Felipe Rau / Estadão
Felipe Rau / Estadão

Yuval Noah Harari: 'Por que a ficção supera a verdade'

Nós, humanos, conhecemos mais verdades do que qualquer outra espécie na Terra. No entanto, também acreditamos nas maiores mentiras

Yuval Noah Harari, Especial para o Estado

07 de novembro de 2019 | 05h00

Muitas pessoas acreditam que a verdade confere poder. Se alguns líderes, religiões ou ideologias deturparem a realidade, acabarão por ser derrotados por rivais mais lúcidos. Portanto, agarrar-se à verdade é a melhor estratégia para ganhar poder. Infelizmente, este é apenas um mito que nos conforta. Na verdade, verdade e poder têm uma relação muito mais complicada, porque em uma sociedade humana, poder significa duas coisas muito diferentes.

Por um lado, poder significa ter a capacidade de manipular realidades objetivas: caçar animais, construir pontes, curar doenças, construir bombas atômicas. Este tipo de poder está intimamente ligado à verdade. Se você acredita em uma teoria física falsa, você não será capaz de construir uma bomba atômica.

Por outro lado, poder também significa ter a capacidade de manipular crenças humanas, fazendo com que muitas pessoas cooperem efetivamente. Construir bombas atômicas requer não apenas uma boa compreensão da física, mas também o trabalho coordenado de milhões de humanos. O Planeta Terra foi conquistado pelo homo sapiens, e não por chimpanzés ou elefantes, porque somos os únicos mamíferos que podem cooperar em grande escala. E a cooperação em larga escala depende de acreditar em histórias comuns. Mas essas histórias não precisam ser verdadeiras. Você pode unir milhões de pessoas fazendo-as acreditar em histórias completamente fictícias sobre Deus, sobre raça ou sobre economia.

A natureza dual do poder e da verdade resulta do fato curioso de que nós humanos conhecemos muito mais verdades do que qualquer outro animal, mas também acreditamos em muito mais disparates. Somos os habitantes mais inteligentes e mais crédulos do planeta Terra. Os coelhos não sabem que E=MC² , que o universo tem cerca de 13,8 bilhões de anos e que o DNA é feito de citosina, guanina, adenina e timina. Por outro lado, os coelhos não acreditam nas fantasias mitológicas e nos absurdos ideológicos que há milhares de anos hipnotizam incontáveis humanos. Nenhum coelho estaria disposto a colidir com um avião no World Trade Center na esperança de ser recompensado com 72 coelhos virgens no além.

Quando se trata de unir as pessoas em torno de uma história comum, a ficção realmente desfruta de três vantagens inerentes sobre a verdade. Primeiro, enquanto a verdade é universal, as ficções tendem a ser locais. Consequentemente, se quisermos distinguir a nossa tribo dos estrangeiros, uma história ficcional servirá como um marcador de identidade muito melhor do que uma história verdadeira. 

Suponha que ensinamos nossos membros tribais a acreditar que “o sol nasce no leste e se põe no oeste”. Isso cria um mito tribal muito pobre. Pois se eu encontrar alguém na selva e essa pessoa me disser que o sol nasce no leste, isso pode indicar que ela é um membro leal da nossa tribo, mas também pode indicar que ela é um estrangeiro inteligente que chegou à mesma conclusão independentemente da nossa tribo. Portanto, é melhor ensinar aos membros da tribo que “o sol é o olho de um sapo gigante que a cada dia salta pelo céu”, uma vez que poucos estrangeiros – por mais inteligentes que sejam – tendem a ter essa ideia em particular independentemente.

A segunda grande vantagem da ficção sobre a verdade tem a ver com o princípio da desvantagem, que diz que os sinais confiáveis devem ser caros para o emissor do sinal. Caso contrário, eles podem ser facilmente falsificados por trapaceiros. Por exemplo, os pavões machos sinalizam a sua aptidão para as fêmeas ao ostentarem uma enorme cauda colorida. Este é um sinal confiável de bom estado físico, porque a cauda é pesada, incômoda e atrai predadores. Apenas um pavão verdadeiramente apto pode sobreviver apesar desta desvantagem. Algo semelhante acontece com as histórias.

Se a lealdade política é demonstrada por se acreditar numa história verdadeira, qualquer um pode fingir. Mas acreditar em histórias ridículas e bizarras tem um custo maior e, portanto, é um maior sinal de lealdade. Se você acredita em seu líder apenas quando ele ou ela diz a verdade, o que isso prova? Em contraste, se você acreditar em seu líder, mesmo quando ele ou ela constrói castelos no ar, isso é lealdade! Líderes astutos podem às vezes deliberadamente dizer coisas sem sentido como uma maneira de distinguir devotos confiáveis de simpatizantes ocasionais.

