Felipe Rau/Estadão
Evento 'Estadão Summit Brasil - O que é o poder?', realizado no Pavilhão da Bienal no Parque do Ibirapuera Felipe Rau/Estadão

Estadão Summit Brasil: o melhor do evento que discutiu o que é o poder

Políticos, ministros do STF, artistas, profissionais da tecnologia e jornalistas se reuniram a convite do 'Estado' para debater a natureza do poder

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

A palavra “poder” quase sempre evoca os gabinetes de Brasília ou Washington. Nessa concepção desencantada e talvez um tanto cínica, o poder, inacessível ao cidadão comum, seria a moeda corrente com que negociam os políticos profissionais. Realizado na quarta-feira passada, 30 de outubro, e inspirado na série de artigos e debates intitulada The Big Ideas, do jornal The New York Times, o Estadão Summit Brasil O que é o poder? foi além dessa visão estreita. 

Sim, estavam lá altos representantes do poder tradicional, incluindo um ministro do governo federal, dois ministros do STF e dois governadores. Mas também jornalistas, artistas, profissionais da tecnologia e da televisão, que falaram de modalidades mais horizontais de poder – o poder da sociedade civil, da iniciativa privada, das redes sociais, da tecnologia, do cidadão comum. Nas páginas que se seguem, o leitor encontrará depoimentos, artigos e reflexões que surgiram daquele intenso e diversificado dia de conversas. Com este caderno especial, o Estado convida o leitor a repensar a ideia que temos do poder – e a admirar o poder das ideias. 

 

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Yuval Noah Harari: 'Por que a ficção supera a verdade'

Nós, humanos, conhecemos mais verdades do que qualquer outra espécie na Terra. No entanto, também acreditamos nas maiores mentiras

Yuval Noah Harari, Especial para o Estado

07 de novembro de 2019 | 05h00

Muitas pessoas acreditam que a verdade confere poder. Se alguns líderes, religiões ou ideologias deturparem a realidade, acabarão por ser derrotados por rivais mais lúcidos. Portanto, agarrar-se à verdade é a melhor estratégia para ganhar poder. Infelizmente, este é apenas um mito que nos conforta. Na verdade, verdade e poder têm uma relação muito mais complicada, porque em uma sociedade humana, poder significa duas coisas muito diferentes.

Por um lado, poder significa ter a capacidade de manipular realidades objetivas: caçar animais, construir pontes, curar doenças, construir bombas atômicas. Este tipo de poder está intimamente ligado à verdade. Se você acredita em uma teoria física falsa, você não será capaz de construir uma bomba atômica.

Por outro lado, poder também significa ter a capacidade de manipular crenças humanas, fazendo com que muitas pessoas cooperem efetivamente. Construir bombas atômicas requer não apenas uma boa compreensão da física, mas também o trabalho coordenado de milhões de humanos. O Planeta Terra foi conquistado pelo homo sapiens, e não por chimpanzés ou elefantes, porque somos os únicos mamíferos que podem cooperar em grande escala. E a cooperação em larga escala depende de acreditar em histórias comuns. Mas essas histórias não precisam ser verdadeiras. Você pode unir milhões de pessoas fazendo-as acreditar em histórias completamente fictícias sobre Deus, sobre raça ou sobre economia.

A natureza dual do poder e da verdade resulta do fato curioso de que nós humanos conhecemos muito mais verdades do que qualquer outro animal, mas também acreditamos em muito mais disparates. Somos os habitantes mais inteligentes e mais crédulos do planeta Terra. Os coelhos não sabem que E=MC² , que o universo tem cerca de 13,8 bilhões de anos e que o DNA é feito de citosina, guanina, adenina e timina. Por outro lado, os coelhos não acreditam nas fantasias mitológicas e nos absurdos ideológicos que há milhares de anos hipnotizam incontáveis humanos. Nenhum coelho estaria disposto a colidir com um avião no World Trade Center na esperança de ser recompensado com 72 coelhos virgens no além.

Quando se trata de unir as pessoas em torno de uma história comum, a ficção realmente desfruta de três vantagens inerentes sobre a verdade. Primeiro, enquanto a verdade é universal, as ficções tendem a ser locais. Consequentemente, se quisermos distinguir a nossa tribo dos estrangeiros, uma história ficcional servirá como um marcador de identidade muito melhor do que uma história verdadeira. 

Suponha que ensinamos nossos membros tribais a acreditar que “o sol nasce no leste e se põe no oeste”. Isso cria um mito tribal muito pobre. Pois se eu encontrar alguém na selva e essa pessoa me disser que o sol nasce no leste, isso pode indicar que ela é um membro leal da nossa tribo, mas também pode indicar que ela é um estrangeiro inteligente que chegou à mesma conclusão independentemente da nossa tribo. Portanto, é melhor ensinar aos membros da tribo que “o sol é o olho de um sapo gigante que a cada dia salta pelo céu”, uma vez que poucos estrangeiros – por mais inteligentes que sejam – tendem a ter essa ideia em particular independentemente.

