Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Ricardo Salles pediu demissão após saber que seria preso

Ex-ministro do Meio Ambiente é alvo de inquérito que investiga um esquema ilegal de retirada e venda de madeira; ordem judicial partiria do ministro do STF Alexandre de Moraes

Vera Rosa e Andreza Matais, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 05h00
Atualizado 26 de junho de 2021 | 12h49

BRASÍLIA – Alvo de inquérito que investiga um esquema ilegal de retirada e venda de madeira, Ricardo Salles decidiu pedir demissão do Ministério do Meio Ambiente quando soube, na terça-feira passada, 22, que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinaria sua prisão. Ao tomar conhecimento da informação por meio de um colega, Salles viu que sua permanência no governo era insustentável.

Na conversa com o presidente Jair Bolsonaro, na quarta-feira, 23, um dia depois de ser informado sobre o risco de prisão, o ainda ministro agradeceu a confiança, mas disse que não tinha mais como continuar na equipe. Bolsonaro pediu, porém, que ele ficasse e enfrentasse o Supremo, visto pelo Palácio do Planalto como uma Corte de decisões políticas. Segundo o Estadão apurou, Salles respondeu que, além de levar a crise para o centro do governo, temia pela segurança da mãe, também investigada.

A Polícia Federal apura operações financeiras de Salles, tendo como base o escritório de advocacia do qual ele é sócio com a mãe, em São Paulo. O inquérito foi autorizado pelo Supremo, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). A suspeita é de que Salles atuava no cargo para favorecer madeireiros que desmatam a Amazônia, abrindo caminho para o contrabando de madeira ilegal.

A ordem de prisão teria como fundamento suspeitas de que Salles estaria atuando para prejudicar as investigações. Ao entregar o cargo, Salles esvaziou essa justificativa, Salles esvaziou essa justificativa, uma vez que não tem mais poder algum na pasta. Além disso, o processo pode sair do Supremo.

Alexandre de Moraes analisa se existe mais algum investigado com prerrogativa de foro para manter o caso sob sua relatoria. Se não houver, a investigação terá de ser enviada para a Justiça Federal do Distrito Federal ou do Amazonas. Nesta sexta,  a ministra do STF Cármen Lúcia, relatora de um outro inquérito contra Salles, determinou que o ex-ministro entregue seu passaporte à Polícia Federal para não deixar o País.

A demissão do ministro do Meio Ambiente foi anunciada no mesmo dia em que as suspeitas sobre um esquema de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin chegaram a Bolsonaro. Em depoimento à CPI da Covid, nesta sexta-feira, 25, o deputado Luís Miranda (DEM-DF) e seu irmão Luís Fernando Fernandes Miranda, afirmaram ter alertado o presidente sobre irregularidades na aquisição da Covaxin.

Interlocutores de Bolsonaro disseram ao Estadão, porém, que a situação de Salles e os resultados das investigações no meio ambiente o preocupam mais do que as acusações de propina e desvio de dinheiro público apresentadas por Miranda, classificado por ele como dono de um “prontuário extenso”. O presidente elogia Salles, que teve a gestão de dois anos e meio à frente da pasta marcada por recorde no desmatamento na Amazônia. “Um excelente ministro do Meio Ambiente”, definiu Bolsonaro nesta sexta, em discurso para uma plateia de empresários na cidade de Chapecó (SC).

Deflagrada no dia 19 de maio, a Operação Akuanduba cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Salles. O então titular do Meio Ambiente teve os sigilos bancário e fiscal quebrados por ordem de Moraes, relator da ação, e entregou o celular aos investigadores da Polícia Federal.

Para justificar a autorização da operação, Moraes destacou que um relatório de inteligência financeira indicava “movimentação extremamente atípica” de R$ 14,1 milhões, no período de 2012 até metade de 2020, relacionada ao escritório que tem Salles como sócio, na capital paulista.

Salles foi acusado de atrapalhar investigações da Operação Handroanthus, que apreendeu pelo menos 131 mil metros cúbicos de madeira em tora, na divisa do Amazonas com o Pará. O então superintendente regional da PF no Amazonas, delegado Alexandre Saraiva, enviou ao Supremo notícia-crime contra o então ministro do Meio Ambiente, acusado de obstruir as diligências.

Saraiva foi retirado do cargo, mas jogou luz sobre as denúncias contra Salles. Ao comentar a saída do ministro, nesta quarta-feira, o delegado foi irônico. “Eu avisei que não ia passar boiada”, escreveu. A expressão “passar a boiada” se refere a uma frase usada por Salles. Em reunião ministerial realizada no dia 22 de abril de 2020, o então ministro disse a Bolsonaro que o governo deveria aproveitar o momento em que o foco da mídia estava voltado à cobertura do novo coronavírus para ir “passando a boiada”, com o afrouxamento de regras de proteção ambiental.

Salles integrava a ala ideológica do governo, que perdeu força com a saída dos colegas Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Abraham Weintraub (Educação). Ao deixar o Ministério do Meio Ambiente, disse que havia desempenhado o cargo “da melhor forma possível”. Procurado pelo Estadão, o ex-ministro não se manifestou. Ele sempre negou ter cometido irregularidades e chegou a afirmar que não havia “nenhuma substância” nas acusações.

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