Terceiro, e mais importante, a verdade é muitas vezes dolorosa e perturbadora. Portanto, se você se apegar à realidade, poucas pessoas o seguirão. Um candidato presidencial americano que diz ao público americano a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade sobre a história americana tem 100% de garantia de perder as eleições. O mesmo se aplica aos candidatos de todos os outros países. Quantos israelenses, italianos ou indianos podem tolerar a verdade imaculada sobre suas nações? Uma adesão intransigente à verdade é uma prática espiritual admirável, mas não é uma estratégia política vitoriosa.

Alguns podem argumentar que os custos a longo prazo de acreditar em histórias fictícias superam quaisquer vantagens a curto prazo em termos de coesão social. Uma vez que as pessoas adquiram o hábito de acreditar em ficções absurdas e falsidades convenientes, esse hábito se espalharia em mais e mais áreas e, consequentemente, elas tomariam más decisões econômicas, adotariam estratégias militares contraproducentes e não desenvolveriam tecnologias eficazes. Embora isso aconteça ocasionalmente, está longe de ser uma regra universal. Mesmo os fanáticos e extremistas mais radicais podem muitas vezes compartimentar sua irracionalidade para que acreditem em disparates em alguns campos, sendo eminentemente racionais em outro.

Pense, por exemplo, nos nazistas. A teoria racial nazista era uma pseudociência falaciosa. Embora eles tentassem fortalecê-la com evidências científicas, os nazistas, ainda assim, tiveram que silenciar suas habilidades racionais a fim de desenvolver uma crença forte o suficiente para justificar o assassinato de milhões de pessoas. No entanto, quando chegou a hora de projetar câmaras de gás e preparar horários para os trens de Auschwitz, a racionalidade nazista emergiu de seu lugar de abrigo intacta.

O que é verdade para os nazistas é verdade para muitos outros grupos fanáticos da história. É desanimador perceber que a Revolução Científica começou na cultura mais fanática do mundo. A Europa nos dias de Colombo, Copérnico e Newton tinha uma das maiores concentrações de extremistas religiosos da história, e o menor nível de tolerância.

O próprio Newton aparentemente passou mais tempo procurando por mensagens secretas na Bíblia do que decifrando as leis da física. Os luminares da Revolução Científica viveram numa sociedade que expulsou judeus e muçulmanos, queimou hereges por todos os lados, viu uma bruxa em cada senhora idosa amante de gatos e começou uma nova guerra religiosa a cada lua cheia.

Se você tivesse viajado para o Cairo ou Istambul cerca de 400 anos atrás, teria encontrado uma metrópole multicultural e tolerante onde sunitas, xiitas, cristãos ortodoxos, católicos, armênios, coptas, judeus e até mesmo eventuais hindus viviam lado a lado em relativa harmonia. Embora tivessem a sua parcela de desentendimentos e motins – e embora o Império Otomano discriminasse rotineiramente as pessoas por motivos religiosos – era um paraíso liberal comparado com a Europa Ocidental. Se tivéssemos então navegado para Paris ou Londres contemporâneas, teríamos encontrado cidades inundadas de fanatismo religioso, nas quais apenas os da seita dominante poderiam viver. Em Londres, mataram católicos; em Paris, mataram protestantes; os judeus tinham sido expulsos há muito tempo; e ninguém pensou sequer em deixar entrar muçulmanos. No entanto, a Revolução Científica começou em Londres e Paris e não no Cairo ou em Istambul.

A capacidade de compartimentar a racionalidade provavelmente tem muito a ver com a estrutura do nosso cérebro. Diferentes partes do cérebro são responsáveis por diferentes modos de pensar. Os humanos podem desativar e reativar subconscientemente as partes do cérebro que são cruciais para o pensamento crítico. Assim, Adolf Eichmann poderia ter fechado seu córtex pré-frontal enquanto escutava Hitler fazer um discurso apaixonado, e então reinicializá-lo enquanto analisava a agenda do trem de Auschwitz.

Mesmo que precisemos pagar algum preço para desativar nossas faculdades racionais, as vantagens de uma maior coesão social são frequentemente tão grandes que histórias fictícias triunfam rotineiramente sobre a verdade na trajetória humana. Os estudiosos sabem disso há milhares de anos, e é por isso que muitas vezes tinham que decidir se serviam à verdade ou à harmonia social.

Deveriam ter como objetivo unir as pessoas, assegurando-se de que todos acreditam na mesma ficção, ou deveriam deixar as pessoas conhecerem a verdade, mesmo correndo o risco de desunião? Sócrates escolheu a verdade e foi executado. As instituições acadêmicas mais poderosas da história – sejam de sacerdotes cristãos, mandarins confucionistas ou ideólogos comunistas – colocaram a unidade acima da verdade. É por isso que elas eram tão poderosas.

*Yuval Noah Harari é um historiador israelense e autor de 'Sapiens: Uma Breve História da Humanidade'

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