de confusão que Bolsonaro implantou no Brasil. Ele não trabalha. O governo dele é vazio. Então ele precisa de confusão para tentar dar um golpe e fazer prevalecer as suas esdrúxulas vontades”, diz Flávio Dino (PSB-MA).

A crise entre presidente e governadores vem escalando na pandemia após uma leitura equivocada de Bolsonaro sobre decisão do STF que deu aos Estados poder decidir sobre estratégias de contenção do vírus. Apesar de a decisão não eximir a União de responsabilidades, Bolsonaro diz que ficou de mãos atadas. E então partiu para o ataque à Corte e aos Estados.

“A mobilização da maioria dos governadores é em defesa da Constituição, da democracia e da liberdade”, afirma João Doria (PSDB-SP). “Qualquer flerte ou iniciativa de natureza autoritária do presidente da república, tem contestação das forças democráticas dos principais Estados brasileiros e da maioria dos governadores do país que não aceitam qualquer ameaça à democracia.”

Para o cientista político José Álvaro Moisés, o conflito entre governadores e presidente é preocupante. “A natureza do pacto federativo demanda um diálogo permanente entre autoridades. Isso não está acontecendo. Bolsonaro estabeleceu uma guerra e isso está fazendo muito mal ao Brasil.”

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