DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Analistas veem tiros contra caravana de Lula como ameaça à democracia

Segundo eles, cenário para eleições de outubro é incerto e ninguém sai ganhando com o radicalismo

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 11h10

Analistas ouvidos pelo Estado avaliam os tiros disparados contra a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite desta terça-feira, como o momento mais agudo do radicalismo político no País. Para eles, o funcionamento da democracia está em risco neste ano eleitoral, com possibilidade de haver rupturas. O cenário para o pleito também fica ainda mais imprevisível do que já estava, dizem. 

“A polarização e o discurso do ‘nós contra eles’ são normais na democracia, que funciona na base de adversários. Isso não é o problema”, aponta o cientista político Claudio Couto, da FGV-SP. “O problema é quando temos extremismo, que supõe a eliminação do adversário. Nesse caso, não existe ‘nós contra eles’. Só existe o ‘nós’”

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Para o professor, o suposto aval aos tiros dado por nomes fortes da política só reforça o perigo antidemocrático - ao jornal ‘Folha de S. Paulo’, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria disseram que o PT colheu o que plantou. “Quando políticos do próprio establishment dão aval à bala dizendo que é uma resposta ao que o outro fala, isso é muito grave”, diz. “O PT polarizou com o discurso de ‘nós fizemos, eles não’, mas não pregou, por exemplo, a morte das elites, a eliminação dos adversários.”

Alckmin, segundo Couto, estaria atrás do eleitorado de Jair Bolsonaro, deputado que protagoniza a direita radical brasileira e aparece como líder das pesquisas de intenção de voto à Presidência num cenário sem Lula. O governador, pré-candidato ao Planalto pelo PSDB, poderia até herdar alguns votos do ex-capitão do Exército, assim como o PT pode lucrar politicamente em cima dos ataques. No entanto, o professor diz que a principal leitura da atual conjuntura aponta para um aumento da incerteza sobre o que vem por aí nos próximos meses.

Outro analista da FGV, o professor Marco Antônio Teixeira também acredita em possíveis rupturas democráticas caso o atentado não seja reprimido rapidamente. “Foi algo sem precedentes no período democrático”, diz. “O atentado não foi a um candidato, mas à própria democracia. Se não for reprimido, dá aval a outros casos.” Teixeira ficou surpreso com a declaração de Alckmin, que, apesar da tentativa de jogar com o eleitorado de Bolsonaro, pode perder votos do centro se radicalizar o discurso.

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Também na linha de que 2018 é uma incógnita, o cientista político Leonardo Avritzer, da UFMG, vê na falta de diálogo entre as forças políticas um dos grandes empecilhos para o fim do clima bélico. “Democracia funciona bem quando esquerda e direita não têm grandes diferenças entre si e conseguem conversar”, aponta o autor do livro ‘Impasses da Democracia no Brasil’.

Avritzer diz que a conjuntura de hoje, que vem desde 2014, pode ser comparada a períodos vivenciados pelo País em 1954, 1961 e 1964, que expuseram instituições frágeis. No entanto, ele acredita que hoje temos mais forças democráticas capazes de resolver a situação sem causar grandes rupturas.

Todos convergem quanto ao saldo de quem sairia ‘vencedor’ com esse tipo de ato: ninguém, dizem. “Todo mundo perde, a democracia perde”, aponta Marco Antônio Teixeira.

Alckmin. Depois da má repercussão da declaração dada na noite desta terça-feira, quando disse que o PT plantou o que colheu, o governador tucano usou o Twitter nesta manhã para repudiar os tiros e dizer que “toda forma de violência deve ser condenada”. Outros presidenciáveis também usaram as redes para criticar os atos.

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