Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Quem são os ‘negacionistas’ do coronavírus na engrenagem do bolsonarismo

Seguidores de Olavo e parte da comunidade evangélica e do empresariado questionam a gravidade da pandemia e o isolamento social, na contramão das orientações de epidemiologistas e da OMS

Pedro Venceslau e Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 09h58

Correções: 02/04/2020 | 17h42

A covid-19 é uma doença causada por um “vírus chinês”, que nem é tão letal assim - mata 1% dos infectados - e sua disseminação pelo mundo vem sendo instrumentalizada pela oposição e pela mídia para derrubar o presidente Jair Bolsonaro. Essa é a linha de pensamento adotada por quem acredita que o Brasil não pode parar por causa de um vírus.

Dentro da engrenagem do bolsonarismo, três vertentes adoraram o discurso “negacionista”, que questiona a gravidade da pandemia, na contramão das orientações de epidemiologistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS). Esse grupo - que reúne parte dos evangélicos, alguns empresários e seguidores do escritor e autointitulado filósofo Olavo de Carvalho - defende agendas próprias, mas converge no combate ao isolamento social para enfrentar a pandemia do coronavírus.  

Uma das bases de Bolsonaro, as igrejas evangélicas foram beneficiadas última sexta-feira, 28, com um decreto presidencial permitindo que templos fiquem abertos durante a situação de emergência. A medida veio após pastores liderados por Silas Malafaia fazerem uma forte pressão nas redes sociais. Nesse setor, o nome que mais se destaca é o deputado Pastor Marco Feliciano (sem partido), vice-líder do governo. Mais próximo aliado de Bolsonaro no Congresso Nacional, o parlamentar é também a ponte entre o presidente e a comunidade evangélica.

“A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Decisões radicais devem ser ratificadas por estudos científicos. Diante da controvérsia entres cientistas sobre quarentena total ou apenas dos idosos, o ideal era a prudência, o meio termo. Mas falou mais alto o oportunismo”, disse o deputado ao Estado. Segundo Feliciano, a disseminação do pânico foi feita por dois governadores com ambições presidenciais - João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ) -, além da mídia.

“O resto dos governadores foi sugado pelo medo. Mas graças à atuação firme do governo federal, em favor do respeito à Constituição, as coisas estão normalizando. No modelo Doria/Witzel voltaríamos à Idade Média e o desabastecimento já era uma realidade. Irresponsabilidade total. Agem como sociopatas”, afirmou o deputado. Ainda segundo ele, os serviços que devem obrigatoriamente continuar funcionando estão listados na MP e no decreto editados pelo presidente, entre eles a imprensa. “Sem a qual não existe democracia. Bolsonaro é um democrata, mas não fala a mesma linguagem de todos os que antecederam no cargo. Por isso, para sorte do brasileiro, o sistema o odeia”.

Essa posição é compartilhada pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Em sua conta no Facebook, o religioso orientou os fiéis para que não se preocupem com o coronavírus e atribuiu a tensão que o mundo vive com a doença a uma “tática de satanás” e ao trabalho da mídia.

O bispo Robson Rodovalho - presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, fundador da Igreja Sara Nossa Terra e apoiador de Bolsonaro - respondeu às perguntas do Estado entre gravações de cultos online, filmados em um templo vazio. Ele defende que as igrejas possam permanecer abertas para receber indivíduos que buscam assistência espiritual, mas diz que os templos não farão cultos abertos ao público. “Acho que as igrejas deviam ser pontos de apoio. Lá, a pessoa vai encontrar um apoio terapêutico, sob certas condições de distância, de usar máscara. A porta da Igreja aberta para esse tipo de tratamento. Esses casos emocionais, a igreja pode ajudar bastante”, argumentou.

Mesmo afirmando a necessidade de se preocupar com o coronavírus e aplaudindo a primeira semana de quarentena enquanto se acompanhava a chegada da doença, ele acredita que há casos de governos estaduais que não precisavam ter se restringido tanto. “Acho que foi uma coisa muito abrupta, uma reação mais emocional que lógica”, disse. “Acredito que a crise do coronavírus está sendo totalmente politizada. Ao invés de focar nas soluções, nos auxílios, o pessoal está querendo fazer abaixo-assinado para tirar o presidente, isso mostra uma oposição que não tem razoabilidade”, respondeu.

