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Reprodução/Facebook Nise Yamaguchi
Reprodução/Facebook Nise Yamaguchi

Quem é Nise Yamaguchi? Conheça a médica que depõe na CPI sobre ‘gabinete paralelo’

Senadores questionam depoente sobre a tese de que Bolsonaro tinha estrutura de especialistas fora do Ministério da Saúde

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 05h00

Defensora da prescrição de cloroquina para pacientes com covid-19, a oncologista e imunologista Nise Yamaguchi é  questionada, nesta terça-feira, dia 1º, na CPI da Covid, sobre a existência de uma espécie de “gabinete paralelo” no comando das ações de enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

Com extenso currículo no campo da oncologia clínica, a médica surpreendeu colegas, há pouco mais de um ano, com sua postura pró-cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra o coronavírus, capaz de provocar efeitos colaterais adversos. Próxima de Jair Bolsonaro, ela chegou a ser cotada para assumir o Ministério da Saúde. O presidente é um entusiasta do chamado tratamento precoce com o uso do remédio, indicado para malária e amebíase, entre outras doenças.

Curriculo de Nise Yamaguchi

Formada em Medicina pela Universidade de São Paulo em 1982, ela completou a residência em em Imunologia no Hospital das Clínicas em 1988 e depois realizou diversos cursos no exterior que lhe conferiram um viés humanista nos atendimentos, característica pela qual é conhecida. Ela não possui especialização em infectologia.

“A dra. Nise não foi chamada como especialista, mas como testemunha, uma vez que ela tem participação em diversas reuniões daquilo que está sendo chamado de ‘gabinete paralelo’ da Saúde. Inclusive reuniões com a presença do próprio presidente”, afirmou o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) ao Estadão. “Ela pode reportar como essas reuniões transcorriam, quais eram os temas, quem organizava e eventualmente financiava esses encontros”, acrescentou.

O depoimento de Nise foi requerido pelos senadores Marcos Rogério (DEM-RO) e Eduardo Girão (Podemos-CE), aliados do governo, e tornou-se inevitável especialmente depois que ela foi mencionada pelo diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, na sessão da CPI do último dia 11. Segundo ele, Nise defendeu a alteração da bula da cloroquina, de modo a indicar o medicamento como tratamento para covid-19. A mudança seria feita por decreto presidencial, mas Barra Torres se negou a acatar a demanda que contrariava as normas da Anvisa.

A bula da cloroquina

Atualmente, a bula da cloroquina cita que o remédio é indicado para caso “agudo de malária”, amebíase hepática, artrite reumatoide, lúpus, sarcoidose e doenças que provocam sensibilidade dos olhos à luz.

Barra Torres havia corroborado o depoimento do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta segundo o qual, havia – em uma reunião realizada no início da pandemia no Palácio do Planalto – um papel não timbrado de decreto presidencial que propunha a alteração da bula. “Esse documento foi comentado pela dra. Nise Yamaguchi, o que provocou uma reação confesso que até deseducada ou deselegante minha. Minha reação foi muito imediata de dizer que aquilo não poderia ser. Talvez não seja de conhecimento de vossas excelências: só quem pode modificar uma bula de um medicamento registrado é a agência reguladora daquele país, mas desde que solicitado pelo detentor do registro”, afirmou o diretor-presidente da Anvisa. Ele disse ainda que o laboratório que fabrica o remédio deve anexar um pesado dossiê de estudos comprovando que a substância em questão tem uma outra utilização além da originalmente conhecida, para que a agência autorize uma mudança de bula.

Após o depoimento de Barra Torres, Nise emitiu uma nota na qual afirmou que a fala do presidente da Anvisa “não representa a realidade”. “Já existem evidências científicas comprovadas para o uso de medicações que possam auxiliar no combate às fases iniciais da covid-19 e, caso seja convocada, estarei à disposição da CPI para esclarecimentos”, escreveu na ocasião.

Em abril do ano passado, quando a médica passou a defender a cloroquina, ainda não havia evidências definitivas sobre a eficácia da droga, apenas a ausência de provas de que ela funcionava para pacientes com covid-19. Atualmente, porém, os medicamentos do chamado “tratamento precoce” tiveram a sua ineficácia comprovada, de acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

A Organização Mundial da Saúde (OSM) também emitiu nota em março alertando que “evidências de alta certeza” – ou seja, que dificilmente mudarão em novos estudos rigorosos – apontam que a hidroxicloroquina “não teve efeito significativo sobre a morte e admissão no hospital”. As pesquisas envolveram a participação de milhares de pessoas.

