Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

‘Vaso ruim não quebra’, dizia Maklouf

Mak – como todos o chamavam – nunca quis ser chefe; sempre foi um repórter que cumpriu o ofício com paixão

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2020 | 21h13

Quando o Estadão e o Jornal da Tarde proibiram os jornalistas de fumar na Redação, nos anos 90, muitos de nós ficamos  consternados. O que hoje é visto como algo impensável, naquela época era mais do que natural: o tal do lead, por exemplo, só saía depois de algumas baforadas.

Logo depois da instalação do fumódromo, fui então saber como andava Maklouf, que tinha uma mesa no fundo da Redação do JT.  “Você está conseguindo escrever?”, perguntei, curiosa. “Não. Estou desesperado. Não consigo sair do lead”, respondeu ele, sem esconder a ansiedade. Fiquei aliviada. Se Maklouf, aquele craque, sentia falta do cigarro para se concentrar, que diria eu, uma simples repórter? 

Ao longo dos anos as reportagens nos levaram para caminhos distantes, embora eu sempre acompanhasse suas histórias, principalmente na Piauí e na Época. Desde que vim para Brasília, há 17 anos, encontrei com Maklouf pouquíssimas vezes. Algumas, no Congresso, e outras, quando voltava para coberturas em São Paulo.

Ao ler um depoimento que ele deu, em 2019, sobre o câncer de pulmão que o acometia, pensei em  telefonar, mas não liguei. Dias depois, no entanto, recebi uma mensagem de Maklouf pelo WhatsApp, perguntando se eu tinha o telefone de uma pessoa com a qual ele precisava entrar em contato. Estava produzindo outra reportagem e parecia bem animado. Eu perguntei sobre sua saúde. “Tô bem. Vaso ruim não quebra”, respondeu ele. 

Depois disso, trocamos apenas mais cinco mensagens pelo WhatsApp. Na última, ele me informou sobre o lançamento de seu livro O Cadete e o Capitão – A vida de Jair Bolsonaro no quartel. Eu quis saber se haveria rega-bofe em Brasília e ele disse que o livro estava na mídia digital. “Vou comprar”, avisei. 

Uma semana depois, o livro-reportagem desembarcava na minha mesa da sucursal do Estadão, em Brasília. Assim era Luiz Maklouf Carvalho, que neste triste sábado se despediu de nós. Mestre das palavras, generoso com os colegas, Mak – como todos o chamavam – nunca quis ser chefe. Sempre foi um repórter que cumpriu o ofício com paixão. Até o último dia.

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