Joédson Alves/EFE
Joédson Alves/EFE

Sem Mandetta, Bolsonaro faz reunião com Terra e Nise Yamaguchi, médica elogiada por bolsonaristas

Presidente exclui ministro da Saúde de reunião que discute o uso da cloroquina em pacientes contaminados pelo novo coronavírus

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 17h42
Atualizado 11 de abril de 2020 | 18h42

BRASÍLIA – Com uma relação conflituosa com seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o presidente Jair Bolsonaro excluiu o auxiliar novamente de uma reunião para discutir o uso da cloroquina em pacientes contaminados pelo novo coronavírus. No encontro, um almoço no Palácio do Planalto, estavam dois dos cotados para assumir a pasta em caso de demissão de Mandetta, o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), ex-ministro da Cidadania, e a médica imunologista Nise Yamaguchi, que tem sido elogiada por bolsonaristas nas redes sociais pela defesa do tratamento precoce com o medicamento. À noite, o ministro confirmou que fica no cargo, mas pediu paz para trabalhar.

O uso da substância, indicada para casos de malária, é uma das controvérsias entre Bolsonaro e Mandetta. O presidente é um entusiasta da cloroquina, que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. O ministro, por sua vez, tem pedido cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus. Também estava presentes cinco ministros

Convidada especial do almoço, Dra. Nise, como é conhecida, sugeriu a Bolsonaro a adoção do tratamento precoce com cloroquina em todo o Brasil e relatou experiências exitosas de uso do medicamento contra a covid-19.  Após o almoço, a médica confirmou ao Estado, por meio da assessoria, que foi convidada para integrar o gabinete de crise do Palácio do Planalto criado para monitorar o avanço do novo coronavírus no Brasil. Ela disse que ainda avalia se aceitará a função. 

De acordo com os relatos, o presidente se mostrou animado com o que ouviu e marcou uma nova reunião para o fim da tarde com representantes do Ministério da Saúde, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de especialistas da área, para discutir o uso de cloroquina no início dos primeiros sintomas da doença.

O almoço desta segunda-feira, 6, foi a segunda vez em que Bolsonaro se reúne com representantes da área médica para tratar sobre a cloroquina e deixa Mandetta de fora. Na semana passada também havia feito o mesmo, reunindo-se com médicos, mas sem convidar o ministro. Questionado na ocasião, Mandetta disse que “só trabalho com a ciência”. “Existem pessoas que trabalham com critérios políticos, que são importantes também, deixem que eles trabalhem”, disse.

Segundo pessoas que participaram do encontro desta segunda, a saída de Mandetta não foi discutida durante o almoço. Um ministro disse ao Estado que, pelo menos por enquanto, o presidente não pretende demitir o titular da Saúde, apesar das discordância em relação à melhor estratégia de enfrentamento ao vírus. Segundo este ministro, no entanto, é preciso que Mandetta “não dê motivos”. O presidente tem criticado o que chamou de “falta de humildade” do titular da Saúde na condução da crise.

Quem é Nise Yamaguchi

Nise Yamaguchi tem 40 anos dedicados à medicina, é imunologista e cancerologista de renome internacional, com participação em sociedades científicas na Europa e nos Estados Unidos. Médica do Hospital Israelita Albert Einstein, Nise esteve na linha de frente em diversas batalhas pela saúde no Brasil e no mundo, ao trabalhar com pacientes de aids desde o surgimento dos primeiros casos da doença no Brasil.

A médica defende o chamado isolamento vertical – em que apenas os grupos de risco, como idosos e pessoas com alguma doença pré-existente – ficariam em casa, enquanto jovens voltariam ao trabalho e ir para a escola. A estratégia, que permitiria a retomada de parte da atividade econômica no País, também é defendida por Bolsonaro.

Em entrevista recente a um portal de notícias, a médica disse que “com base em estudos clínicos realizados recentemente na França e em outros países, decidiu-se adotar um tratamento preventivo com essa população, oferecendo hidroxicloroquina nos primeiros dias da infecção” e que, “imediatamente percebeu-se que isso diminuía muito o risco do agravamento da doença”.

A imunologista disse na reunião com o presidente estar empenhada em replicar esse modelo no Brasil, adotando o uso da cloroquina em larga escala, para todas as pessoas que apresentarem os primeiros sintomas da doença. Estas pessoas receberiam o medicamento em casa.

A médica argumenta que a hidroxicloroquina, em associação com o antibiótico azitromicina, atua fortalecendo as células humanas e diminuindo a capacidade de replicação do vírus. Se aplicado até o 4.º dia de aparecimento dos sintomas, esse tratamento diminui exponencialmente o risco de internação e a necessidade de uso do respirador. /COLABORARAM JUSSARA SOARES E JULIA LINDNER

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