A segunda grande vantagem da ficção sobre a verdade tem a ver com o princípio da desvantagem, que diz que os sinais confiáveis devem ser caros para o emissor do sinal. Caso contrário, eles podem ser facilmente falsificados por trapaceiros. Por exemplo, os pavões machos sinalizam a sua aptidão para as fêmeas ao ostentarem uma enorme cauda colorida. Este é um sinal confiável de bom estado físico, porque a cauda é pesada, incômoda e atrai predadores. Apenas um pavão verdadeiramente apto pode sobreviver apesar desta desvantagem. Algo semelhante acontece com as histórias.

Se a lealdade política é demonstrada por se acreditar numa história verdadeira, qualquer um pode fingir. Mas acreditar em histórias ridículas e bizarras tem um custo maior e, portanto, é um maior sinal de lealdade. Se você acredita em seu líder apenas quando ele ou ela diz a verdade, o que isso prova? Em contraste, se você acreditar em seu líder, mesmo quando ele ou ela constrói castelos no ar, isso é lealdade! Líderes astutos podem às vezes deliberadamente dizer coisas sem sentido como uma maneira de distinguir devotos confiáveis de simpatizantes ocasionais.

Terceiro, e mais importante, a verdade é muitas vezes dolorosa e perturbadora. Portanto, se você se apegar à realidade, poucas pessoas o seguirão. Um candidato presidencial americano que diz ao público americano a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade sobre a história americana tem 100% de garantia de perder as eleições. O mesmo se aplica aos candidatos de todos os outros países. Quantos israelenses, italianos ou indianos podem tolerar a verdade imaculada sobre suas nações? Uma adesão intransigente à verdade é uma prática espiritual admirável, mas não é uma estratégia política vitoriosa.

Alguns podem argumentar que os custos a longo prazo de acreditar em histórias fictícias superam quaisquer vantagens a curto prazo em termos de coesão social. Uma vez que as pessoas adquiram o hábito de acreditar em ficções absurdas e falsidades convenientes, esse hábito se espalharia em mais e mais áreas e, consequentemente, elas tomariam más decisões econômicas, adotariam estratégias militares contraproducentes e não desenvolveriam tecnologias eficazes. Embora isso aconteça ocasionalmente, está longe de ser uma regra universal. Mesmo os fanáticos e extremistas mais radicais podem muitas vezes compartimentar sua irracionalidade para que acreditem em disparates em alguns campos, sendo eminentemente racionais em outro.

Pense, por exemplo, nos nazistas. A teoria racial nazista era uma pseudociência falaciosa. Embora eles tentassem fortalecê-la com evidências científicas, os nazistas, ainda assim, tiveram que silenciar suas habilidades racionais a fim de desenvolver uma crença forte o suficiente para justificar o assassinato de milhões de pessoas. No entanto, quando chegou a hora de projetar câmaras de gás e preparar horários para os trens de Auschwitz, a racionalidade nazista emergiu de seu lugar de abrigo intacta.

O que é verdade para os nazistas é verdade para muitos outros grupos fanáticos da história. É desanimador perceber que a Revolução Científica começou na cultura mais fanática do mundo. A Europa nos dias de Colombo, Copérnico e Newton tinha uma das maiores concentrações de extremistas religiosos da história, e o menor nível de tolerância.

O próprio Newton aparentemente passou mais tempo procurando por mensagens secretas na Bíblia do que decifrando as leis da física. Os luminares da Revolução Científica viveram numa sociedade que expulsou judeus e muçulmanos, queimou hereges por todos os lados, viu uma bruxa em cada senhora idosa amante de gatos e começou uma nova guerra religiosa a cada lua cheia.

Se você tivesse viajado para o Cairo ou Istambul cerca de 400 anos atrás, teria encontrado uma metrópole multicultural e tolerante onde sunitas, xiitas, cristãos ortodoxos, católicos, armênios, coptas, judeus e até mesmo eventuais hindus viviam lado a lado em relativa harmonia. Embora tivessem a sua parcela de desentendimentos e motins – e embora o Império Otomano discriminasse rotineiramente as pessoas por motivos religiosos – era um paraíso liberal comparado com a Europa Ocidental. Se tivéssemos então navegado para Paris ou Londres contemporâneas, teríamos encontrado cidades inundadas de fanatismo religioso, nas quais apenas os da seita dominante poderiam viver. Em Londres, mataram católicos; em Paris, mataram protestantes; os judeus tinham sido expulsos há muito tempo; e ninguém pensou sequer em deixar entrar muçulmanos. No entanto, a Revolução Científica começou em Londres e Paris e não no Cairo ou em Istambul.

