PF investiga se Aécio 'interferiu' com delegado em inquérito ligado à Cidade Administrativa

Grampo revela conversa de senador com diretor-geral da corporação

Isadora Peron e Breno Pires, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2017 | 16h03

BRASÍLIA - Grampos da Operação Patmos revelam que o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) marcou um encontro com o diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, teoricamente para falar sobre a reforma da Previdência e, em seguida, buscou informações sobre quem seria o delegado que conduziria um inquérito aberto contra ele para investigar se houve irregularidades durante a construção da Cidade Administrativa, em Belo Horizonte, quando o tucano era governador de Minas.

Relatório elaborado pela PF diz que a investigação aberta contra o senador no Supremo Tribunal Federal (STF) após a delação dos empresários do grupo J&F tem também o objetivo de esclarecer se houve, por parte de Aécio, "interesse em interferir na distribuição ou mesmo na condução de inquéritos no âmbito da Polícia Federal".

Segundo a PF, os grampos "trazem uma sequência de ligações nas quais o senador Aécio Neves a pretexto de tratar de assuntos da Previdência solicita uma reunião com o diretor-Geral da Polícia Federal, Leandro Daiello" e "ato contínuo à confirmação da reunião, o senador realiza uma série de ligações, descritas no auto, a fim de saber se o inquérito de número 4392 do STF jà se encontrava na Polícia Federal e se já havia sido distribuído a alguma autoridade policial". As ligações foram interceptadas no dia 8 de maio.

Em uma dos telefonemas, o senador pediu para um assessor chamado "Rodrigo" informações sobre o inquérito e é informado que o procedimento já estaria na Polícia Federal, porém sem distribuição. "Senador, só para complementar a informação que eu passei agora há pouco para o senhor, o (inquérito) quatro três nove dois (4392) ainda não foi distribuído, tá ok? Ele chegou lá, mas não tem distribuição ainda, acabei de confirmar", disse Rodrigo ao senador.

Em seguida, após agendar a reunião com o diretor-geral da Polícia Federal e levantar informações da distribuição do inquérito, o senador teria solicitado o nome de um delegado que havia sido indicado a seu chefe de gabinete, Flávio José Barbosa de Alencastro. 

Segundo a PF, no entanto, não foi possível confirmar por meio de chamadas posteriores se a intenção Aécio era realmente o de indicar algum nome para a condução do inquérito que responde na Polícia Federal, "ainda que os sinais e circunstâncias sinalizem neste sentido".

Ainda de acordo com o relatório, o inquérito sobre a construção da Cidade Administrativa chegou a PF no dia 5 de maio e "foi distribuído a um de seus delegados lotados, sem que tenha ocorrido mudança posterior da autoridade responsável".

Como mostrou o Estado nesta terça-feira, 30, outro grampo da Operação Patmos mostra Aécio tentando pressionar Daiello para ter acesso a depoimentos que o implicam em outras investigações. Nessa conversa, o tucano reclama de um delegado federal que "se negou a entregar" cópia de documento à defesa dele referente ao inquérito Furnas.

Em nota, a defesa de Aécio afirmou considerar "inaceitável qualquer entendimento de que o senador tenha buscado qualquer tipo de entendimento indevido com o diretor-geral da PF, que não o cumprimento de uma agenda natural de trabalho visto o debate em curso no Congresso sobre a reforma da Previdência. Ilações a esse respeito buscam unicamente gerar um falso fato". 

A assessoria de imprensa da PF não retornou o pedido feito pela reportagem para confirmar se houve realmente o encontro entre Aécio e Daiello no dia 8 de maio.

Leia uma conversa interceptada entre Aécio e Daiello, no dia 8 de maio:

AÉCIO NEVES: Deixa eu te falar o seguinte, Leandro. É uma coisa multo muito rápida. Eu precisava ver se você consegui (sic) me dar cinco minutos hoje.

LEANDRO DAIELLO: Opa.

AÉCIO NEVES: Chegou uma emenda pra mim aqui sobre a questão da Previdência que acho que impacta em vocês. Eu preciso saber qual que é tua visão em relação a isso. Será que...

LEANDRO DAIELLO: Senador a hora que o senhor quiser... eu tenho ... deixa eu ver uma coisa.

AÉCIO NEVES: Vê aí... vê aí... Tranquilo

LEANDRO DAIELLO: Tenho Ministro da Justiça às dezoito horas e ...

AÉCIO NEVES: Mais cedo... mais cedo pode ser? Que horas você está ai? Cinco minutos.

LEANDRO DAIELLO: Tenho... às quinze hora tenho o pessoal da segurança  da Caixa, depois é tudo agenda interna e às dezoito, ministro. Hoje...

AÉCIO NEVES: Que horas?

LEANDRO DAIELLO: Tá a manhã libre e na tarde não sendo...

AÉCIO NEVES: No final da manhã você estaria aí? Tipo...

LEANDRO DAIELLO: Tô lhe esperando.

AÉCIO NEVES: Então onze e meia eu passo ai, pode ser? Que eu tô...

LEANDRO DAIELLO:  Tranquilo, eu já vou pedir para liberarem a garagem aqui.

AÉCIO NEVES: Grande abraço, obrigado. Onze e meia...

LEANDRO DAIELLO: Abraço. que isso.

AÉCIO NEVES: Coisa de cinco minutos. Um abraço.

LEANDRO DAIELLO:  Opa. 

 

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