‘Alguns delegados da PF tiveram desvios político-partidários’, diz Segovia

‘Alguns delegados da PF tiveram desvios político-partidários’, diz Segovia

Novo diretor-geral da corporação nega ter ‘padrinhos’ e afirma que operações da instituição são ‘todas blindadas’

Fabio Serapião / BRASÍLIA

15 Novembro 2017 | 02h00

Fernando Segóvia. FOTO: ZECA RIBEIRO/CÂMARA DOS DEPUTADOS

Indicado para substituir Leandro Daiello, diretor-geral da Polícia Federal mais longevo do período democrático, o delegado Fernando Segovia rechaça a possibilidade de pressões políticas interferirem nas investigações em andamento, promete dar mais velocidade aos inquéritos contra políticos e afirma ter como meta de gestão a unificação da corporação responsável pelas maiores operações de combate à corrupção do Brasil.

Segovia falou ao Estado na sede da PF, em Brasília, na tarde desta terça-feira, 14.

O novo diretor da PF negou indicação política de seu nome para o cargo e disse que não tem relação com o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) e com o ex-presidente José Sarney, ambos do PMDB. Sobre o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Augusto Nardes, o delegado afirmou que a relação se deu por causa de um convite para criação de um gabinete de segurança institucional na corte.


Sobre a gestão na PF, o delegado disse que pretende dar um “upgrade” na equipe que cuida dos inquéritos de políticos para que eles tenham a mesma velocidade das investigações conduzidas na primeira instância. “Como há essa demanda reprimida dentro do STF (Supremo Tribunal Federal) e a necessidade que se tragam essas investigações na mesma velocidade das outras, talvez haja necessidade de reforço nessas investigações.”

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ESTADO – O senhor é apontado como apadrinhado político do ministro Eliseu Padilha, do ex-presidente José Sarney e do ministro do TCU Augusto Nardes. Qual sua relação com eles?

FERNANDO SEGOVIA – Não tenho relação nenhuma nem com o ministro Padilha, nem com o ex-presidente Sarney. O ministro Nardes conheci em missão na África do Sul. Ele foi trabalhar lá, como eu era adido policial, foi pedido que eu fizesse trabalho de apoio e segurança. Eu o acompanhei, conversamos vários assuntos e quando a gente voltou para o Brasil o ministro conversou com o Leandro Daiello sobre a possibilidade de eu ajudar no TCU para que fosse feito lá um gabinete de segurança institucional. O ministro Nardes conversou com o ministro Raimundo Carreiro, presidente do TCU, e me chamaram no gabinete para falar sobre a importância da criação do gabinete de segurança. A partir dessa conversa o ministro Carreiro veio na PF, conversou com Daiello e acertaram minha ida para o TCU. Foi feita a formalização na época do ex-ministro Osmar Serraglio, só que quando ia começar a rodar o documento, o ministro Serraglio caiu. Quando ele caiu, o ministro Raimundo ficou esperando um novo momento para haver essa nova agenda, mas nunca houve. Nesse meio tempo conheci o ministro Nardes, fui na casa dele uma vez, em um jantar, falamos sobre segurança institucional e nada mais do que isso. Já o ministro Padilha eu não o conheço pessoalmente. Conheci no Palácio do Planalto quando teve a confirmação da indicação. Fui apresentado e conversamos uns dez minutos. Dizer que eu sou apadrinhado do Sarney, eu não o conheci em momento algum quando estava no Maranhão, encontrei com ele uma única vez aqui em Brasília em uma solenidade.

ESTADO – A casa em que o sr. morava no Maranhão não era de pessoas ligadas a Sarney?

SEGOVIA – Cheguei no Maranhão e a superintendência tinha lá uma pessoa que falou: temos aqui duas imobiliárias que podem atender o senhor. Saí com minha esposa na época e a gente foi rodando e olhando as casas. No final a gente achou essa casa. Saber quem construiu, onde foi feita, pelo amor de Deus.