A capacidade de compartimentar a racionalidade provavelmente tem muito a ver com a estrutura do nosso cérebro. Diferentes partes do cérebro são responsáveis por diferentes modos de pensar. Os humanos podem desativar e reativar subconscientemente as partes do cérebro que são cruciais para o pensamento crítico. Assim, Adolf Eichmann poderia ter fechado seu córtex pré-frontal enquanto escutava Hitler fazer um discurso apaixonado, e então reinicializá-lo enquanto analisava a agenda do trem de Auschwitz.

Mesmo que precisemos pagar algum preço para desativar nossas faculdades racionais, as vantagens de uma maior coesão social são frequentemente tão grandes que histórias fictícias triunfam rotineiramente sobre a verdade na trajetória humana. Os estudiosos sabem disso há milhares de anos, e é por isso que muitas vezes tinham que decidir se serviam à verdade ou à harmonia social.

Deveriam ter como objetivo unir as pessoas, assegurando-se de que todos acreditam na mesma ficção, ou deveriam deixar as pessoas conhecerem a verdade, mesmo correndo o risco de desunião? Sócrates escolheu a verdade e foi executado. As instituições acadêmicas mais poderosas da história – sejam de sacerdotes cristãos, mandarins confucionistas ou ideólogos comunistas – colocaram a unidade acima da verdade. É por isso que elas eram tão poderosas.

*Yuval Noah Harari é um historiador israelense e autor de 'Sapiens: Uma Breve História da Humanidade'

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N. Scott Momaday: 'O encanto sagrado das palavras; poder é linguagem'

Nada é mais poderoso do que as palavras, que têm imensa carga de interpretações e nos permitem influenciar nossas vidas e os outros

N. Scott Momaday, Especial para o Estado

07 de novembro de 2019 | 05h00

O termo “poder” está em todos os lugares no nosso mundo. Por isso, a expressão “inflação de palavras” vem à mente. Muito do que encontramos na imprensa escrita, na televisão e na publicidade diz respeito ao conceito de poder.

Mas o que é esse conceito? O que é poder? A verdade é que a palavra tem imensa carga de interpretações. As definições são múltiplas; o dicionário lista um número incomum de significados. Certamente, o poder é o que é – aquilo que nos permite influenciar, se não mesmo determinar, o curso de nossas vidas.

E é uma palavra.

As palavras são poderosas. Como escritor, minha experiência me diz que nada é mais poderoso. A linguagem, afinal, é feita de palavras.

As palavras são símbolos conceituais; elas têm propriedades denotativas e conotativas. A palavra “poder” denota força, força física, resistência. Mas conota algo mais sutil: persuasão, sugestão, inspiração, segurança.

Considere as palavras de Marco Antônio em Júlio César de Shakespeare:

“Grita ‘Havoc!’ e deixa escapar os cães de guerra;

Que este ato sujo cheire acima da terra

Com homens carniceiros a gemer para o enterro”.

Pode ser difícil encontrar palavras mais carregadas de poder para incitar, inflamar, provocar violência e destruição. Mas há, naturalmente, outras expressões de poder em palavras.

Podem ser sobretudo pessoais. Podem alcançar nossas sensibilidades de maneiras diferentes e individuais, talvez porque têm associações diferentes para nós. A palavra “Holocausto” me assusta, porque os sobreviventes dos campos de morte nazistas me falaram de seu sofrimento. Seja como for, a palavra é intrinsecamente poderosa e perturbadora.

A palavra “filho” me encanta; a palavra “amor” me confunde; a palavra “Deus” me mistifica. Eu vivi minha vida sob o feitiço das palavras; elas empoderaram minha mente.

As palavras são sagradas. Creio que são mais sagradas para as crianças do que para a maioria de nós. Quando eu pude dar meus primeiros passos no idioma, meu pai, indígena americano, membro da tribo Kiowa, me contou histórias da tradição oral Kiowa. Elas me transportaram. Elas me fascinaram e entusiasmaram. Alimentaram minha imaginação. Alimentaram minha alma. Na verdade, nada significou mais para mim na formação da minha visão do mundo. Compreendi que a história é o motor da linguagem, e que as palavras são a medula da linguagem.

Vários anos atrás, estava em um palco com o paleoantropologista queniano Richard Leakey, em Chicago. Falávamos sobre o tema das origens, especificamente a origem dos seres humanos. O senhor Leakey sustentou que nos tornamos humanos quando nos tornamos bípedes, e seu argumento era convincente. Mas discordei: com certeza nos tornamos humanos quando adquirimos linguagem, um ponto de vista que continuo a defender.

A linguagem é o que separa a nossa espécie de todas as outras. É, como entendemos o termo, uma invenção humana, um sistema de comunicação baseado em sons e símbolos – palavras, faladas e escritas. O cientista e escritor Lewis Thomas, em seu livro The Fragile Species, especula sobre a origem da linguagem. As pessoas estavam vivendo em cavernas, ele escreveu, e um dia duas comunidades se uniram. Surgiu uma massa crítica de crianças. As crianças brincaram durante todo o dia e, no final desse dia, tínhamos uma linguagem.

