Joesley confiava em ‘contrapartida’ de Aécio pelos R$ 2 mi, diz procurador

Subprocurador-geral da República Carlos Alberto Coelho afirmou, em sustentação oral durante julgamento da Primeira Turma do Supremo, que suposta propina ao senador tucano não foi 'caridade' de executivo da J&F

Rafael Moraes Moura e Amanda Pupo/BRASÍLIA

17 Abril 2018 | 15h24

BRASÍLIA – O subprocurador-geral da República Carlos Alberto Coelho disse na tarde desta terça-feira (17) que há “farto material probatório” para fundamentar a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG) por corrupção passiva e obstrução de Justiça no âmbito da delação firmada por executivos do grupo J&F.

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Entre as acusações que pesam sobre Aécio, está a gravação na qual o tucano pede R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, um dos donos da J&F, controladora da JBS. Em uma conversa, o tucano aparece pedindo o dinheiro ao empresário sob a justificativa de que precisava pagar despesas com sua defesa na Operação Lava Jato. A denúncia contra Aécio foi apresentada em 2 de junho de 2017.

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“Não há dúvidas de que o empresário Joesley Batista apenas aceitou pagar R$2 milhões porque Aécio ocupa o cargo de senador da República, sendo um político influente na época dos acontecimentos”, disse o subprocurador-geral da República.

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“O empresário não fez esse pagamento por altruísmo ou caridade. Ele o fez porque sabia e confiava que o senador Aécio Neves estava preparado para prestar as devidas contrapartidas”, ressaltou.

Além do senador, também foram denunciados por corrupção passiva sua irmã Andrea Neves, seu primo Frederico Pacheco de Medeiros, e Mendherson Souza Lima, ex-assessor parlamentar do senador Zezé Perrella (MDB-MG).

“Há nos autos farto material probatório. Entregas foram acompanhadas e registradas em áudio e vídeo”, frisou Coelho.

PROVAS. Uma das estratégias da defesa do senador é atacar as provas trazidas pelos delatores, tratando-as como ilegais, ao considerar que a delação da JBS conta com “graves irregularidades”, como a participação do ex-procurador Marcelo Miller na negociação das colaborações premiadas dos executivos da J&F.

O subprocurador-geral destacou, no entanto, que não existe nos autos qualquer elemento que demonstre que a atuação ilegal de Marcelo Miller contava com a ciência do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

“Não há absolutamente nada nesse sentido. Nenhuma mensagem, nenhum e-mail, nem nada. Marcelo Miller, ao prestar auxílio aos colaboradores e orientá-los, não agiu no interesse do Ministério Público Federal, muito pelo contrário. Sua conduta sempre foi nitidamente para o interesse próprio e particular”, frisou Coelho.

Para o subprocurador-geral da República, a conduta ilícita de Marcelo Miller não pode ser tida como “uma conduta da instituição do Ministério Público Federal”.

“Os colaboradores não foram orientados e conduzidos pelo Ministério Público Federal na figura de Marcelo Miller a realizarem a colaboração premiada. O que houve foi a atuação ilícita de Marcelo Miller em prestar auxílio aos colaboradores antes de se desligar do MPF. Não se vê como a participação de Marcelo Miller possa ter comprometido a vontade livre e consciente dos colaboradores (em fechar o acordo)”, sustentou Coelho.

Outro lado. Na última segunda-feira (16), na véspera do julgamento no STF que pode torná-lo réu, o senador Aécio Neves admitiu que o empréstimo de R$ 2 milhões que solicitou a Joesley Batista foi “impróprio” e que cometeu um “erro”. Porém, o tucano negou que tenha cometido os crimes de corrupção passiva e obstrução da justiça pelos quais é acusado.

Em entrevista, Aécio disse ter sido vítima de um “enredo predeterminado” construído pela defesa de Joesley e membros do Ministério Público. (Rafael Moraes Moura e Amanda Pupo)