Empresários citam prejuízos

A maioria dos empresários alinhados politicamente com Bolsonaro atua no setor serviços, donos de redes de academias, restaurantes e lojas de departamento. Trata-se justamente de um dos setores mais prejudicados pelo isolamento social. O dono da rede de lanchonetes Madero, Junior Durski, disse nas redes sociais ser “totalmente contra” o que chamou de lockdown (bloqueio, em inglês). “As consequências econômicas no futuro serão muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora com coronavírus”. Em outro trecho, foi além. “Não podemos, (parar) por conta de cinco ou sete mil pessoas que vão morrer”. Na quarta-feira, 1, a rede  demitiu mais de 600 funcionários.

Alexandre Guerra, sócio da rede de restaurantes Giraffas, também criticou as medidas de combate ao coronavírus e viu seu negócio ser alvo de uma campanha de boicote na internet. Segundo a Coluna do Estadão, o empresário Gabriel Kanner, presidente do grupo Brasil 200, simpático a Jair Bolsonaro, defendeu que o isolamento dure apenas mais uma semana, no máximo, contrariando o que diz a OMS.

“No caso de Santa Catarina (que flexibilizou medidas restritivas), me parece que a pressão veio do setor empresarial. É um segmento que não é homogêneo mas cuja a questão é mais a atividade econômica”, lembrou o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV. “São grupos que geralmente são varejistas e que não atuam muito no campo do delivery e obviamente dependem do fluxo de pessoas para sobreviver”, afirmou. “Querem a defesa do fim do isolamento social. E, obviamente, a mobilização desse grupo se torna mais forte quando o presidente vira porta-voz dessa ideia, contrariando inclusive o próprio governo.”

Ala ideológica prega lealdade

A ala ideológica do governo, liderada pelo vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos), tem falado alto em decisões do Palácio do Planalto diante da pandemia. Essa vertente, que segue Olavo de Carvalho, é quem alimenta a narrativas dos grupos bolsonaristas que atuam nas redes sociais. 

Em suas contas nas redes sociais, Olavo chegou a inclusive negar que o coronavírus tivesse causado mortes, em um vídeo que foi depois removido pela plataforma YouTube. “Dessa suposta epidemia, não aumentou em um único caso o número habitual de mortos por gripe no mundo. Isso é a mesma coisa que dizer: ‘Olha, essa endemia, ela simplesmente não existe’”, disse.

No Brasil são contabilizadas oficialmente 241 mortes por coronavírus, segundo boletim do Ministério da Saúde divulgado na tarde de quarta-feira, 1.

Essa engrenagem também alimenta os bolsonaristas do segundo escalão que defendem o fim do isolamento como forma de demonstrar lealdade a Bolsonaro. No Twitter, o subprocurador Ailton Benedito, da secretaria de Direitos Humanos da Procuradoria Geral da República, questionou a morte de uma senhora de 66 anos em Goiás. “Muito triste a morte dessa senhora. Que Deus conforte a família. Aos 66 anos, hipertensa, com diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica, teve dengue recentemente, foi o #CoronaVírus que a matou?”, postou Benedito. 

O presidente da Fundação Palmares, Sergio Camargo, também já criticou no Twitter o isolamento. "Confinaram 99% para combater um vírus que mata 1% dos infectados. O isolamento, exceto para que os representam grupo de risco, precisa ser imediatamente suspenso".

O Sargento Anilo, um dos líderes do Movimento Direita Conservadora, que foi às ruas em protesto pró-Bolsonaro no dia 15 de março, também questiona a necessidade de se seguir em quarentena e crê que há instrumentalização da crise para derrubar o governo. “Tivemos 30 anos turbulentos (na política nacional) e, agora que nós estávamos começando a seguir em frente, os governadores querem se aproveitar da chegada do coronavírus para tentar derrubar o presidente Bolsonaro”, afirmou.

O Grupo de Resposta à Covid-19 do Imperial College de Londres - que tem feito projeções matemáticas do crescimento da pandemia quase em tempo real - publicou na quinta-feira, 27, um estudo segundo o qual ao menos 44 mil brasileiros devem morrer em decorrência da covid-19 caso o isolamento for ampliado com urgência. Se apenas os idosos ficarem sem sair de casa, o número de mortes subiria para mais de 529 mil. 

As pesquisas dessa instituição incentivaram Boris Johnson, no Reino Unido, e Donald Trump, nos EUA, a adotar medidas mais severas de isolamento na semana passada.

Correções
02/04/2020 | 17h42

Texto atualizado às 17h42 para corrigir informação sobre o partido do Pastor Marco Feliciano.

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