Parece incrível que uma criança se aproprie da linguagem aos 2 ou 3 anos de idade, mas isso acontece no curso normal dos acontecimentos. Acontece, suspeito, porque as crianças gostam de brincar com as palavras, e não têm medo delas. Só com o tempo passam a conhecer o espectro do poder nas palavras, que podem ferir e exaltar, promover a guerra e a paz, expressar ódio e amor. Em meu tempo como professor de inglês e literatura americana, tive a sorte de dar cursos de tradição oral de nativos americanos. Há uma fórmula nessa tradição que diz: “No começo havia a palavra, e ela era falada”.

Pode ser que o poder essencial da linguagem seja concretizado pela comunicação boca a boca. A tradição oral é incrivelmente mais antiga do que a escrita, e requer que levemos as palavras mais a sério. Não se deve desperdiçar palavras. Deve-se falar com responsabilidade, escutar com atenção e lembrar-se do que se diz.

Há uma receita navajo para pacificar um inimigo. Assim diz:

Ponha os pés no chão com pólen.

Abaixe as mãos com pólen.

Abaixe a cabeça com pólen.

Então seus pés são pólen;

Suas mãos são pólen;

Seu corpo é pólen;

Sua mente é pólen;

Sua voz é pólen.

A trilha é linda.

Fique imóvel.

Isso sim é poder.

*N. Scott Momaday é autor, poeta e dramaturgo. Venceu o Prêmio Ken Burns de Tradição Americana 2019. Seu romance 'House Made of Dawn' recebeu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1969

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Protestos no Chile são advertência para o Brasil

De acordo com participantes do evento 'Estadão Summit Brasil - O que é poder', ruas de Santiago dão recado ao País

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

Os protestos às vezes violentos que vêm abalando o Chile desde 18 de outubro reverberaram nas discussões do Summit Estadão Brasil – O que é poder? Pelo menos dois participantes do evento referiram-se às conflagrações no país governado por Sebastián Piñera como uma advertência para o Brasil. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), ao pontuar que a democracia não deve ser entendida como a ditadura da maioria, observou que minorias que têm seu direito à expressão abafado podem se tornar uma ameaça à vida democrática: “Vejam o que está acontecendo no Chile”, alertou. 

A secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, Patrícia Ellen da Silva, falou da pressa que todo governante deve ter para levar educação e oportunidades para os desassistidos, e usou o Chile para enfatizar a urgência da tarefa: “A gente está vendo o que está acontecendo no Chile agora. A gente não tem mais tempo: vai ter que trocar a turbina com o avião no ar”. Entusiasta do modelo liberal seguido pelo Chile, o ministro da Economia, Paulo Guedes, minimizou o significado da revolta recente: “Porque uma milhão de pessoas se reuniram e protestaram, você vai negar 30 anos de acerto?”, provocou. 

Não é só no Chile que o descontentamento popular tem ganhado as ruas. Eduardo Leite lembrou, com propriedade, que o Brasil já viveu turbulência similar no passado. Em 2013, multidões levaram suas pautas difusas às ruas de todo o País seguindo protestos que começaram em São Paulo, por causa de um aumento de 20 centavos na tarifa do transporte público – valor quase equivalente aos 30 pesos de aumento na passagem do metrô em Santiago que deram origem aos protestos chilenos. Na Colômbia, protesta-se por educação; na Bolívia, contra a reeleição (com suspeitas de fraude) do presidente Evo Morales. Na França, os chamados “coletes amarelos” que protestam contra o governo de Emmanuel Macron vêm incorporando preocupantes elementos de antissemitismo a suas ações. A revolta não tem cor partidária definida: tem feito pressão sobre governos de esquerda e de direita. 

Pelo menos desde a chamada Primavera Árabe, em 2011, as redes sociais têm sido o canal para chamar e organizar protestos de massa. Mas no Brasil, pelo menos, o agressivo sectarismo ideológico que transpira do Twitter e do Facebook não encontra eco fora da internet. Pelo menos, essa é a percepção que o apresentador da rede Globo Luciano Huck, muito ativo no Twitter, levou ao Summit Estadão Brasil. “Não enxergo nas ruas a temperatura das redes”, avaliou Huck. 

