Twitter/Bia Kicis
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YouTube bolsonarista alcança 5 milhões de inscritos

Audiência conjunta considera inscritos nos dez maiores canais de influenciadores aliados do presidente, entre eles alvos de inquéritos no STF

Tomás Conte, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 05h00
Atualizado 22 de junho de 2020 | 12h34

Em evidência depois de duas operações policiais autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que tiveram, entre os alvos, influenciadores digitais bolsonaristas, canais de YouTube que apoiam o presidente Jair Bolsonaro somam mais de 5 milhões de inscritos. Entre vídeos que defendem o mandatário, atacam seus adversários políticos e prometem “fatos que a imprensa tradicional não mostra”, eles somam mais de 640 milhões de visualizações.

Os números podem não ser grandes o suficiente para alcançar a lista de 10 canais mais acessados da plataforma, formada por músicos, comediantes e programas infantis – o décimo colocado no ranking tem 19,3 milhões de inscritos. Mas perfis que falam de notícias e política costumam ter menos seguidores. Os canais dos três maiores jornais do País, por exemplo, têm, juntos, 1,4 milhão de inscritos. Procurado na semana passada, o YouTube respondeu à reportagem apenas após a publicação. A plataforma diz não possuir dados específicos sobre canais de política.

O levantamento de audiência dos bolsonaristas foi feito pelo Estadão levando em conta os dez maiores canais entre os youtubers que foram alvo de mandado de busca e apreensão nos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos, ou que foram recebidos por Bolsonaro no Palácio da Alvorada em 23 de maio.

Na terça-feira passada, a Polícia Federal (PF) cumpriu 21 mandados de busca e apreensão em cinco Estados e no Distrito Federal como parte do inquérito que apura a organização e o financiamento de atos antidemocráticos, como os que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do STF, além da volta da ditadura militar.

Um dos endereços visitados pela PF foi o de Alberto Silva, responsável pelo canal O Giro de Notícias, que tem cerca de 1,2 milhão de inscritos e já divulgou notícia falsa. No início de junho, o Projeto Comprova, coalizão de redações para verificar boatos compartilhados na internet, desmentiu vídeo do canal que dizia que o número de casos de covid-19 era menor que o oficial.

Legalidade. Após a operação, o Supremo entrou na pauta de O Giro de Notícias. Em vídeo gravado na na sexta-feira com o título “Chegaaa!!!”, Silva diz que juristas lhe falaram que o STF está cometendo crime no inquérito das fake news, que teve início após decisão de ofício do ministro Dias Toffoli. Na última quinta-feira, por 10 votos a 1 o Supremo decidiu que a investigação não infringiu a Constituição e pode continuar.

“Medo de ser preso porque estou dando minha opinião? Jamais”, diz Silva no vídeo, gravado sem seu equipamento, já que seus celulares e computadores foram apreendidos pela PF. “Ao contrário do que às vezes entende ou prega o Supremo, eu prego o caminho correto, legal”, afirma o youtuber. Na descrição do vídeo, há dados de sua conta bancária para que seguidores façam doações para a compra de novos equipamentos. Procurado por email, Silva não respondeu.

“Eu tenho nojo do STF, eu tenho repúdio, me dá até ânsia de vômito, porque são 11 que querem mandar em uma nação inteira. E, se for preciso fechar, que feche. Não vai fazer falta nenhuma, pelo contrário, fará um bem à nação brasileira", disse Fernando Lisboa, em um dos vídeos mais vistos do seu canal, em 19 de março de 2019. O Vlog do Lisboa tem 548 mil e entrou na mira do inquérito dos atos antidemocráticos.

O vídeo “Agora não tem mais volta – fecha o STF, fecha o Senado, fecha a Câmara – Bolsonaro” fez com que Lisboa fosse denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) por crimes contra a segurança nacional e a ordem política e social. Em 1º de junho, porém, o juiz Tiago Bologna Dias, da 2ª Vara Federal de Guarulhos, rejeitou a denúncia por entender que “fechar o Supremo” é uma “palavra de ordem para inflamar correligionários” e não significa que haveria atos de violência contra o Judiciário. Procurado na sexta-feira, Lisboa não respondeu às tentativas de contato.

QUEM É QUEM

  • Alberto Silva

Do canal O Giro de Notícia, que tem 1,2 milhão de inscritos 

 

  • Allan dos Santos

Do canal Terça Livre, com 991 mil inscritos 

 

  • Fernando Lisboa

Do canal Vlog do Lisboa, com 548 mil inscritos 

 

  • Valter César Silva Oliveira

Do canal Nação Patriota, com 431 mil inscritos

 

  • Adilson Dini

Canal Ravox Brasil, com 341 mil inscritos 

  • Camila Abdo

Canal Direto aos Fatos, com 93,4 mil inscritos

  • Bárbara Zambaldi Destefani

Do canal Te Atualizei, com 676 mil inscritos 

  • Allan Frutuoso

Do canal Vista Pátria, com 469 mil inscritos  

  • Paula Mariza

Do canal Paula Mariza, com 444 mil inscritos 

  • Mauro Fagundes

Do canal Mauro Fagundes, com 228 mil inscritos

 

Influenciadores pedem doações ao público

A tática de pedir doações é comumente usada por youtubers. Allan Frutuozo , do canal Vista Pátria, que tem 469 mil inscritos, faz propaganda da livraria que leva o nome do canal e de uma série de cursos online. Ex-corretor imobiliário e formado em administração, Frutuozo conta que seu objetivo é “ser mais um agente de comunicação com um viés conservador de direita”.

Em vídeo publicado na última quinta-feira, horas após a prisão do ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, acusado de operar um esquema de rachadinha no antigo gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), ele cita o “viés de esquerda” do Ministério Público do Rio, responsável pela investigação que pode atingir o filho do presidente, e diz que vivemos um “estado de anormalidade”.

“Você vai dizer (sobre o presidente): ‘quem não deve, não teme’. Vai mesmo acreditar que quem não deve não teme? Em um estado de anormalidade, ditatorial, não existe isso”, afirma. Ele justifica o momento de anormalidade citando a prisão de Sara Giromini, extremista que ameaçou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, e os inquéritos contra atos antidemocráticos e das fake news.

“Olhando de fora, sem ter acesso a nada, parece ser uma coisa enviesada, assim como foi o inquérito das fake news”, disse Frutuozo, referindo-se à investigação sobre atos antidemocráticos. “Como um canal acaba sendo uma coisa muito pessoal, a pessoa emite uma opinião, às vezes, ali no calor do momento, e isso pode ser usado como um ato antidemocrático. Quem não fala besteira quando está nervoso?”, completou o youtuber, que não foi alvo de nenhuma operação da PF.

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