Alice Vergueiro/Estadão
Alice Vergueiro/Estadão

Símbolos internacionais da ultra-direita ganham adesão entre bolsonaristas

Bandeira ucraniana usada na manifestação de domingo preocupa especialistas e motivou nota de embaixada

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 05h00
Atualizado 15 de junho de 2020 | 09h34

SÃO PAULO – A presença de um símbolo ucraniano milenar no protesto pró-Bolsonaro em São Paulo, no último domingo, chamou atenção para as referências que influenciam os grupos que dão apoio ao governo. A bandeira motivou um esclarecimento do embaixador da Ucrânia no Brasil, uma nota de repúdio de descentes de ucranianos no País, e preocupação entre especialistas que acompanham a “tropicalização” de símbolos associados à extrema direita no mundo – das tochas e máscaras em frente ao Supremo Tribunal Federal às Cruzadas da Idade Média. 

Vermelha e negra, a bandeira ucraniana que causou a confusão na Avenida Paulista traz um tridente estilizado em branco. É um símbolo nacional adotado oficialmente na Ucrânia desde a independência do país em 1991, quando se separou da União Soviética. Integrantes de torcidas organizadas antifascistas acusaram o símbolo como referência neonazista, o que foi rechaçado de forma veemente pelo dono da bandeira. 

Brasileiro radicado na Ucrânia há seis anos, o técnico em segurança Alex Silva lembra que o tridente era o símbolo do príncipe Vladimir, que levou o cristianismo à Ucrânia no século 10, e usado oficialmente pelo Estado ucraniano como brasão. 

“É uma ofensa enorme, você não tem ideia de como isso me ofende pessoalmente e ofende a honra da minha esposa”, disse Silva ao Estadão, sobre a associação da bandeira com o nazismo. Ele conta que o avô de sua esposa, que é ucraniana, teve o irmão morto por nazistas na Segunda Guerra Mundial. “Aquilo não tem nada a ver com símbolo nazista.” 

Ele chama atenção para o significado das cores: o preto é uma referência à terra, e “o vermelho representa o sangue dos heróis ucranianos que foi derramado por gerações, por séculos”. 

Silva trabalha em um centro de treinamento militar em Kiev, o Center-A, que presta serviços ao governo ucraniano e de outros países. Ele é representante da empresa na América Latina, e veio com a intenção de abrir uma filial brasileira. Com o fechamento de aeroportos em todo mundo por causa da pandemia do coronavírus, está no Brasil há mais tempo que o planejado, mas diz que não tem a intenção de ficar. 

O tridente e as cores, estampados na bandeira de Silva, são usados também pelo grupo paramilitar Pravyi Sektor (Setor Direito), de extrema direita, que se tornou partido político em 2014 após a queda do presidente ucraniano Viktor Yanukovich. As cenas de batalha campal em Kiev, que levaram à queda do presidente, tem inspirado bolsonaristas no Brasil. Em sua conta no Twitter, o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) escreveu que “está na hora de Ucranizar o Brasil”, bordão que já era repetido pela ativista bolsonarista Sara Winter

“Isso significa ucranizar o Brasil: jogar o político sujo na lata de lixo, como fez o povo ucraniano, de uma maneira honrosa”, ele explica. A imagem remete à foto de um deputado ucraniano, que defendia Yanukovich e sua política pró-Rússia, atirado no lixo durante uma manifestação em 2014, quando o país passava pela revolução que levaram o atual governo ao poder. 

Em Curitiba, onde há a maior comunidade de descendentes de ucranianos no Brasil, divulgaram uma nota de repúdio contra o uso da bandeira. Eles classificaram o uso do símbolo como “descabido, perverso e injustificável”. 

“Temos ciência da existência absolutamente minoritária de movimentos extremistas na Ucrânia, que se apropriaram indevidamente dos símbolos nacionais para disseminar ideais fascistas e neonazistas”, diz a nota do Grupo Folclórico Ucraniano Poltava. 

Nesta segunda-feira, 1, um protesto convocado por grupos anti-fascistas contra o racismo terminou em confronto com a Polícia Militar na capital paranaense . Eles se manifestavam em apoio à onda de prostestos que eclodiu nos Estados Unidos, contra a morte de negros em ações policiais no país. Em Curitiba, os manifestantes queimaram uma bandeira do Brasil e entoaram gritos de ordem contra Bolsonaro. Não houve registro de manifestantes pró-governo. 

‘Sangue e terra’

Para especialistas, mais do que a origem no século 10 e o brasão, é o uso das cores na bandeira que preocupa. Eles lembram que as cores vermelha e negra foram usadas pela Organização dos Nacionalistas Ucranianos a partir de 1941, e que o governo ucraniano, hoje, tenta apagar a colaboção que houve entre esse grup e fascistas durante a Segunda Guerra Mundial. 

 

“A bandeira não é nazista mas, como se diz, é uma apropriação simbólica”, diz o professor David Magalhães, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), que dá aulas de Relações Internacionais e coordena o Observatório da Extrema Direita, que reúne pesquisadores de outras universidades. “Essa relação do sangue e a terra é muito forte no movimento ultranacionalista. Isso não apaga nada do fato”, ele diz. 

Em 2017, quando supremacistas brancos protestaram com tochas em Charlottesville, nos Estados Unidos, contra a retirada de um monumento aos Confederados, eles entoavam o lema “sangue e terra”. Esse é também um slogan que surgiu na Alemanha no século 19 e foi apropriado pelo regime nazista. 

Sobre a defesa da “ucranização” do País, o professor chama atenção para um inconsistência no discurso anticorrupção no Brasil associado ao deputado na lata de lixo em Kiev. “Bolsonaro está se aproximando da faceta mais podre do sistema, que é o Centrão. Eles realmente ignoram essa faceta”, diz. 

As referências internacionais vão além da Ucrânia. O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, republicou no último domingo, 30, um poema de Dylan Thomas. Originalmente, Martins havia publicado o poema poucos dias após o atentado que matou mais de 50 pessoas em mesquitas na Nova Zelândia. O autor do massacre, poucos minutos antes do ataque, também havia publicado um poema de Thomas. 

Magalhães lembra também das contantes referências a cavaleiros templários e às Cruzadas feitas por Martins e outros apoiadores de Bolsonaro. Ele vê a “tropicalização” das referências do supremacismo branco como uma ideia mal colocada na realidade do País. 

“É muito mais uma narrativa comprada do exterior, e transformada de forma muito artificial, do que algo que responda a determinadas realidades”, diz o professor. Não fazer qualquer sentido a direita brasileira incorporar uma agenda xenofóbica. O ‘crusadismo’ é isso.” 

O pesquisador Gustavo Menezes, especialista em relações internacionais na região da ex-URSS, diz que muitos símbolos associados à extrema direita também foram apropriados pelo novo governo da Ucrânia, que assumiu com a queda de Yanukovich. A institucionalização dessas referências, segundo ele, pode interessar ao bolsonarismo. 

“Há uma espécie de tentativa oficial de apresentar o movimento (nacionalista ucraniano) como positivo, é por isso que vão tentar normalizar o uso daquelas cores vermlhas e negras”, diz. “Exatamente um desses elementos é apresentar de maneira positiva esse movimento da Segunda Guerra Mundial, que lutou contra a União Soviética e muitos desses membros participaram da perseguição de outros povos que viviam nessa região.” 

“Certamente é algo que torna a Ucrânia atraente para os bolsonaristas, porque parte dessas políticas oficiais são exatamente uma tentativa de colocar o nazismo e o comunismo como males de igual teor”, conclui Menezes.

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