Julia Lindner/Estadão
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Veja todos os detalhes da viagem de Bolsonaro pelos países asiáticos

Principal missão de Bolsonaro será amenizar ruídos criados no início de sua gestão e melhorar a imagem diante de autoridades e empresários estrangeiros

Julia Lindner, Enviada especial

21 de outubro de 2019 | 09h26

TÓQUIO - O presidente Jair Bolsonaro chegou nesta segunda-feira (21) a Tóquio, primeiro ponto da mais longa viagem de seu mandato. Nos próximos dez dias, ele ficará distante das turbulências polítcas, incluindo com o PSL - ao menos fisicamente - para circular entre grandes parceiros comerciais no exterior, como China e Japão, além de intensificar relações com países do Oriente Médio (Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita).

A principal missão de Bolsonaro será amenizar ruídos criados no início de sua gestão e melhorar a imagem diante de autoridades e empresários estrangeiros. Assim, a ideia é atrair novos investimentos para o Brasil em setores como agronegócio, infraestrutura, defesa e energia.

Na ausência do presidente, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, segue com a articulação política no Congresso para tentar finalizar a tramitação da reforma da Previdência. A proposta é considerada um dos principais ativos políticos para passar a mensagem de que o atual governo defende mudanças estruturantes e que o País passará nos próximos anos por uma retomada econômica sustentável.

Comitiva

Dentre os participantes da comitiva presidencial em diferentes trechos da viagem estão os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Tereza Cristina (Agricultura), Fernando Azevedo (Defesa), Bento Albuquerque (Minas e Energia) e Osmar Terra (Cidadania).

O ministro Paulo Guedes (Economia) também deve se juntar a Bolsonaro pelo menos na agenda prevista na Arábia Saudita. A pasta ainda não confirmou a viagem do ministro.

No Japão

No Japão, em sua primeira atividade no país, Bolsonaro visitou na tarde desta segunda-feira, 21, o Santuário Meiji, um templo xintoísta localizado no bairro Shibuya, em Tóquio.

Logo na chegada, foi questionado sobre a crise envolvendo seu partido. Ao circular a pé por ruas da capital japonesa, acompanhado da comitiva presidencial, Bolsonaro visitou pontos turísticos, tirou fotos com apoiadores e conversou com jornalistas. Em entrevista à imprensa, ele creditou os problemas no PSL ao fato de que a maior parte dos integrantes da sigla é composta por parlamentares de primeiro mandato.

O presidente participará na terça-feira da cerimônia de coroação do imperador Naruhito, em Tóquio. O evento será restrito a 2.500 convidados e não terá cobertura da imprensa. O desfile ao público que ocorreria pelas ruas da cidade foi adiado para 10 de novembro. O motivo são os estragos causados pelo tufão Hagibis, que resultou na morte de pelo menos 70 pessoas em diversas regiões do Japão este mês.

Com a presença de líderes do mundo todo, o presidente Bolsonaro quer aproveitar a ida ao Japão para agendar encontros bilaterais. Está prevista uma reunião após a cerimônia de terça-feira com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, envolvido no escândalo que levou à abertura do processo de impeachment contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

No mês passado, Trump reconheceu ter falado com Zelenski sobre seu possível rival na eleição de 2020, Joe Biden, em meio à movimentação dos democratas para que ele seja investigado sobre uma possível pressão política sobre o líder ucraniano para investigar Biden e seu filho Hunter.

Além do Japão, o presidente viajará aos seguintes países:

- China: de 24 a 26 de outubro

- Emirados Árabes Unidos: de 26 a 28 de outubro

- Arábia Saudita: de 28 a 30 de outubro

Acordos

Bolsonaro também vai se reunir com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. O presidente e sua equipe esperam um gesto do governo japonês para iniciar as negociações de um acordo comercial entre o país e o Mercosul - em moldes semelhantes ao firmado com a União Europeia. O momento é considerado propício já que os japoneses encerraram recentemente as tratativas com os Estados Unidos. As conversas com o bloco de países sul-americanos, então, poderiam ganhar espaço. A pauta positiva viria em boa hora para o governo brasileiro.

