Grampo mostra Aécio pressionando cúpula da PF para ter acesso a inquérito Furnas

Grampo mostra Aécio pressionando cúpula da PF para ter acesso a inquérito Furnas

Tucano, que é alvo de 6 inquéritos no Supremo, queixou-se ao diretor-geral da corporação, Leandro Daiello, de delegado federal que se recusou a entregar cópia de depoimentos para sua defesa

Luiz Vassallo e Julia Affonso

30 Maio 2017 | 13h39

Grampo da Operação Patmos revela que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) quis pressionar o diretor-geral da Polícia Federal para ter acesso a depoimentos que o implicam em investigações. Na conversa, o tucano reclama de um delegado federal que ‘se negou a entregar’ cópia de documento à defesa dele referente ao inquérito Furnas.

Aécio é investigado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da estatal mineira. No início de abril, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, autorizou a abertura de outros cinco inquéritos contra o tucano, todos com base na delação da Odebrecht.

Na iminência de ser interrogado no inquérito Furnas, Aécio recorreu ao ministro Gilmar Mendes – relator deste inquérito no Supremo – a quem pediu a suspensão da audiência na PF.


Demonstrando irritação com a dificuldade em obter depoimentos do caso Furnas junto à Polícia Federal, Aécio ligou para o chefe da corporação, delegado Leandro Daiello Coimbra, e pediu que marcasse um encontro a fim de tratar do tema que era de seu interesse.

OUÇA: PF intercepta ‘bronca’ de Aécio em Zezé Perrella

“Uma hora que você… que eu pudesse dar um pulo ai. Pelo seguinte, contudo é.. é.. na verdade…. pela Súmula 14 (do Supremo Tribunal Federal) que faculta a defesa ao acesso, né? Ao processo, aos autos, aos depoimentos, o delegado se negou a entregar à defesa, ontem, a cópia do depoimento que ele já tinha colhido, tá?”, queixou-se Aécio a Daiello.

Na data da ligação, 26 de abril, o senador afirma ao diretor-geral da PF que seu advogado, Alberto Zacharias Toron, estava a caminho da sede da corporação. Ele pediu a Daiello para ‘localizar’ Toron quando chegasse ao prédio da PF em Brasília.

A conversa de Aécio com Daiello foi gravada pela própria PF. O alvo do grampo era o senador, investigado na Operação Patmos, que mira também o presidente Michel Temer e o deputado Rocha Loures (PMDB/PR).

A íntegra da transcrição do diálogo do senador com o delegado foi anexada aos autos da investigação.

LEIA UM TRECHO
LEANDRO DAIELLO: Sim, conheço o Toron. É um bom advogado.
AÉCIO NEVES: Ele tá até aí (na sede da PF, em Brasília). Ele tá indo ai no meu lugar, porque o que aconteceu. Como ele (delegado) não quis nos dar acesso, uma coisa absolutamente absurda! Que mostra um pouco aquilo que já percebíamos. Nós fizemos uma reclamação no Supremo que obviamente concedeu o direito de que eu tenha acesso. ahhh…. aos demais depoimentos já colhidos.
LEANDRO DAIELLO: Tá.
AÉCIO: Já colhidos, que é natural que quando eu vá depor eu saiba, né? O que os outros já falaram. A coisa mais óbvia do mundo. E ele negou-se a isso, então… então o juiz relator éeeee…. pediu adiamento de pelo menos quarenta e oito horas. Terminou que ele entregue à defesa os depoimentos já recolhidos, então isso ficou adiado. Eu quero fazer ainda nessa semana. Eu quero fazer até sexta-feira. Agora…
LEANDRO DAIELLO: Eu vou fazer o seguinte senador. Dr. Toron tá vindo aqui?
AÉCIO: Deve tá chegando com o dr. (José Eduardo) Alckmin ai agora. Já deve estar ai.
LEANDRO DAIELLO: Eu converso com eles aqui e já resolvo e ai a gente vê e já remarca, pode ser?
AÉCIO: Pode … faça isso então! Localize ele ai.

Na Operação Patmos, Aécio é investigado por supostamente pedir a Joesley Batista, da JBS, R$ 2 milhões que foram entregues ao primo do tucano, Frederico Pacheco, o Fred. O primo transportou o montante a Mendherson Souza, assessor do senador Zeze Perrella (PSDB-MG). Todos os capítulos da transação foram filmados e gravados pela Polícia Federal, em ação controlada sobre delatores da JBS.
Na ligação ao diretor-geral da PF, Aécio se referia especificamente ao inquérito Furnas – não tinha noção que os agentes federais estavam no seu encalço, mas por outro motivo, corrupção no caso JBS.

LEIA A ÍNTEGRA DA TRANSCRIÇÃO DO DIÁLOGO DE AÉCIO COM O DIRETOR-GERAL DA POLÍCIA FEDERAL (26 DE ABRIL)

AÉCIO – Aló?
MNI – Dr. DAIELLO na linha. Tô passando.
LEANDRO DAIELLO – Alóoo?
AÉCIO – Dr. LEANDRO, tudo bem?
LEANDRO DAIELLO – Bom dia! Como está senador?
AÉCIO – Você vai ter que mudar esse cafezinho nosso pra…
LEANDRO DAIELLO – Opa!!
AÉCIO – Você teve notícias de ontem? Tentei até lhe falar à noite.
LEANDRO DAIELLO – Tô ouvindo. Tô ouvindo.
AÉCIO – Você teve notícias do que ocorreu ontem? ou não?
LEANDRO DAIELLO – Não.
AÉCIO – Depois você tinha que arranjar um horário de uns quinze minutos, pra… pra eu dizer lhe falar pessoalmente.
LEANDRO DAIELLO – Eu estou à sua disposição aqui.
AