Silêncio de Bolsonaro sobre amotinados e cartaz contra Congresso desafiam a ordem

Nenhum general do Planalto se lembra de se queixar da quebra de hierarquia e disciplina nos quartéis do Ceará; militares começam a questionar governo

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2020 | 09h33

Caro leitor, 

O historiador André Piganiol conta em seu livro sobre a conquista romana que a República – se ainda era possível usar esse termo  foi condenada por seus escândalos cotidianos. César, em sua luta contra o Senado, encontrou, no entanto, oposição dos que representavam os aristocratas e banqueiros de Roma. Venceu por dispor, sobretudo, dos novos romanos, os gauleses da Transpadania recém-admitidos na cidadania. Quando César atravessou o Rubicão, o Senado perguntou a Pompeu, seu defensor: “Onde estão as suas legiões?” O resto é história.

No Brasil, legionário romano é uma fantasia de carnaval e, assim como a de César ou a de Napoleão, frequenta bailes e cordões desde os tempos em que Richard Burton era casado com Elizabeth Taylor. Mas a festa de 2020 acrescentou alguns mascarados inesperados à folia. Os filhos do presidente da República resolveram apoiar o que chamam de movimento por melhores salários de policiais. E Sérgio Moro foi a Fortaleza, mas não viu nem venceu a desordem.

Não houve no carnaval palavra dos ministros militares do governo sobre os bandos encapuzados que assaltaram quartéis no Ceará, tomaram viaturas e deixaram um rastro de 170 mortes em cinco dias. Mas o que diriam os generais do Planalto se o motim cearense atingisse os cabos e sargentos da 10ª Região Militar do Exército? E se a revolta fosse fomentada por deputados de oposição ao governo? O que faria o marechal Castelo Branco – que todos eles dizem admirar – diante de semelhante baderna em sua terra natal? No mínimo, Augusto Heleno iria tuitar: "A nossa bandeira jamais será vermelha".

O leitor viu aqui que a primeira reivindicação dos amotinados é a anistia. Não será a primeira e, talvez, não seja a última no País. Os mascarados querem de arma na mão obrigar o governador do Estado, Camilo Santana (PT), a abrir os cofres públicos para, em meio à crise fiscal grave, obter o privilégio de ser como em Minas a única categoria do funcionalismo a ter aumento. O bolsonarismo insufla os quartéis das PMs para emparedar os governadores.

Em 1961, um movimento entre bombeiros incendiou a Força Pública paulista. O então tenente Bruno Éboli Bello tentava pular o portão da ala residencial do Palácio dos Campos Elíseos, então sede do governo paulista, quando foi seguro pelo braço por um homem de óculos escuros e bastão de comando, que lhe disse com voz enérgica: "Tenente, ponha a tropa em forma antes que a gente tenha de tomar providências". Ele deu dois minutos para os policiais se retirarem, do contrário seriam varridos à bala. O homem era o general Costa e Silva, então comandante da 2ª Região Militar. A coluna de amotinados seguiu pela Avenida São João escoltada pelos blindados M-8 do 2º Regimento de Reconhecimento Mecanizado do Exército. 

Mais tarde, os PMs seriam anistiados. E a praga da baderna armada voltou a rondar São Paulo. O coronel Mello Araújo comandava o 3º Batalhão de Choque da PM quando, em 1988, seus homens debelaram um motim que ameaçava afogar a polícia paulista. Ao todo, 460 policiais foram indiciados por participação ou omissão na greve, três foram expulsos e 157, demitidos. “Aqui amotinado sai preso e condenado”, disse. Desde então nunca mais houve uma greve na tropa.

Trinta anos depois, deputados ligados a policiais querem anistiar os amotinados de 1988. O Estado procurou o comando da PM de São Paulo para ouvi-lo sobre o tema. Era 20 de fevereiro. Até hoje não obteve resposta. Não houve também resposta dos generais Augusto Heleno e Hamilton Mourão para o fato de suas imagens, fardados, terem sido usadas em panfleto golpista distribuído por grupos de extrema-direita para convocar um protesto contra o Congresso, no dia 15. O intuito é claro, como mostra a consigna: “Fora Maia e Alcolumbre”.

Outro general retratado no panfleto, o deputado federal Roberto Peternelli (PSL-SP), disse não ter autorizado o uso de sua imagem. “Fora Maia e Alcolumbre é tão impróprio quanto fora Bolsonaro”, afirmou. Peternelli prestava o esclarecimento quando a colunista Vera Magalhães divulgou que o próprio presidente distribuía pelo WhatsApp vídeo defendendo a ação contra o Congresso. Era o chefe do Poder Executivo convocando uma manifestação contra outro Poder, o Legislativo. Um desafio à República. 

E o que os generais acham disso? “Só ele (Bolsonaro) pode responder. Atrito entre o Executivo e o Legislativo não contribui para o País”, disse Peternelli. Enquanto isso, havia quem apelava aos sentimentos religiosos dos brasileiros para, como o chefe fizera, repudiar o enredo e a comissão de frente da escola de samba Mangueira, onde policiais modernos, em vez de legionários romanos, davam uma dura em Jesus Cristo. Silêncio, no entanto, sobre os PMs e o uso de imagens de militares no protesto antiCongresso.

E olha que, juntos, os generais de Bolsonaro publicaram até hoje 1.323 tuítes em suas contas. Mesmo assim ninguém no Planalto lembrou em fazer na rede social, a exemplo do general José Luiz Freitas, do Comando de Operações Terrestres (Corter), pelo menos, o elogio aos militares do Exército deslocados para garantir a ordem e a lei no Ceará. Nas palavras do comandante do Coter, eles "tinham planos para o carnaval, provavelmente em família e com os amigos".

Estudiosos dos militares indagam: até quando vai essa folia? O general Santos Cruz chamou de “grotesco” o uso das fotos dos colegas na “montagem irresponsável” do panfleto golpista. Ele deve saber o que fala, até porque ajudou a criar esse governo e conheceu a fundo a milícia digital que o apoia. Agora, parece vestir o papel de Pompeu. Mas quais legiões ele comanda? Outros militares perguntam aonde isso tudo vai dar. No governo Bolsonaro, o carnaval parece não ter fim. Nem as fantasias. E as de Napoleão e de César parecem estar na moda.

 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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