Segundo o secretário de Negociações Bilaterais na Ásia, Pacífico e Rússia, embaixador Reinaldo José de Almeida Salgado, um estudo feito no Japão mostra que 97% da pauta exportadora do Japão para o Brasil está coberta no acordo Mercosul-UE. "Se a gente não correr atrás, esse comércio tenderá a declinar. Por muito tempo, o Japão esteve envolvido no acordo com EUA, com dificuldade para se engajar em novas negociações. Pelo menos do nosso ponto de vista, não sei se da parte deles será o mesmo, agora é chegado o momento do Mercosul entrar na lista", afirmou.

Além disso, os temas comerciais serão o foco das conversas com os japoneses considerando que os números das relações bilaterais seguem em ritmo decrescente nos últimos anos. No ano passado, o comércio do Brasil com o Japão totalizou cerca 8 bilhões de dólares, metade do que já foi em 2011. Apesar disso, no ano passado o Japão foi o terceiro principal parceiro do Brasil na Ásia e o nono no mundo.

De acordo com o embaixador José de Almeida Salgado, as visitas no Japão e na China terão como objetivo central buscar diversificar as exportações brasileiras. "A pauta para Ásia, em geral, é excessivamente concentrada em produtos primários. E nossas importações, ao contrário, são de alto valor agregado e muito mais diversificada. Nós queremos mudar o perfil. Isso envolve promoção comercial, mas também isso que está acontecendo na economia brasileira, de modernizar economia, com reformas que estamos tendo no novo governo que vai permitir que no futuro possamos aumentar competitividade", declarou o embaixador.

Com foco no agronegócio, a ministra Tereza Cristina embarca para China dias antes do presidente da República. A visita também ocorre em meio ao acordo prévio entre o país asiático e os Estados Unidos, com a suspensão da imposição de tarifas previstas.

No Oriente Médio, que possui alguns dos grandes compradores do agronegócio brasileiro, o governo também pretende divulgar a carteira do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI).

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e a secretária do PPI, Martha Seillier, também organizam uma programação paralela focada na atração de investimentos dos bilionários fundos soberanos árabes. A avaliação é de que países como Emirados Árabes, cuja estimativa dos fundos supera US$ 1 trilhão, possuem um potencial que precisa ser explorado. A parcela do Brasil atualmente se limita a US$ 5 bilhões.

Polêmica

Um dos temas mais delicados que permeiam a missão oficial ao Oriente Médio é a transferência da Embaixada do Brasil de Tel-Aviv para Jerusalém, promessa de campanha do presidente Jair Bolsonaro (acompanhe o andamento desta e de outras promessas e projetos do governo no 'Monitor Bolsonaro') que conta com o apoio da bancada evangélica.

Após a repercussão negativa principalmente entre empresários brasileiros, no início do ano, o presidente recuou temporariamente da ideia e a substituiu pela abertura de um escritório de negócios em Jerusalém.

Segundo o Itamaraty, a decisão já está tomada e não é provável que o tema transferência da embaixada seja retomado na viagem da próxima semana. O começo das atividades do escritório está prevista para ocorrer até dezembro este ano.

"Vai ser aquilo que está no comunicado conjunto da visita a Israel (que o presidente Bolsonaro fez entre março e abril). Lá fica clara a decisão do governo brasileiro que é abrir um escritório voltado para promoção de negócios, ciência, tecnologia e inovação, que será gerido pela Apex. É isso que vai ser dito. A decisão é essa. A não ser que o presidente... Essa é a informação que tem o Itamaraty. Essa decisão foi plasmada em comunicado", disse o Secretário de Negociações Bilaterais no Oriente Médio, Europa e África, embaixador Kenneth Félix Haczynski da Nóbrega.    

Parlamentares evangélicos, no entanto, discordam e veem o escritório como solução provisória. Segundo o vice-líder do Governo, Marco Feliciano, o posicionamento do Itamaraty "não procede". Ele afirma que acompanhará a comitiva presidencial, como já fez outras vezes ao longo do ano.

Já o deputado Sóstenes Cavalcante voltou a dizer que a criação do escritório de negócios, administrado pela Apex, é apenas uma "sinalização", mas o "compromisso com a bancada é outro". "Eu tenho convicção de que na hora certa ele vai transferir a embaixada. Tudo o que o Bolsonaro prometeu na campanha ele vem cumprindo, é uma questão de tempo. Confiamos que o presidente vai transferir a embaixada na hora certa", afirmou o deputado. "Visitar os países árabes é um dever dele (Bolsonaro) para manter boas relações com todos. Isso não incomoda jamais os evangélicos", declarou.

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