Fernando Segóvia e seu antecessor, Leandro Daiello. FOTO: PF

ESTADO – Onde e quando foi o encontro com o ex-presidente Sarney?

SEGOVIA – Não lembro. Acho que foi no Congresso, na época ele ainda que era senador. Naquelas galerias do Senado, quando eu estava ainda fazendo, acho que a PEC 37. Faz muito tempo.

ESTADO – A quem se deve sua indicação?

SEGOVIA – Até eu fiquei intrigado para saber como foi essa construção toda. Quem me contou foram algumas pessoas daqui (PF) mesmo. O doutor Daiello, que estava querendo a transição porque estava cansado, resolveu mandar uma lista para o ministro da Justiça com os nomes de delegados que poderiam suceder-lhe. O Daiello escrevendo a lista colocou primeiro os da sua diretoria, depois os superintendentes regionais e, por fim, os adidos policiais. Eu estava retornando naquela época e ele falou: ‘Dos adidos só tenho um: o Fernando Segovia’. Eu fui o 9.º nome dessa lista que saiu daqui e foi parar no Ministério da Justiça.

ESTADO – O senhor credita a quem essas afirmações sobre seu apadrinhamento político?

SEGOVIA – Eu credito a maioria dessas informações a pessoas que não queriam me ver sentado aqui como diretor da PF. É muito mais fácil você dizer que o diretor-geral é ligado ao Sarney porque haveria uma resistência ao meu nome. Isso era uma pecha que os meus opositores, que não queriam me ver sentado nessa cadeira, tentaram.

ESTADO – Quem seriam esses opositores ao seu nome?

SEGOVIA – Ganhei muitos inimigos aqui dentro porque penso, justamente, em união. Penso em uma PF unida, sem distinção de cargos e categorias. Leia-se, claramente, dentro do campo profissional. Cada um tem seu lugar dentro da corporação. Enquanto alguns acham que mandam na corporação e que os outros são serviçais. Eu acredito em equipe e que todos aqui fazem parte de um grande time que chama PF.

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ESTADO – O que o ministro Torquato Jardim disse ao senhor nas conversas?

SEGOVIA – Ele quer primeiro o fortalecimento da PF como um todo. Principalmente uma projeção maior da PF no cenário internacional. Essa visão macro é muito mais importante hoje, porque o crime transacional tem de ser combatido com mais força. Essa visão míope que temos tido nos últimos anos de olhar o problema só na raiz, não estamos vendo o macro. Não adianta apreender fuzil no Rio de Janeiro se você não parar o fluxo de fuzis chegando.

ESTADO – Como está sua relação com o ministro da Justiça?

SEGOVIA – Por incrível que pareça, eu tenho conversado com o ministro raramente. Hoje (terça-feira) eu estou indo lá conversar com ele. É uma dinâmica muito simples, o ministro falou: ‘A porta está sempre aberta’, então quando eu precisar é só eu chegar lá que a porta estará aberta. É uma relação muito tranquila e muito aberta.

ESTADO – Foi dito que o ministro tinha preferência pelo delegado Rogério Galloro. Isso causou estresse na relação de vocês?

SEGOVIA – Não. Eu acho que houve talvez uma manipulação. Eu e o ministro da Justiça trabalhamos tranquilamente, sem nenhum problema. A gente trata de alguns assuntos e pensamentos na área de segurança pública.

Segovia cumprimenta o ministro da Justiça, Torquato Jardim. FOTO: RONALDO CALDAS/MJSP

ESTADO – Como foi sua conversa com o presidente Michel Temer?

