Sai de cena Leandro Daiello

Sai de cena Leandro Daiello

Mais longevo diretor da Polícia Federal, seis anos e dez meses no cargo, delegado deixa a cadeira número 1 da corporação que será ocupada por Fernando Segóvia

Fábio Serapião, de Brasília, e Fausto Macedo

09 Novembro 2017 | 12h43

Leandro Daiello. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Sai de cena Leandro Daiello Coimbra, o delegado que durante seis anos e dez meses dirigiu a Polícia Federal, o mais longevo comandante da corporação no período democrático. Sob sua gestão, a PF protagonizou as mais espetaculares operações de combate à corrupção e a malfeitos em administrações públicas, entre elas a Lava Jato, a Acrônimo, a Zelotes, a Calicute, Ararath, tantas outras.

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Quando assumiu a cadeira número 1 da PF, em 2011 (governo Dilma), Daiello já pegou uma Polícia Federal protagonista e de cara nova. Muitos investigadores veteranos haviam pedido aposentadoria, outros foram “encostados” em cargos burocráticos.

A renovação em todo o País foi promovida pelo antecessor de Daiello, o delegado Luiz Fernando Corrêa, defensor da reciclagem para transformar a instituição em um braço técnico e apartidário do Ministério da Justiça.

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Gaúcho, doente pelo Grêmio, Daiello não tinha em seus planos profissionais tal desafio. Naquele ano de 2011 dirigia a PF em São Paulo e já estava praticamente de malas prontas para assumir a adidância em Roma, seu sonho e de sua família. Mas acabou sendo o escolhido para a direção-geral. “Troquei Roma por Brasília”, dizia, resignado.

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A PF já vivia uma fase de ações incisivas contra o crime organizado. Seis anos anos antes, havia investigado o mensalão do PT e deflagrou a Operação Xeque Mate, que investigou “Vavá”, o irmão mais velho do então presidente Lula, por suspeita de ligação com caça-níqueis.

Com a mudança geral dos quadros da instituição, Daiello herdou um aparato idealista, com uma força jovem e com elevado grau de politização.

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Habilidoso e conciliador, ele enfrentou inicialmente movimentos das entidades de classe. Soube contornar críticas dos sindicatos, em especial uma ofensiva da Associação dos Delegados para implantação da lista tríplice – nos moldes da Procuradoria – para escolha do seu sucessor. A lista até chegou às mãos do então ministro da Justiça (Alexandre de Moraes), mas não vingou.

A Lava Jato caiu no seu colo, em 2014, a partir de uma longa investigação do pessoal de Curitiba – base e origem da grande operação.

Ainda naquele ano, a Lava Jato chegou ao Supremo Tribunal Federal porque pegou políticos com foro privilegiado na Corte máxima. Sob a tutela de Daiello, foi criado o Grupo de Inquéritos da Lava Jato no Supremo, o GINQ.

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Com o ritmo dos inquéritos apontando para senadores, deputados e governadores, Daiello foi se fortalecendo. Especialmente, porque uma eventual saída sua poderia ser interpretada como o fim da Lava Jato.

Resistiu a sucessivas mudanças no Ministério da Justiça. Passaram por lá, durante sua gestão, os ministros José Eduardo Cardozo, Wellington César Lima e Silva, Eugênio Aragão, Alexandre de Moraes, José Levi Melo do Amaral Júnior e Torquato Jardim. Todos mantiveram Daiello no posto, por sua lealdade e conhecimento das investigações.

Nesses quase sete anos de Daiello no comando, a PF tocou inquéritos que bateram à porta do Palácio do Planalto, tanto dos governos do PT, de Lula e Dilma, como do PMDB, de Michel Temer. Também não houve tréguas para Aécio Neves, presidente licenciado do PSDB e alvo da Operação Patmos, por suposta propina de R$ 2 milhões da JBS.

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Nenhum deles, PT, PMDB ou PSDB, teve poder para barrar a PF de Daiello.

O segredo do diretor pode ser compreendido numa declaração recorrente do ex-ministro José Eduardo Cardozo.

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No auge da Lava Jato, cada vez que era cobrado por aliados do governo Dilma se não tinha controle da PF, Cardozo dizia que também recebia pressão dos adversários, com a mesma reclamação. Com isso, ele mandava um recado claro a seus interlocutores: o governo não exercia ingerências sobre as investigações da PF de Daiello.