Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Pivô de crise com militares, Omar Aziz foi listado como ‘subversivo' na ditadura

Aziz militou no movimento estudantil, nas Diretas Já e era um dos responsáveis pela propaganda política do PCdoB, segundo papéis do Serviço Nacional de Informações, órgão de espionagem da repressão

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2021 | 09h06
Atualizado 12 de julho de 2021 | 11h18

BRASÍLIA  - O Palestino. Esse era o codinome do pivô da mais recente crise entre as Forças Armadas e o Congresso, o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM). O senador e ex-governador do Amazonas foi monitorado pela ditadura militar e listado como elemento subversivo, em relatórios de inteligência do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de espionagem da repressão. Aziz militou no movimento estudantil, nas campanhas pelas Diretas Já e era um dos responsáveis pela propaganda política do PCdoB, segundo papéis da ditadura.

O apelido “O Palestino” deriva das raízes familiares. O pai do senador, Muhammad Abdel Aziz, era imigrante palestino. A mãe, Delphina Rinaldi Abdel Aziz, brasileira. Ele nasceu em Garça (SP) e viveu parte da infância no Peru - por isso as citações durante sessões da CPI a expressões em espanhol comuns no país andino.

Em entrevista à Rádio Eldorado na manhã desta segunda, Aziz afirmou que não tinha conhecimento dos registros do SNI. Ouça aqui. "Eu não sabia nem que o meu codinome era 'O Palestino'. Eu era militante, lutei pela democratização, fui preso, apanhei. Fui jovem, lutei realmente e não me arrependo."

Na última quarta-feira, dia 7, o senador criticou na CPI oficiais militares suspeitos de envolvimento em atos de corrupção, os quais chamou de “lado podre” das Forças Armadas.  “Fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo. Aliás, eu não tenho nem notícia disso na época da exceção que houve no Brasil, porque o Figueiredo morreu pobre, porque o Geisel morreu pobre, porque a gente conhecia... E eu estava, naquele momento, do outro lado, contra eles. Uma coisa de que a gente não os acusava era de corrupção, mas, agora, Força Aérea Brasileira, coronel Guerra, coronel Elcio, general Pazuello e haja envolvimento de militares das Forças Armadas”, afirmou Aziz.

Houve pronta reação dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Eles divulgaram nota oficial contra Aziz, assinada também pelo ministro da Defesa, dizendo que “não aceitarão qualquer ataque leviano às Instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”. Para os senadores, houve uma tentativa de intimidação e ameaça ao parlamentar.

O ministro Walter Souza Braga Netto e o general de Exército Paulo Sergio Nogueira de Oliveira telefonaram ao presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para distensionar o que consideraram um “mal entendido”. Mas a operação não foi completa. No dia seguinte, o jornal O Globo publicou declarações do brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, da Força Aérea Brasileira, com reparos à condução da CPI e a Aziz, em linha com o pensamento do presidente Jair Bolsonaro.

Aziz disse no plenário do Senado que atuou em prol da liberdade de expressão e prerrogativas parlamentares, contra as exceções do regime militar. “A minha vida sempre foi de luta, e nunca foi fácil para mim, não. Aliás, muitos que estão aqui, hoje, alguns, nas décadas de 70 e 80, estavam lutando para que a gente pudesse estar aqui hoje, falando o que quer – e eu era um desses”, disse Aziz.

O Estadão foi atrás dos detalhes nos dossiês. Parte deles estão registrados em arquivos do antigo SNI, criado em 1964, no governo do general Castello Branco, e chefiado inicialmente pelo general Golbery do Couto e Silva. Mas também há informações registradas pelo Departamento de Inteligência e Secretaria de Assuntos Estratégicos, pós-1985. Até mesmo a posse dele como vereador em Manaus (AM), pelo PDC, em 1989, foi registrada, além de atividades em outros cargos na administração pública do Amazonas e reuniões com chineses, já nos anos 1990.

O código B2367373 identifica Omar Aziz no cadastro de militantes de partidos políticos do SNI. A maior parte das informações são atividades estudantis de contestação ao regime militar. Os dossiês registram a preocupação constante em identificar o financiamento de atividades clandestinas e elos políticos.