Paparicado por Fernando Henrique Cardoso, o astro do Caldeirão do Huck vem sendo citado como possível candidato a sucessor de Jair Bolsonaro. No evento, porém, ele se apresentou apenas como um “cidadão ativo” que, por força da profissão, rodou todo o País e viu de perto os dramas sociais dos brasileiros. Empenhado nos movimentos RenovaBR e Agora!, que pretendem qualificar a política, Huck demonstrou preocupação sobretudo com a desigualdade – um problema grave que, diz ele, não será resolvido pelos esforços conjugados de entidades da sociedade civil: só o Estado teria o poder de corrigi-lo. Huck, porém, adverte que, para tanto, o Estado tem de ter gestão eficiente, e não pode descuidar da responsabilidade fiscal: “Só vai conseguir cuidar das pessoas quem souber cuidar de suas contas”. 

Se Luciano Huck faz o papel do articulador, circulando entre as periferias onde busca personagens para seu programa e as salas de figurões da política, Catarina Lorenzo trouxe ao evento a energia e o frescor do protesto jovem que vem fazendo pressão global pelo meio ambiente. Era a participante mais jovem do Summit: 12 anos. Surfista, ela começou a se preocupar com o aquecimento global quando sentiu a água demasiado quente na praia em que costumava nadar, nas imediações de Salvador, e viu sinais de degeneração nos corais. Na condição de ativista ambiental, Catarina foi a Nova York participar de encontros na ONU, e lá conheceu a sueca Greta Thunberg, porta-voz mundial do movimento jovem que pede reduções drásticas – irreais, dizem os críticos – no consumo de combustíveis fósseis. Quando o vazamento de óleo que tem poluído praias do Nordeste chegou ao litoral baiano, Catarina juntou-se aos voluntários que tentaram limpar a areia. O óleo, lamenta, atrapalha a prática do surf: “Quase não estou conseguindo mais treinar”. 

A urgência de quem exige tudo agora, tão própria dos mais variados movimentos de rua pelo mundo, ganha em sua voz uma nota singela: “Se não fizermos alguma coisa agora, no futuro, não haverá o que fazer, e nós, das novas gerações, teremos de pagar as consequências”, disse Catarina.

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Marechal Rondon defendeu povos indígenas que não detinham poder

Descendente de índios, Cândido Rondon dedicou a vida a dar voz a quem não tinha

Larry Rohter, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

Fui chefe de sucursal do New York Times aqui no Brasil durante dez anos. Deixei o jornalismo diário há quatro anos para me dedicar em tempo integral a escrever livros. O primeiro produto desse empreendimento é a biografia do marechal Cândido Rondon (1865-1958), recentemente publicada pela Companhia das Letras. É possível ligar Rondon ao poder, tema do Estadão Summit Brasil, em vários sentidos. Como o poder da superação: Rondon nasceu órfão, filho de indígenas, na província mais remota e pobre do Império e com força de vontade chegou a ser marechal do Exército Brasileiro. É o único brasileiro que tem um Estado que leva o nome dele – Rondônia –, foi um grande cientista e estadista. O que ele conseguiu, em um época na qual não se falava de mobilidade social, é uma façanha incrível e única na história da Primeira República. 

O segundo sentido é o poder nos meios de comunicação. A atuação de Rondon durante a Primeira República, como explorador e político, centrava-se sobre os desprotegidos e desfavorecidos, principalmente indígenas e caboclos. Ele orgulhosamente se denominava caboclo, e os caboclos naquela época não tinham representação nenhuma no poder. Portanto, ele tomou para si a missão de atuar em prol do interesse desses grupos. 

Mas como ele fazia isso? Afinal, caboclo e índio não votavam. Rondon usou como ferramenta os novos meios de comunicação de sua época. Fez fotografias que foram publicadas em jornais e revistas de cidades grandes do litoral; em 1911, gravou músicas de nhambiquaras e parecis – as primeiras gravações de músicas em campo, não apenas na história do Brasil, mas do mundo –, e também falou da cultura desses povos por rádio. Afinal, Edgard Roquette-Pinto, pai da radiodifusão no Brasil, foi integrante da comissão Rondon. 

Entretanto, a principal ferramenta usada foi o cinema (mudo, é claro). Também em 1911, Rondon fez os primeiros filmes etnográficos na história do Brasil, exibindo-os nos cinemas em Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Mostrou aos moradores dessas cidades que o índio e o caboclo também são brasileiros. Isso criou simpatia entre o habitantes do litoral e o do interior. 

Costuma -se dizer que o primeiro a utilizar a multimídia foi Lawrence da Arábia, logo após a I Guerra Mundial, quando fez apresentações na Inglaterra e nos EUA, conjugando palestras, fotografias e filmes. Não é verdade: Rondon começou a fazer apresentações nesses moldes a partir de 1915, portanto, quatro anos antes. Ele sempre foi atento ao poder das mídias e dos novos meios de comunicação como forma de proteger os desfavorecidos. 

Durante uma conferência de imprensa, em meados do governo de Eurico Gaspar Dutra, Rondon, ainda no posto de general, disse em determinado momento: “Se eu fosse branco, eu faria o seguinte…”. Um dos repórteres o interrompeu: “O senhor está dizendo que não é branco?” “Claro que não sou branco!” Rondon, descendente de três povos indígenas – bororós, terenas e guanás –, assumiu o fato de ser indígena, o que era muito raro naquela época e talvez seja ainda hoje. 