SEGOVIA – O presidente Michel Temer me chamou no sábado à tarde no Palácio do Jaburu. Ele queria conversar sobre alguns temas da PF e saber o que eu achava. A ideia é que a PF cumpra fielmente a Constituição e todas as leis. A gente percebe que algumas investigações ao longo da história da PF tiveram alguns desvios dentro das linhas investigativas. Alguns delegados nossos tiveram alguns desvios no sentido, eu diria, até político-partidários. Então há uma necessidade muito grande de que a PF tenha um trabalho muito profissional que busque somente a verdade. Tudo o que a gente fizer tem que ter o eixo da legalidade e não desviar qualquer tipo de ação da PF, até porque o ano que vem é delicadíssimo por questões político-partidárias. A gente vai ter que trabalhar no limite da lei, para que não haja nenhum tipo de desvio. Por isso vai haver um controle em todas as superintendências, para que nenhuma superintendência, nenhum delegado, possa vir a tentar fazer nenhum tipo de ação que desvirtue ou atrapalhe o processo eleitoral do ano que vem.

ESTADO – Como o senhor pretende lidar com a Lava Jato? Pretende mudar as equipes?

SEGOVIA – Equipe pode mudar? Pode. Eu não costumo interferir em equipe. Eu tenho a minha equipe, eu nomeio os meus diretores, os meus superintendentes. Agora quem meus diretores colocam nas equipes deles e quem meus superintendentes colocam nas equipes deles eu não, vamos dizer, eu não interfiro. Exceto se eu vir que é um problema sério. Se pega uma pessoa e coloca muito errado em determinado ponto eu posso intervir, porque eu tenho que zelar pela administração como um todo.

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ESTADO – O senhor pretende blindar as investigações?

SEGOVIA – Hoje todas as operações são blindadas. A investigação policial é sigilosa, o que vai guardar qualquer blindagem é o sigilo. Temos que trabalhar em silêncio, discretamente, investigando seriamente, colhendo provas da maneira que o Código Penal e a Constituição demandam. No momento certo, quando houver a maturidade da operação e houver necessidade, quem vai determinar a quebra do sigilo é o juiz. Então, foi até a pauta da conversa que tive com doutora Raquel Dodge (procuradora-geral da República) em que fomos uníssonos sobre o que vai nos blindar é o nosso trabalho.

ESTADO – Até 2007, as investigação de combate ao crime organizado ficavam centralizadas em Brasília e depois foram descentralizadas. O senhor pretende manter assim?

SEGOVIA – Já existem dentro das superintendências delegacias especializadas em combate ao crime organizado, elas vão coordenar essas operações nos Estados e o dr. Eugênio (Eugênio Ricas novo diretor de Combate ao Crime Organizado), que será o grande gestor, vai coordenar e controlar essas operações. Então há todo um sistema de controle, feedback e retroalimentação do sistema. Temos hoje uma demanda represada de inquéritos e investigações dentro do STF. E houve até um reclame de alguns ministros de que as investigações estão lentas, talvez seja o momento de a PF, quem sabe, dar um upgrade na equipe de investigações do STF para que haja uma velocidade.

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ESTADO – Como será esse controle?

SEGOVIA – Quando eu uso a palavra controle ela vem da administração. Das definições de controle como ferramenta de gestão, não é um controle de coerção, não vou estar verificando rumos. Não é controle de conteúdo, é o controle de prazos, de gerir os dados.

ESTADO – O senhor disse que pretende dar um ‘upgrade’ nas investigações de pessoas com foro privilegiado…

SEGOVIA – Como há essa demanda reprimida dentro do STF e necessidade de que se tragam essas investigações na mesma velocidade das outras, talvez haja necessidade de reforço nessas investigações.Vamos sentar com o dr. Eugênio Ricas, que deve assumir na semana que vem, e ele que vai fazer essa análise para ver se há ou não necessidade de reforço.

ESTADO – O que a classe política deve esperar da sua gestão?

SEGOVIA – O que todos esperam é que a PF seja Republicana, que ela siga a Constituição Federal. Não fique fazendo, como já aconteceu, pirotecnia para que alguns delegados ou procuradores se promovam com base das investigações. Isso já aconteceu, em que alguns tentavam ganhos políticos e até candidaturas em cima de operações da PF. A PF tem que ser isenta, principalmente, no processo eleitoral que vai se iniciar.