Vieira classificou a discussão sobre cloroquina como um “desvirtuamento do debate”, afirmando que existe uma tentativa de confundir o tema da autonomia do médico com o que é política pública. “A CPI não está questionando a autonomia do médico. Está questionando a política pública sobre fatos que não tem lastro em evidência científica. E apesar da crença ideológica da dra. Nise, ela certamente vai reconhecer que existe uma hierarquia nas evidências científicas, existem estudos de vários níveis de qualidade e confiabilidade. E quando você tem acesso a um estudo de um nível maior de confiabilidade, você deixa de utilizar os de menor confiabilidade. Essas pessoas (defensoras de cloroquina), não. A gente solicitou e recebeu uma revisão completa de mais de 2.800 estudos do mundo inteiro, encontramos 14 estudos de alta confiabilidade tratando sobre o tema da hidroxicloroquina e todos eles reprovam o uso, não encontram nenhum benefício e apontam alguns riscos à saúde”, afirmou o senador.

Ele reiterou que a investigação da CPI não é colocar em questão a autonomia dos médicos de individualmente receitarem cloroquina, mas na decisão do governo federal de deixar de comprar vacinas e investir no medicamento sem eficácia comprovada. A pedido do Planalto, laboratórios das Forças Armadas produziram e distribuíram milhões de comprimidos de cloroquina pelo Brasil. Na CPI, um executivo da Pfizer afirmou que a gestão Bolsonaro ignorou ofertas de doses de vacinas.

Ao defender o uso de cloroquina para tratar covid-19, Nise disse reiteradas vezes que se tratava de uma droga segura.

“Pesquisas estão de fato atestando que não funciona. Quando a gente fala isso, não estamos comemorando”, afirmou ao Estadão o médico infectologista Jamal Suleiman, do Hospital Emílio Ribas. “Não faz sentido você usar uma droga que não tem nenhuma ação contra a doença que você está querendo atingir. Esse tipo de abordagem cria a falsa sensação de segurança”, afirmou, sobre o prejuízo que a desinformação sobre tratamentos inexistentes trás às ações preventivas. Suleiman também mencionou que algumas drogas do chamado “tratamento precoce” podem trazer efeitos adversos.

Em abril de 2020, a dra. Nise foi convidada por Bolsonaro para integrar o gabinete de crise de combate ao coronavírus. O convite foi feito em uma reunião da qual participaram alguns ministros e o deputado federal Osmar Terra – ex-ministro e autor de previsões otimistas e que não se concretizaram sobre a duração da pandemia. Na época, oncologista deu declarações à imprensa confirmando que o seu papel era reunir toda a produção científica sobre a cloroquina para liderar um processo de flexibilização da legislação sobre a substância. Desde aquela época, ela afirmava que a finalidade era permitir que médicos tivessem a liberdade de prescrever o medicamento para covid-19.

A especialista também foi cotada para assumir o Ministério da Saúde em duas ocasiões: na saída de Nelson Teich, em maio de 2020, e na saída de Mandetta, um mês antes. Apesar disso, o convite não chegou a ser formulado por Bolsonaro e o ministério acabou ficando com o general Eduardo Pazuello entre maio do ano passado e março deste ano. Depois, ele foi substituído pelo atual titular da Saúde, Marcelo Queiroga.

Ainda em meados do ano passado, Nise voltou a ser citada pela imprensa ao alegar, em entrevista ao jornalista Roberto Cabrini, do canal SBT, ter sido afastada do Hospital Israelita Albert Einstein em função da sua defesa da hidroxicloroquina. “Recebi uma ligação hoje do diretor clínico do hospital de que, a partir deste momento, não poderia estar mais atendendo pacientes”, disse na ocasião, afirmando que a direção do hospital avaliava que a sua atuação em prol do suposto tratamento precoce afetava a instituição negativamente.

A informação foi negada pelo Albert Einstein, que divulgou uma nota segundo a qual a médica foi afastada em função de uma declaração infeliz a respeito das vítimas do holocausto na qual ela se referiu aos judeus como “massa de rebanho”. “O hospital respeita a autonomia inerente ao exercício profissional de todos os médicos”, informou a nota. “A Dra. Nise Yamagushi, em entrevista recente, estabeleceu analogia infeliz e infundada entre o pânico provocado pela pandemia e a postura de vítimas do holocausto ao declarar que ‘você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquela massa de rebanho de judeus famintos se não os submetessem diariamente a humilhações, humilhações, humilhações…’”.

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