Hoje, os povos indígenas vivem um momento difícil. Estão sob ataques, sofrendo insultos e enfrentando desafios à própria identidade. O atual presidente diz que índio não tem cultura, mas Rondon escreveu dezenas de documentos e estudos provando o contrário, mostrando um caminho que faz parte da história brasileira. O povos indígenas, segundo Rondon, têm o direito de decidir qual grau de aproximação querem com a sociedade, seja integração plena ou afastamento total. A política do governo atual parece querer a integração forçada, excluindo o fator de autonomia. 

A relevância de Rondon reside hoje na causa dos direitos de povos indígenas, mas também na questão ambiental, pois os dois assuntos estão sempre ligados. Rondon acreditava que o índio é o melhor sentinela da floresta.

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Francisco Mesquita: 'Nunca o poder foi tão repartido'

Presidente do Grupo Estado ressalta o papel da era digital e o valor do jornalismo para o debate público

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

Na abertura do Summit Brasil, realizado pelo Estado em parceria com The New York Times Big Ideas, o diretor-presidente do Grupo Estado, Francisco Mesquita Neto, afirmou que objetivo do evento foi reunir pensadores para discutir a nova relação entre o poder em suas várias formas e a sociedade, principalmente após a disseminação das novas tecnologias de comunicação e interação. A seguir, afirmou: 

“Hoje, o jornal O Estado de S. Paulo é uma plataforma de notícias e debate comprometida com a busca de um futuro melhor para o Brasil. Somos assim desde nossa fundação em 1875, quando o Estadão, então a Província de São Paulo, opôs-se ao Império e à escravidão. Na ocasião, o Estadão olhou para o futuro ao vislumbrar um país que fosse uma República de homens livres. 

Os valores do Estadão, desde sua fundação, são liberdade, democracia, independência e credibilidade. Nossa credibilidade nos permite agir com independência, no intuito de promover a democracia e a liberdade sempre com um olhar para o futuro. Tal olhar é otimista, se entendermos que otimismo não é apenas esperar o melhor, mas contribuir ativamente para que o melhor aconteça. 

Acreditamos que o jornalismo contribui para a melhoria do País e para a democracia, quando eleva a qualidade do debate público. E nunca foi possível levar o debate público a tanta gente quanto hoje com a ajuda da tecnologia. O Estadão atinge mais de 27 milhões de pessoas mensalmente com suas plataformas. 

Excelência

A essência da nossa atividade, hoje como no passado, é produzir jornalismo de excelência. A tecnologia digital nos permite entregar esse jornalismo dentro da jornada do leitor, em diálogo permanente com ele nas mais diversas plataformas: impressos, vídeos, textos, podcasts, eventos como este, lives em redes sociais. O relacionamento honesto, transparente e constante com leitores constitui o centro do que entendemos por jornalismo de hoje. 

O jornalismo contribui para o debate público quando estabelece os fatos incontestáveis sobre os quais se assenta a conversa inteligente, quando se posiciona em relação a eles, quando identifica as vozes que buscam debate de alto nível e quando coloca essas vozes em contato. Essa é a vocação de uma plataforma de notícias e de debates. Numa democracia, muitas vozes vêm de representantes eleitos e num país continental como o Brasil, elas são múltiplas. Vêm de representantes executivos e legislativos nas esferas federal, estadual e municipal. 

Mas o debate não se limita aos eleitos e a épocas de eleição, ele é constante. Os representantes do povo se submetem quase em tempo real ao escrutínio da sociedade. A imprensa, com o auxílio crescente da tecnologia, é uma das ferramentas essenciais para esse escrutínio. 

O Summit Brasil pretende reunir todos esses atores, políticos, imprensa e sociedade civil. O tema deste encontro é o poder e nunca o poder foi tão repartido quanto na era digital. Somos todos cada vez mais os atores da República que construímos. E ao debater seus rumos podemos criar no futuro uma República cada vez melhor, mais livre e mais democrática.” 

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A engenharia dinâmica da vida cotidiana

'Se seguirmos a visão de Foucault, parecerá que o poder está em todo o lugar. Talvez esteja'

Peter Catapano, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

Na juventude, me senti atraído por teorias conspiratórias. Aos 25 anos, não tinha emprego nem família, nem tampouco qualquer meta ou orientação. Eu não sabia como o mundo funcionava (para ser honesto, ainda não sei). Teorias da conspiração eram um meio fácil de explicar meu fracasso. 

Em particular, eu admirava a cena de Rede de Intrigas, filme de 1976, na qual o executivo da companhia que controla uma rede de TV explica a Nova Ordem Mundial: “Não existem nações. Não existem povos. Existe apenas um holístico sistema dos sistemas, um vasto e interconectado domínio dos dólares”. 