Segovia, o governador Paulo Hartung e Eugênio Ricas. FOTO: LEONARDO DUARTE/SECOM-ES

ESTADO – Na Lava Jato houve algum tipo de atuação político-partidária?

SEGOVIA – Existem rumores, existem pessoas quem falam de alguns casos, especialmente, de um grampo na época do (Alberto) Youssef e parece que a PF tem algumas investigações na Corregedoria. Mas todas essas suposições estão sendo averiguadas. Qualquer desvio de conduta de delegado nosso nós faremos averiguação.

ESTADO – O Ministério Público Federal levou ao Supremo Tribunal Federal o pedido para que PF não possa fazer delação. Acha que o MPF pode concordar em PF fazer delação?

SEGOVIA – Talvez até concorde. Essa questão de delação é pontual. Temos milhares de inquéritos, porque teria que ser sempre um procurador da República a ter esse tipo de trabalho, um delegado nosso poderia auxiliar. Até porque está na lei, foi colocado lá pra isso porque a gente sabe que é melhor todo mundo trabalhar junto em prol da investigação criminal. A delação é uma ferramenta de investigação, então não pode ser confundida com o monopólio de um dos lados.

ESTADO – O senhor disse que pretende mudar todas as diretorias da PF. As 27 superintendências terão novos chefes?

SEGOVIA – Nas superintendências também vão ser feitas algumas mudanças, porque são cargos de confiança. Cargos de confiança você entrega para pessoas em que você confia e que têm o perfil daquela administração. Então o que acontece? Como meu perfil não é muito parecido com o do doutor Leandro Daiello, acho que vou procurar pessoas mais alinhadas ao meu perfil, ao meu estilo de administrar. (…) A partir da tarde do dia 20 e o dia 21 inteiro vou ter reunião com cada um dos superintendentes regionais, vou ter uma conversa com cada um deles sobre a permanência ou não de cada um deles à frente da superintendência. Devo exonerar os que não coadunam com a maneira com que eu vou gerir e os que eu achar que devo manter, vou mantê-los na equipe.

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ESTADO – Como pretende unificar a PF?

SEGOVIA – Tive um conversa com todas as associações, sindicatos, e fui claro: ‘Olha, houve esse tempo de divergência na PF, só que a partir de agora estamos abrindo um novo tempo’. (…) Estou nomeando uma nova assessora parlamentar na PF, que vai ficar responsável pela coordenação de um grupo de trabalho que vai compor com todas as associações e sindicatos da PF, e a gente vai reunir todas as demandas, para que a gente coloque numa mesa de negociação com todas as associações. Tudo que houver uma concordância, tudo o que for proposta comum que vai colocar nessa mesa de negociação, vai receber a chancela da administração.

ESTADO – Um dos motivos das brigas é para que outras carreiras, não só delegados, possam ocupar cargos de chefia.

SEGOVIA – A gente vai fazer uma equipe, inclusive um de cada categoria, vai haver agente, escrivão, papiloscopista, perito. Vai ter um de cada dentro da assessoria parlamentar, mas todos trabalhando no projeto conjunto.

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ESTADO – O senhor é favorável a retirar da PF alguns setores como passaportes, controle de armas e produtos químicos, o que vem sendo chamado de modernização?

SEGOVIA – Isso não é modernização. As pessoas que tentaram me derrubar ou quiseram criar histórias contra mim para que eu não conseguisse alcançar a cadeira de diretor-geral são as que promovem esse tipo de desagregação. Isso para mim é uma grande estratégia até para destruir a PF. Porque a PF tem uma estrutura constitucional, de agência de Estado que vários países no mundo gostariam de ter. A PF foi concebida como uma polícia do Brasil e ela é.