Governo do Estado de São Paulo
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'Saia da sua bolha e venha ver a situação de São Paulo', diz Doria a Bolsonaro

Nesta quarta, o presidente culpou governadores, citando o tucano, e prefeitos por mortes pelo coronavírus

Paloma Cotes e João Ker, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 12h58

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), criticou duramente a postura do presidente Jair Bolsonaro no combate ao avanço do novo coronavírus no País e pediu que ele saísse "da bolha". Na terça-feira, ao ser questionado sobre as mortes na pandemia, Bolsonaro perguntou "Quer que eu faça o que?" Hoje, o presidente voltou a criticar governadores, citando Doria. "Meus sentimentos aos familiares de 5.017 brasileiros que perderam a vida pelo coronavírus em todo o País. Quero dizer ao presidente, o mesmo presidente que ontem respondeu: 'Quer que faça o que?'. Eu posso enumerar atitudes que o senhor deveria ter tomado e não adotou. É fazer aquilo que o senhor não fez", disse o governador de São Paulo.

E continuou: "Primeiro, respeitar os brasileiros que o elegeram e os que não o elegeram. Respeitando pessoas, parentes, amigos de pessoas que perderam parentes para o coronavírus, que o senhor classificou como uma gripezinha, que não era grave. Que o senhor respeite o luto de pessoas que perderam entes queridos." 

Doria chamou o presidente para vir a São Paulo e acompanhar a situação no Estado. "Convido o senhor, venha a São Paulo. Saia de Brasília e venha visitar o Hospital das Clínicas, os hospitais de campanha. Venha ver as pessoas agonizando nos leitos e a preocupação dos profissionais de saúde de São Paulo. E se não quiser visitar São Paulo, por medo ou qualquer outra razão, vá ver o colapso da saúde em Manaus. Veja a realidade do seu País", disse. "Saia da sua bolha, do seu mundinho de ódio. Percorra hospitais e seja solidário com a realidade do seu País. E, por fim, o senhor que gosta de tratar tudo como números e acha que a vida é um número, eu como governador, mas como ser humano, não acho que vida é número. Nem meus filhos são tratados por número. Meus filhos são tratados por nome, com carinho e afeto. Trabalho para salvar vidas. A vida é sentimento e espero que o senhor possa resgatar o seu para ter um olhar de compaixão pelo seu País e pelos brasileiros."

O governador ainda cobrou "respeito" de Bolsonaro aos profissionais da saúde. "Nenhum parente pôde acompanhar o sepultamento. Respeite médicos, enfermeiros e profissionais de saúde, que ao contrário do senhor, que vai praticar tiro em stand de tiro, essas pessoas estão protegendo pessoas. Pare com essa política da perversidade. Pare de fazer política em meio a um País que chora mortes e infectados. E agora, presidente? Diante de mais de 5 mil mortos, o senhor continua afirmando que é uma gripezinha?" 

Na noite desta terça-feira, 28, quando questionado sobre o recorde no número de mortes pela doença no País, Bolsonaro respondeu: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", disse Bolsonaro, em referência a seu segundo nome.

Depois, Bolsonaro lamentou as mortes. "Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas. Mas é a vida. Amanhã vou eu. Logicamente, a gente quer ter uma morte digna e deixar uma boa história para trás", disse o presidente.

Ja na manhã desta quarta-feira, Bolsonaro afirmou que o governo federal fez "tudo que é possível ser feito" para conter a crise causada pela pandemia do coronavírus e que não pode ser responsabilizado pelas mais de 5 mil mortes no País. "Não vão botar no meu colo uma conta que não é minha", afirmou. Segundo o presidente, governadores e prefeitos que adotaram medidas de isolamento social é quem devem ser cobrados.

"A imprensa tem que perguntar para o (João) Doria por que mais pessoas estão perdendo a vida em São Paulo", disse Bolsonaro. "O Supremo (Tribunal Federal) decidiu que quem decide essas questões (sobre restrição) são governadores e prefeitos."

O balanço divulgado nesta terça-feira pelo Ministério da Saúde mostrou um recorde de número de mortes confirmadas por covid-19. O País superou China e chega a 5.017 mortes por coronavírus; foram 474 em 24h. Pelo balanço, o Brasil registrou nas últimas 24 horas mais mortes que Itália, França e Espanha.

São Paulo segue como o Estado mais afetado pela doença, com 2.049 mortes e 24.041 casos confirmados de covid-19. Os números do Estado nesta terça-feira também foram recordes, com 224 novas mortes registradas em 24 horas, e ajudaram a puxar a alta de mortes no balanço nacional. A Grande São Paulo já tem 85% dos leitos de UTI ocupados.  

Os embates entre Doria e Bolsonaro se intensificaram diante do avanço da doença, com trocas públicas de críticas. O presidente vem criticando governadores e defende a volta da atividade econômica e o fim do isolamento social. Já Doria implementou uma quarentena em São Paulo, que está em vigor desde o dia 24 de março e vai até 10 de maio, e que permite apenas o funcionamento dos serviços considerados essenciais nos 645 municípios do Estado. Ele também vem defendendo o isolamento social como uma forma de conter a doença, mas o Estado vem sendo pressionado por prefeitos e deve implementar um plano de flexibilização da quarentena em algumas regiões. O Plano São Paulo foi anunciado, mas ainda não foi detalhado. 

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