Isso parecia explicar minha própria falta de poder: eu tinha pouco dinheiro, e outros tinham muito. Mas, como todas teorias do gênero, era um artifício, uma simplificação. Há uma visão de mundo na qual essa descrição é verdadeira – vamos chamá-la de a visão da desigualdade sem remédio. Certamente, a desigualdade cresceu em níveis devastadores nos últimos 50 anos. Mas essa visão do poder não é completa, pois o reduz a um único conceito: o dinheiro. 

Revendo aquela cena hoje, penso que sua verdade aterrorizante está em algo que nunca é dito, mas fica implícito: que o mais destrutivo e sinistro poder é aquele que você não sabe que existe. Para mim, este é o objetivo primeiro de um evento como o Estadão Summit Brasil – O que é poder?: compreender as forças em jogo ao nosso redor, compartilhar o nosso entendimento do poder.

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'Vejo o poder como uma rede de relações infinitamente complexa e continuamente em movimento'
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Uma das mais frequentes simplificações do conceito de poder é a tendência de defini-lo como o exercício de força bruta, potência física, violência ou guerra. É o tipo de poder que corporações ou governos têm sobre o público geral. Mas quando penso filosoficamente no poder, eu o vejo de outra perspectiva: como uma rede de relações entre seres humanos que é infinitamente complexa e está continuamente em movimento, e que inclui aspectos como dignidade, liberdade, felicidade, compaixão e necessidades biológicas. 

Filósofos estudaram essa modalidade de poder ao longo da história: Platão, Hobbes, Nietzsche, Rawls, para nomear uns poucos. Simone Weil, Hannah Arendt e Bertrand Russell destacam-se como intérpretes agudos do poder. Mas para mim é um pensador mais contemporâneo, o francês Michel Foucault, que morreu em 1984, quem com mais abrangência revelou a miríade de modos com que o poder permeia a vida cotidiana, o comércio, o amor e o sexo, o crime e a punição, as normas sociais e até o próprio conhecimento. Parecerá, se seguirmos a visão de mundo de Foucault, que o poder está em todo o lugar. Talvez esteja.

O poder não é uma coisa só. É a engenharia dinâmica das relações, na qual todos desempenham algum papel. Quanto melhor entendermos isso, melhor entenderemos quem somos – e o que devemos fazer. 

 

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Dias Toffoli: 'Nosso judiciário é o mais demandado do mundo'

Para presidente do STF, se toda disputa acaba no Supremo é porque outros meios de resolver conflitos fracassaram

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, não falou dos temas que inflamavam o mirrado mas barulhento grupo de manifestantes do lado de fora do Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, onde ocorreu o Estadão Summit Brasil – O que é o poder?. Nada disse sobre a prisão após sentença em segunda instância, tema cuja votação deve ser retomada hoje no STF.

Tampouco explicou sua decisão de suspender investigações de possíveis crimes financeiros que recorram, sem autorização judicial, a dados do antigo Coaf, atual Unidade de Inteligência Financeira (UIF). Ofereceu, porém, uma visão de longo curso sobre o papel que o Judiciário e o STF exerceram na história – um papel que se aprofundou e ampliou com a Constituição de 1988. A seguir, os momentos marcantes da fala de Toffoli. 

Poder moderador

"(Tentar compreender) o Supremo Tribunal Federal e o Poder Judiciário como poder moderador, sem contextualizar a história é absolutamente inviável. Nós fazemos mudanças muito rápidas. Veja, exercer o poder no Brasil, na esfera nacional, será fácil? O primeiro imperador abdicou, o segundo foi deposto e morreu no exílio, o primeiro presidente da República renunciou. (...) Antes da Constituição de 1891, foi instalado, por decreto, em 1890, o Supremo Tribunal Federal. Qual que foi a ideia do STF? Foi, a partir do modelo norte-americano, trazer (para o Brasil) a possibilidade do controle da constitucionalidade, pois ele não existia anteriormente no Supremo Tribunal de Justiça do Império. (O STJ) orbitou no modelo francês, com um Judiciário sem poderes de decidir o que é constitucional, e um poder moderador na figura da coroa. (...) Pois bem, quando se cria o Supremo, na República, é para quê? Para ser o mediador dos conflitos da Federação. Só para dar um exemplo de questão federativa (atual), entre tantos outros: a guerra fiscal, onde vai parar? No Supremo. Questão relativa a relações entre poderes, à competência (de cada poder) Quem tem que dar a última palavra é o STF.” 

