Vazamento de documento da Defesa expõe bolsonarismo nas Forças Armadas

Projeção da briga de presidente com Macron como cenário futuro transforma França em nação hostil

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 17h06

Caro leitor,

Há no Amapá um Pelotão Especial de Fronteira que os doutores do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra (ESG) deviam visitar. Quinze minutos no terreno bastariam para que eles compreendessem que alguma coisa está fora da ordem no documento Cenários de Defesa 2040 , produzido pelo grupo e revelado pela Folha de S.Paulo, quando em seus quatro cenários faz da França uma potência hostil ao Brasil.

O pelotão de fronteira pertence ao 34.º Batalhão de Infantaria de Selva. Se fossem até lá, os doutores compreenderiam a razão pela qual a embaixada francesa classificou como “imaginação sem limites” as ideias do documento. É que para chegar à base daquela unidade o caminho mais fácil passa pela Guiana Francesa. É por ali  e não pelas corredeiras do lado brasileiro que os nossos soldados são abastecidos.

No meio da selva, os brasileiros vivem lado a lado com seus colegas do 3.º Regimento Estrangeiro de Infantaria, o 3.º REI. A mais condecorada unidade da história da Legião Estrangeira  lutou nas 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais, na Indochina e na Argélia  faz manobras e troca informações com os brasileiros. Na floresta amazônica, eles são soldados de nações amigas.

Sem a França e sua tecnologia todo Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha do Brasil (Prosub) seria um sonho distante. A assistência técnica e a capacitação de brasileiros para a concepção, o projeto, a fabricação, a operação e a manutenção das estruturas e os próprios submarinos estariam ameaçados. Sobretudo o submarino nuclear brasileiro, principal objetivo do Prosub.

Alguém esqueceu de contar essas coisas à turma da ESG. Os doutores da Escola estariam hipnotizados pelas ideias dos generais Augusto Heleno e de Alberto Cardoso sobre a Amazônia? Há anos os dois veem os ambientalistas como uma ameaça à soberania do País. Heleno enxerga nos ianomâmis um grupo que estaria disposto a se deixar conduzir por europeus inescrupulosos e ávidos por nossas riquezas. A ESG preferiu os generais aos almirantes.  

Os planejadores da escola criaram o que chamaram de “quatro hipóteses de futuro plausíveis” para que o Ministério da Defesa tenha “dados que permitam elaborar cenários militares de defesa”. Dizem ter feito 11 reuniões regionais e ouvido 500 pessoas. Concluíram que nos próximos 20 anos a Argentina aceitará abrigar uma base chinesa. Há ainda conflitos com a Bolívia – Evo Morales ainda estava no poder quando o documento foi feito  e a Venezuela.

Não falta nem mesmo um grupo de ecoterroristas  não é coisa de novela – atacando o País. Mas a estrela do papel é a França, transformada em potência hostil e ameaça aos objetivos nacionais permanentes. Transforma-se assim a arte de traçar cenários prospectivos em mera projeção do bate-boca entre Bolsonaro e Emmanuel Macron em razão da Amazônia. Uma picuinha de 2019 é mais importante do que toda a Estratégia Nacional de Defesa.

A contaminação do tom belicoso do bolsonarismo é evidente. “Quando se trabalha com cenários prospectivos deve-se olhar a grande duração. Quem fez esse trabalho devia questionar quando foi que duas democracias separadas por oceanos entraram em guerra? Nunca”, afirmou um general. A não ser que se projete um destino autoritário para um dos dois países, os cenários da ESG não teriam sentido ou aderência histórica.

A ESG vê quatro possibilidades no futuro: alinhamento com os Estados Unidos com e sem recursos orçamentários em contraposição ao que chama de relacionamento global com e sem recursos orçamentários. Nelas a França ampliaria sua política, “de acordo com seus interesses, de guardiã dos princípios universais de defesa dos direitos humanos e de proteção do meio ambiente”. “Essa circunstância coloca em rota de colisão com os interesses brasileiros, em especial no questionamento da nova política indigenista brasileira e da estratégia de integração viária da região amazônica com o restante do Brasil.”

Um leitor desavisado questionaria de onde o grupo da ESG tirou a conclusão de que a integração da Amazônia ao País se chocaria necessariamente com a defesa dos direitos de povos indígenas e do meio ambiente? Outro pode indagar que tipo de política criaria esse conflito? Ou se o bolsonarismo representa os interesses do País ou só os de um grupo de amigos? Os doutores não respondem. Mas dizem que, em 2035, forças aeronavais francesas apoiariam índios com bordunas e flechas em busca de uma “nação independente”.

Há 20 anos generais da reserva se apoiam em arrozeiros de Roraima para exercitar uma imaginação sem limites. A turma da ESG resolveu lhes dar ouvidos. Aspirantes no fim dos anos 1960, Heleno e seus colegas levaram a imaginação ao poder. Não só. O vazamento do documento expôs o País e suas Forças Armadas e constrangeu aliados e vizinhos. Nos anos 60, o diretor Stanley Kubrick fez da paranoia anticomunista uma obra-prima: Doutor Fantástico. Sessenta anos depois, alguém parece ter medo do flúor na água de Brasília.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.