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Lava Jato chega a empresários e políticos mirando em operadores

Lava Jato chega a empresários e políticos mirando em operadores

Força-tarefa diagramou nomes dos movimentadores de propina que lavaram dinheiro da corrupção na Petrobrás para chegar a líderes do esquema do PT e do PMDB, nas diretorias de Serviços e Internacional

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Redação

20 Setembro 2015 | 05h00

O operador do PMDB, Fernando Baiano, na PF em Curitiba

O operador do PMDB, Fernando Baiano, na PF em Curitiba

Por Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

Para atingir simultaneamente a origem e o destino dos recursos da corrupção na Petrobrás, a Operação Lava Jato concentrou esforços em peças consideradas intermediárias desta complexa e moderna estrutura de lavagem de dinheiro usada para escoar os mais de R$ 19 bilhões desviados dos cofres da estatal, desde 2004: os operadores de propina.

Um diagrama com o nome de pelo menos 20 desses operadores financeiros do câmbio negro é o mapa que guia a força-tarefa da Lava Jato, na atual fase das apurações, em busca de novas provas da corrupção em contratos das diretorias de Serviços e Internacional da Petrobrás – cotas do PT e do PMDB no esquema de loteamento político da estatal.

Lema passou a ser ‘conheça o caminho do dinheiro’

Na área de Serviços, são 11 lobistas alvos da 11ª fase da Lava Jato, batizada de Operação My Way, em referência ao apelido do ex-diretor Renato Duque, indicação pessoal do ex-ministro José Dirceu na Petrobrás. Entre eles o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto, Milton Pascowitch, delator de Dirceu, Zwi Skornik lobista da multinacional Keppel Fels.

Foto: Reprodução

Mário Góes fez delação premiada na Lava Jato. Foto: Reprodução

Na Diretoria de Internacional, cota do PMDB, o mapa dos operadores se divide em dois momentos: a gestão do ex-diretor Nestor Cerveró (2005 a 2008) e a do ex-diretor Jorge Zelada (2008 a 2012). Entre eles Hamylton Padilha e João Augusto Henriques e o mais novo delator da Lava Jato Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano.

Os operadores financeiros foram as peças responsáveis pelo desvio dos recursos nos contratos da Petrobrás.  Valores eram adicionados nos contratos ganhos pelo cartel para cobrir a propina – que para políticos e agentes públicos chegava a 3%. Depois, as empreiteiras usavam as empresas de consultoria ou mesmo de fachada desses operadores  para justificar os pagamentos e dar aparência legal aos desvios.

As revelações de Mário Góes, delator da Lava Jato

Com o dinheiro em conta, eles iniciavam o processo de dissimulação da origem através de movimentações em contas secretas abertas nos paraísos fiscais,  em nome de offshores,  ou realizando falsas importações. Por isso, são considerados os “nós” da teia de operações financeiras de lavagem, que une a fonte da corrupção,  como seus beneficiários finais.

Leia 22 depoimentos do delator Milton Pascowitch

Dentro desse grupo de operadores, a força-tarefa da Lava Jato trabalha com com a existência de quatro grupos distintos: o dos ligados aos partidos e com vinculação ideológica, como Vaccari; o dos ligados a legendas, mas sem papel de militância, como Fernando Baiano; o de agentes financeiros que atuam no mercado paralelo, como o suíço Bernando Freiburghaus, ligado à Odebrecht; e o dos consultores-lobistas, como Mário Góes, Hamylton Padilha.

“Fica a certeza de que, nos crimes de lavagem de dinheiro, cada vez mais sofisticados, é dificil para os órgãos de investigação a persecução criminal simplesmente seguir o rastro financeiro dos valores ilicitamente obtidos (“follow the money”), pois o dinheiro perde-se em emaranhado de operações sucessivas, muitas vezes envolvendo países diversos”, afirmou o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima – um dos nove membros da força-tarefa da Lava Jato, no MPF. “Aforma-se a importância desse bordão mais como uma peça de retórica, mas não como uma panaceia investigativa.”

Delações. Pelo menos cinco desses operadores que são focos centrais das atuais investigações da Lava Jato envolvendo os esquemas do PT e do PMDB fizeram acordo de delação premiada: Mário Góes, Milton Pascowitch, Shinko Nakandakari, Ferando Baiano e Hamylton Padilha.

Eles confessaram operarem nas Diretorias de Serviços e Internacional intermediando contratos de empresas nacionais e multinacionais, mediante o pagamento de propinas. Os destinos eram dirigentes da Petrobrás e os partidos do PT e PMDB. Os pagadores, empreiteiras do cartel, entre elas Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, UTC e Camargo Corrêa – duas já com executivos como réus confessos.

“Como são operadores de lavanderia complexas, a colaboração desses alvos é essencial para que se possa identificar mais detalhadamente a movimentação financeira das contas e operadores utilizados”, explica o procurador da Lava Jato.

Siga os operadores. Diante da complexidade das estruturas de lavagem usadas pelos alvos da Lava Jato, investigadores trocaram o “siga o caminho do dinheiro” pelo “conheça o caminho, os veículos e os transportadores do dinheiro”.

“Trata-se agora de monitorar os nós do sistema, localizando, através da análise sistemática dos dados, os corredores de passagem do dinheiro. Não se trata, portanto, de seguir o dinheiro, mas de conhecer os seus caminho, veículos e os seus transportadores”, escreveu o procurador da Lava Jato.