Ministério Público

“Mas, na prática, quem exerceu o poder moderador na República foram as Forças Armadas, que se sobrepuseram ao Judiciário. Em 1964, ao permanecer no poder, as Forças Armadas sofreram desgaste nacional. (...) Pois bem, na Constituinte de 1988, uma série de direitos foram trazidos para o texto constitucional. Então, colocaram todo tipo de direitos na Constituição, sem colocar as previsões de onde viriam. Nós temos que trazer instrumentos jurídicos para que isso (os ideais da Constituição) se torne uma realidade. Que instrumentos? Em primeiro lugar: um Ministério Público absolutamente autônomo, sem influências do Poder Executivo. O Ministério Público, em geral, em todo mundo, só cuida da esfera penal. Não cuida, por exemplo, de meio ambiente. Não é este ouvidor da sociedade como um todo que nós temos no Brasil hoje. Esse é um fruto da Constituição de 1988.”

Sob os olhos da Nação

“Eu não acordo de manhã, nem meus colegas acordam de manhã e falam: ‘ hoje eu quero resolver os problemas X, Y e Z’. Só que esses problemas são colocados no Supremo (...). O Poder Judiciário antes da Constituição de 1988 era um Poder Judiciário meio na estufa. Ele resolvia um caso individual. Resolvia a briga de casal, a pensão, e continua resolvendo (essas questões) hoje. Com o modelo da Constituição de 1988, os grandes problemas da nação brasileira do ponto de vista político, econômico, social, cultural, de costumes, passaram a ser levados ao Poder Judiciário e ao STF. O Poder Judiciário pós-1988 passa a ser muito mais demandado. Do ponto de vista do estado democrático de direito, é bom que hoje as pessoas saibam que existe o STF, saibam quem são os onze ministros, venham fazer protestos, desde que dentro da legalidade. É bom que faça parte da consciência da Nação a existência do Poder Judiciário.”

Sobrecarga das cortes

“Agora, quando tudo vai parar no Judiciário, isso significa o fracasso de outros meios de resolução de conflito. Criaram-se agências reguladoras, modelo que veio a partir do governo Fernando Henrique e das reformas constitucionais de privatização de 1995. As agências são criadas para regular o mercado dos meios de comunicação, dos transportes, da área da aviação, ferrovias, rodovias etc. Mas decisões nas agências reguladoras (também são levadas) para o Judiciário. Então há uma crise de confiança no Judiciário ou uma crise de confiança nas instituições e organizações que precisam resolver os conflitos? Em um país que tem uma Constituição com mais de 300 artigos, com mais de 100 emendas constitucionais, só aumenta o litígio. (...) No ano passado, nós decidimos, colegiadamente, 14 mil processos entre o plenário e as duas turmas. Não há Suprema Corte que julgue tanto. O Judiciário (brasileiro) é o mais demandado do mundo. Cada juiz brasileiro decide por ano 1700 processos. Dá uma média de oito processos por dia útil.”

Reforma tributária

“O Judiciário deveria ser usado para a última solução, a última razão a ser chamada. (...) Em matéria tributária, já falei com Paulo Guedes, falei com Rodrigo (Maia), falei com Davi (Alocumbre) que tem que diminuir o peso da Constituição. Quer fazer uma reforma tributária que funcione? Retire dois, três princípios da Constituição. Com isso, nenhuma reforma tributária vai parar no Supremo.(... ) Estamos julgando casos (em matéria tributária) de 20, 30 anos. Em maio, nós terminamos de julgar o Plano Real – 25 anos depois, (julgamos) se o Plano Real era constitucional ou não.”

As corporações

“Nós não temos uma elite nacional. A burocracia ocupou esse espaço. Infelizmente, os partidos políticos não fazem projetos de Nação. Infelizmente, as universidades não fazem projetos de nação. A sociedade civil faz projetos setoriais, como na área da infância, da saúde, da educação. Quem ocupa esse vazio? As corporações. Por quê? O interesse do sistema financeiro (...) (é) o mesmo do Oiapoque ao Chuí. E então tem força, pois é um setor que atua unido. Servidor público municipal, estadual, do Distrito Federal e da União têm o mesmo interesse. Então, eles conseguem ter musculatura. (...) É por isso que o parlamento brasileiro acabou se institucionalizando muito mais em frentes parlamentares que em partidos políticos.

Nova era

“Mas vivemos um quadro em que estamos conseguindo, pelo diálogo, pela força da sociedade, enfrentar o domínio das corporações. A reforma da Previdência é um exemplo disso. Agora vamos enfrentar a reforma administrativa, a reforma tributária, o pacto federativo. (...) Não estou aqui para deslegitimar corporações ou frentes de atuação parlamentares. Estou dizendo que criar um projeto de nação é muito mais complexo. É preciso ter muito mais diálogo – uma articulação entre diferentes pessoas que pensam diferente. Jair Bolsonaro, Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, Dias Toffoli, Raquel Dodge até outro dia, hoje Augusto Aras, são pessoas que querem se sentar juntas para, com apoio das instituições de que estão à frente e com a compreensão da sociedade, avançar no desenvolvimento do País.”

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