Em 1983, por exemplo, o Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA) registrava que Aziz viajou de avião na delegação amazonense ao Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em São Bernardo do Campo (SP), no ABC paulista. “A maioria das passagens amazonenses, foram adquiridas a prazo; o restante foi conseguido através da influência de alguns elementos, ou compradas pelo próprio estudante de situação financeira privilegiada, como foi o caso do militante OMAR JOSÉ ABDEL AZIZ que, além de adquirir a sua, obteve de fontes ainda não identificadas um total de 10 (dez) passagens”, apontam os militares da Base Aérea de Manaus. Havia suspeita de vínculos do grupo com o então governador Gilberto Mestrinho (PMDB).

Aziz foi filiado e membro do diretório regional do PMDB e diretor do Diretório Central dos Estudantes na Universidade do Amazonas (DCE-UA). Num informe confidencial, o senador Aziz aparece como um dos “elementos” da União da Juventude Socialista (UJS) do Amazonas que integraram a delegação do Estado no 36º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em outubro de 1984, no Rio.

Viajaram com Aziz nomes que seriam seus colaboradores anos depois, como Manoel Paulino da Costa Filho, seu assessor no governo do Amazonas, Durango Martins Duarte, marqueteiro que ajudaria na primeira campanha eleitoral, George Tasso Lucena Sampaio Calado, que foi secretário no governo do Estado, e Edson dos Anjos Ramos, médico e diretor de hospitais do Estado. Esse grupo integrava a chapa “Avançar” que venceu em 1983 a eleição para o diretório universitário. Aziz, estudante da Engenharia Civil, seria eleito diretor de Assuntos Estudantis. A chapa derrotada era a “União”, acusada de ser centrista e ligada ao PDS, partido do regime, sucessor da Arena.

Em uma ordem de busca a agentes da Polícia Federal, em 1982, o SNI descobriu até mesmo o voo em que Aziz viajaria para participar de outro congresso da UNE, em Piracicaba (SP). Agentes secretos foram destacados para se infiltrar em reunião preparatória na Faculdade de Ciências Sociais, da Universidade do Amazonas. O objetivo era fichar a delegação e as proposições que eles fariam em São Paulo. Integrantes da Libelu, no Acre, também foram monitorados. Além de Aziz, aparece na lista a ex-senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB), então diretora de Assuntos Estudantis do diretório universitário. Outro nome frequente nas listas é o atual deputado federal Eron Bezerra (PCdoB-AM).

Eles apoiavam a “luta contra a política de recessão” do Ministério da Educação (MEC) e “aumentos extorsivos'', além da “derrota do governo” nas eleições daquele ano, registraram os agentes a serviço do SNI. A chapa “Viração”, apoiada por Aziz, era contra a partidarização da UNE por filiados ao PT. Em que pese serem contra o PDS, políticos do partido doaram passagens aéreas e quantia em dinheiro para financiar o deslocamento dos estudantes, entre eles o ex-senador Raimundo Parente. “O povo brasileiro não aguenta mais tanta repressão e entreguismo”, diz um trecho de manifesto do grupo contra o governo do general João Batista Figueiredo. Em 1984, o movimento “Juventude Viração” teria como um dos idealizadores e líderes nacionais Aldo Rebelo, ex-ministro da Defesa e ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Em 1983, agentes do SNI flagraram Aziz na sede do jornal Tribuna da Luta Operária, numa palestra do deputado estadual João Pedro Gonçalves da Costa (PMDB), que pregava a formação de um governo provisório. Ele também aparece como um dos líderes que discursou em protesto, em 20 de setembro daquele ano, na Praça da Matriz, em Manaus, contra o reajuste das tarifas de ônibus pela prefeitura, usando, na classificação dos agentes, “tradicional retórica contestatória ao regime”. A agência de Manaus do SNI registrava, naquele momento, um “recrudescimento do processo subversivo”.

Aziz também aparece, em 1986, fichado numa tabela que listava as “organizações de frente” dedicadas à doutrinação ideológica socialista, ligadas ao PCB e PCdoB. O atual senador seria responsável pela impressão de material de propaganda para divulgação em Manaus e no interior do Amazonas. Era atribuída a ele a direção da empresa Ajuricaba Publicidade LTDA.

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