GABRIELA BILO/ESTADÃO
GABRIELA BILO/ESTADÃO

Extremistas pró-Bolsonaro acampam em Brasília e querem 'ucranizar' o Brasil

Grupo que com influência paramilitar está acampado ilegalmente no Parque da Cidade, a 7 quilômetros da Praça dos Três Poderes

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2021 | 12h41

BRASÍLIA – Um acampamento remanescente dos atos convocados pelo presidente Jair Bolsonaro para o 7 de Setembro, em Brasília, tem atraído extremistas que dizem se preparar para “uma faxina geral” e para “pôr fim à corja maldita” da República. Com discurso violento contra membros do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF), o grupo, com viés paramilitar, está instalado ilegalmente dentro do Parque da Cidade, a sete quilômetros da Praça dos Três Poderes. O espaço é chamado por eles de “base de resistência”, de onde pretendem partir em direção ao objetivo de “ucranizar o Brasil”. O governo do Distrito Federal não autorizou o acampamento e diz trabalhar para a desocupação. 

A expressão “ucranizar o Brasil" é uma referência à onda de protestos violentos que deixou mortos e feridos no país do leste europeu, entre 2013 e 2014. Manifestantes invadiram prédios do governo. A crise interna culminou na destituição do presidente Viktor Yanukovich e na ascensão de grupos considerados neofascistas. 

A base de Brasília está ornamentada com mensagens em português e inglês a favor de Bolsonaro e contra os presidentes da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Existe até um cartaz escrito em alemão, alegando que “os brasileiros dizem não ao comunismo”.

Nesta quinta-feira, 23, havia ao menos 18 barracas de acampamento montadas em espaço localizado ao lado do estacionamento 3 do parque que leva o nome de Sarah Kubitschek e é um dos principais espaços de lazer e de prática esportiva dos brasilienses. Há estrutura para lavar roupas e preparar alimentos.

Para reforçar o acampamento, os extremistas estão recolhendo doações de “kits de primeiros socorros”, camas, “armário de metal com pelo menos quatro portas para guardar alimentos e equipamentos”, “redes camufladas militares”, além de cadeados, chuveiros de camping e até projetor e caixa de som. Também vendem camisas em defesa da “ucranização” e fazem rifas de materiais.

“Precisamos compreender a necessidade de se fazer uma intervenção civil pacífica, contundente, permanente e sem o financiamento de nenhum político” diz a mensagem que circula nos grupos dos extremistas com a explicação sobre o significado de “ucranizar”.

As orientações aos adeptos apontam que “a faxina tem que ser geral”. “Eu me preparei pra esse momento por entender que essa será a única forma de pôr fim nessa corja maldita!”, diz o texto padrão enviado por organizadores. 

A convocação é feita por grupos no Telegram, que têm administradores anônimos. O grupo principal, “Ucraniza Brasil DF”, específico para o acampamento em Brasília, tem 180 membros. Há um outro, geral, com mais de 17 mil pessoas. Os administradores fazem convocações e ameaças constantemente: “Precisamos de vocês em nossa base montada em Brasília. Essa é a hora do projeto Ucraniza Brasil mostrar a que veio”. 

Um dos poucos organizadores que se identifica é Alex Silva. Brasileiro, ele conta que vive na Ucrânia e é de lá que envia os vídeos. O extremista criou polêmica, em junho de 2020, ao aparecer em manifestações pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista, levando uma bandeira com símbolos tradicionais ucranianos que foram apropriados por movimentos radicais do país europeu. 

O estandarte rubro-negro tem um Tryzub, uma espécie de tridente que representa a Santíssima Trindade. Foi transformado em símbolo do Pravy Sektor, um movimento paramilitar de extrema-direita, considerado ultranacionalista e neofascista. Em 2014, com a crise política ucraniana, o movimento virou partido político. 

Em vídeo disparado para os simpatizantes brasileiros, Alex Silva diz que manifestações como as de 7 de Setembro "não servem para absolutamente nada” e orienta os brasileiros a radicalizar, com manifestações violentas. O extremista aparece vestido com trajes militares e tem, ao fundo, a bandeira rubro-negra. 

“Se você quer resolver o seu problema, essa é a dica. Simples. Povo brasileiro, você não tem que pedir, eu te autorizo. Você tem que saber pedir (ele fala enquanto aponta para uma foto de destruição na Ucrânia), gritar para os políticos e exigir que eles assim o façam, porque, se não (ele fala enquanto aponta para uma imagem de manifestantes ucranianos enfileirados com bastões em mãos, com os dizeres ‘assim você acaba com políticos e ditadores’), é claro, você vai fazer e falar de outra maneira. Entenderam o recado?”, afirmou Silva, em vídeo enviado no último dia 16. 

Apesar do suposto interesse na “faxina geral”, o grupo é bolsonarista. No aplicativo de mensagens e nas faixas que destacam na entrada do acampamento estão palavras de ordem em defesa do presidente e contra instituições e demais alvos apontados como “inimigos do povo”. Os alvos são semelhantes àqueles selecionados por Bolsonaro nos discursos do dia 7 de setembro. “O fim do STF, a maior conquista do povo brasileiro”, diz uma das mensagens.

A mobilização dos extremistas infringe a legislação do Distrito Federal. Uma lei complementar, de dezembro de 2019, proposta e sancionada pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), proíbe o uso residencial dos parques urbanos do DF, ainda que temporariamente.

Procurado pelo Estadão, o governo do DF informou que não concedeu autorização formal para acampamento no Parque da Cidade a nenhum grupo. A Secretaria de Esporte e Lazer, que administra o espaço, e a Secretaria de Segurança Pública, disseram que trabalham para, “o quanto antes, realizar a desocupação do local”.

O governo não deu prazo nem explicou como se dará a retirada. Também não comentou o teor nem os objetivos do grupo instalado no parque. 

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