A frase do mais antigo da equipe de nove procuradores da força-tarefa do MPF, em Curitiba, é uma citação a um texto escrito por ele mesmo, três anos atrás. O contexto eram os resultados das investigações do caso Banestado.

Rastreando as contas e empresas offshores usadas por esses operadores de propina foi que os investigadores da Lava Jato têm conseguido quebrar a estrutura intermediária da lavagem de dinheiro e, assim, atingir corruptos e corruptores. São firmas de fachada abertas em países como Belize, Panamá, Uruguai, Hong Kong.

A estratégia já produziu os primeiros resultados dentro dos dois núcleos de mando no esquema alvo da Lava Jato: o empresarial e o político. Um ano e meio de apurações em sua fase ostensiva da Lava Jato, as primeiras condenações de executivos, agentes públicos e políticos pelo juiz federal Sérgio Moro – da 13ª Vara Federal, em Curitiba, onde estão os autos da Lava Jato com alvos sem foro privilegiado – são um exemplo.

OPERADORES DE PROPINA NA MIRA DA LAVA JATO

DIRETORIA DE SERVIÇOS – COTA DO PT

Mario Frederico Mendonça Goes – Operador de propinas do setor naval. Usavas empresas de consultoria Riomarine Oil & Gas e a Mago Participações. Usava as contas Marenelle e Phad, no bancos Safra da Suíça

Milton Pascowitch – Operador de propinas da construtora Engevix e de outras empresas, ligado ao ex-ministro José Dirceu. Usava empresas de consultoria Jamp Engenheiros Associados., Usava as offshores MJP International Gropu, no banco UBS AG, nos Estados Unidos e a Farallon Investing

Guilherme Esteves de Jesus – Operador de propinas do Estaleiro Jurong. Usava contas da offshore Opdale Industries Ltd

Adir Assad – Operador de propinas, alvo de outro escândalo, o dos contratos da construtora Delta. Usava as empresas Legend Associados, Soterra Terraplanagem e Locação de Equipamentos, Rock Star Marketing, SM Terraplanagem e Power To Ten Engenharia.

Zwi Skornicki – Operador de propinas e representante do estaleiro Kepell Fels e da empresa Floatec. Usava contas no Banco Delta e no Banco Lombard Odier

Shinko Nakandakari – Operador de propinas da empreiteira Galvão Engenharia, EIT Engenharia e Contreiras. Usava as empresas de consultoria LFSN Consultoria Engenharia.

Luis Eduardo Campos Barbosa da Silva – Operador de propinas da Alusa, Rolls Royce e SBM. Usava as empresas ABB – Asea Brown Boveri e Faercon e na Oil Drive, além da Cartmel Worldwide S.A.

Atan de Azevedo Barbosa – Operador de propinas, funcionário aposentado da Petrobras, atuava em nome da IESA ÓLEO E GÁS. Usava a offshore Heatherley Business Ltd, com conta no Banco Clariden Leu AG, na Suíça

Augusto Amorim Costa – Operador de propina da Queiroz Galvão. Usava as contas das offshores Innovation Research Engineering ( em Antígua), Klienfeld Services Ltd (Ilhas Virgens Britânicas), S&S Finance Services Limited (Ilhas Virgens Britânicas) e Intercorp Logistic Ltd (Antígua).

João Augusto Bernardi – Operador de propina representante da italiana Saipem. Tem elos com a construtora Norberto Odebrecht. Usava a offshore Hayley SA e Hayley do Brasil

João Vaccari Neto – Operador de propinas para o PT. Recebia valores em espécie e usava doações oficiais ao partido para ocultar propina

Julio Gerin de Almeida Camargo – Operador de propoinas da Camargo Corrêa e das asiáticas Mitsui e Samsung. Usava as empresas de consultoria Piemonte, Treviso e Auguri

OPERADORES LIGADOS AO PMDB – DIRETORIA DE INTERNACIONAL

Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano – Operador de propina do PMDB, ligado a empreiteiras, como a Andrade Gutierrez. Usava as empresas Hawk Eye, Technis, Iberbras, entre outras, com contas na Suíça

João Augusto Rezende Henriques – Operador de propina do PMDB, recebeu valores em nome do ex-diretor Jorge Zelada (Internacional).
Hamyton Padilha – Operador de propina da Vantage Drilling e do grupo TMT. Usava a offshore Oresta Associated SA, sediada em Belize, com conta Banco UBS em Zurich. Teria usado também as contas das offshores Hageshiro Financial Ltd e Frank Marketing Ltd

Raul Schmidt Felippe Junior – Operador de propina ligado ao setor de navios-sonda. Usava contas da offshore Polar Capital Investiment Ltd, no banco Lombard Odier Darier Henrch & Cie, em Genebra, na Suíça, e Atlas Asset SA, com conta no Julius Baer Bank, em Mônaco

OUTROS OPERADORES

Alberto Youssef – Peça-chave da Lava Jato. A partir de sua lavanderia de dinheiro, que incluía empresas nacionais de fachada, contas na Suíça, Panamá, Hong Kong, fundos de investimentos, controlava a propina do PP, na Diretoria de Abastecimento

Bernando Schiller Freiburghaus – Operador de propinas dono da Diagonal, com elos com a Odebrecht. Está foragido da Lava Jato, mora na Suíla. Usava entre outras contas a Ravenscroft, no banco PKB, na Suíça. Representava bancos como PKB, Royal Bank, Pictec e HSBC em escritório no Brasil

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