Fábio Motta/Divulgação
Fábio Motta/Divulgação

‘Sociedade civil deve agir para enfrentar o autoritarismo’, diz Felipe Neto

Youtuber insiste na acusação contra Bolsonaro por suposto genocídio e diz que está em preparação uma denúncia internacional contra o presidente

Entrevista com

Felipe Neto, influenciador digital

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2021 | 16h45

RIO – O influenciador digital Felipe Neto reafirma, em entrevista ao Estadão, considerar “genocida” a política de Jair Bolsonaro para a pandemia de covid-19. A  acusação é semelhante àquela que levou à abertura de um inquérito na Polícia Civil do Rio, com base na Lei de Segurança Nacional e no Código Penal, pelo suposto crime de calúnia (atribuir falsamente crime a alguém) que teria cometido contra o presidente. A investigação foi considerada ilegal e suspensa pela Justiça, mas inspirou o youtuber a criar o movimento Cala-Boca já Morreu, contra o autoritarismo. Trata-se de ação de assistência jurídica a qualquer cidadão investigado ou processado por criticar autoridades.

“Os casos não param de surgir por todo o País”, escreveu Neto, em entrevista por e-mail. Eu estou apenas fazendo a minha parte.”

Alvo de difamação, insultos e ameaças na internet, Neto conta com segurança especial, para si e sua família. Sua mãe deixou o País, e seu irmão é alvo de ataques na web. Mas o youtuber não demonstra disposição de recuar. Para ele, o Brasil enfrenta, sob Bolsonaro, uma escalada de autoritarismo, com tentativas de silenciamento e intimidação. Com contatos fora do País, ele diz que a imagem do Brasil está “completamente destruída”, por causa do governo Bolsonaro. E revela que está em preparação uma denúncia internacional contra o presidente brasileiro.

“O Tribunal Penal Internacional de Haia aceitou denúncia contra Jair Bolsonaro justamente por ‘incitar o genocídio e promover ataques sistemáticos contra os povos indígenas do Brasil’”, lembra.

  • Como surgiu a ideia de criar a iniciativa Cala-Boca Já Morreu? Foi depois de ter sido intimado por chamar o presidente Jair Bolsonaro de genocida?

A ideia surgiu na madrugada após minha intimação. A única coisa que conseguia pensar era em como aquilo (a intimação para depoimento) poderia ser utilizado para calar pessoas que não têm como se defender. Eu sabia que a ação contra mim daria em nada, justamente pela minha rede de apoio e defesa, mas entendi que o problema era muito mais profundo. Eles queriam colocar medo na população, nos jornalistas, nos professores. Então decidi procurar os melhores advogados que conheço e perguntar se eles topariam utilizar seus escritórios para defender todo mundo que sofresse essa tentativa de silenciamento absurda que eu sofri. Eles toparam na hora. 

  • Por que o senhor considera uma iniciativa dessas é necessária no Brasil de hoje? Acha que a liberdade de expressão está sob ameaça no governo de Jair Bolsonaro?

Vinte e cinco pessoas foram intimadas pela Polícia Federal em Uberlândia por postagens contra o governo. Quatro rapazes foram presos em Brasília por estenderem uma faixa criticando Jair Bolsonaro. Um homem está sendo perseguido judicialmente por ter colocado um outdoor comparando o Presidente a um pequi roído. Os casos não param de surgir por todo o País. Não adianta esperar sentado que as coisas serão cuidadas pelos próprios poderes públicos, é imprescindível que a sociedade civil aja para enfrentar o autoritarismo. Eu estou apenas fazendo a minha parte.

  • Por que a atuação de Jair Bolsonaro frente à pandemia de covid-19, em sua opinião, pode ser chamada de genocídio – como o senhor e alguns outros defensores de direitos humanos já apontaram? Outros ativistas falam em crime contra a Humanidade. Já pensou em fazer alguma denúncia formal junto a alguma instância internacional?

Sim, estamos nesse momento trabalhando em uma denúncia. Não resta dúvida de que a política de Jair Bolsonaro é uma política genocida, por ação e omissão, tanto pelas políticas públicas (ou falta delas) durante a pandemia, quanto nas ações ou omissões a respeito de povos indígenas do País. O Tribunal Penal Internacional de Haia aceitou denúncia contra Jair Bolsonaro justamente por “incitar o genocídio e promover ataques sistemáticos contra os povos indígenas do Brasil”.

  • O senhor tem ganhado um bom espaço na imprensa estrangeira, New York Times, Times, Le Monde, The Guardian. E tem usado esse espaço para denunciar o governo de Jair Bolsonaro. Qual tem sido a reação no exterior diante do que está acontecendo?

Recebo e-mails e mensagens em redes sociais de pessoas estrangeiras demonstrando apoio e solidariedade ao que estamos enfrentando. A imagem do Brasil está completamente destruída pelo mundo, justamente em função do governo de Jair Messias Bolsonaro, tanto interna quanto externamente. Nós vamos precisar de vários anos para consertar o estrago cometido por essa família e seu ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

  • Depois das ameaças que o senhor e sua família receberam no ano passado, quando a sua mãe chegou a se mudar para o exterior, voltou a sofrer novas ameaças? Que tipo de precaução tomam?

Sofremos ameaças constantes. Minha família passa por coisas que ninguém faz a menor ideia. Meu irmão é alvo de ódio e perseguição enquanto faz vídeos educativos infantis. Contudo, eles permanecem ao meu lado, sem titubear, sem me pedir para frear. Vivo sob um rígido sistema de segurança, do qual não posso dar detalhes.

  • Milícias digitais vêm incitando várias campanhas de ódio online. Como especialista em redes sociais que é: como evitar a disseminação do discurso de ódio e das fake news?

Só existem dois caminhos para solucionar essa questão: educação digital para a população e investimento nos setores investigativos da Polícia Federal para desarticulação dos grupos de ódio. A parte da educação digital é uma das minhas prioridades, por isso fundei o Instituto VERO, que está trabalhando para levar educação digital para o máximo possível de pessoas. A população recebeu a maior arma da história da humanidade, a internet, sem manual de instruções. Até 2017, 50% da população brasileira achava que a internet era o Facebook. Pessoas não sabem diferenciar uma notícia de um veículo sério com uma notícia editada no Whatsapp. Nós precisamos educar a população sobre o que é o ambiente digital o mais rápido possível.

  • Recente pesquisa do Datafolha mostrou que 54% da população consideram o presidente diretamente responsável pelo colapso das instituições sanitárias brasileiras diante da pandemia de covid-19. O senhor acha que existe clima no País para um pedido de impeachment?

Não, não acho. Adoraria que minha resposta fosse diferente, mas não tenho como propagar utopias e manter minha consciência tranquila. Para termos um cenário de impeachment, precisamos de dois terços dos votos da Câmara. Isso, hoje, é absolutamente impossível, basta ver que o candidato de Bolsonaro foi eleito Presidente dessa mesma Câmara no primeiro turno. O aparelhamento do Centrão foi bem feito, e os setores mais importantes da mídia não compraram a ideia do impeachment da mesma forma que fizeram em 2016. Hoje, infelizmente, apenas 46% da população pede pelo impeachment, enquanto 68% apoiavam o da Dilma em março de 2016. É difícil fazer um impeachment sem um golpe. E o lado certo da história não defende e nem articula golpes.

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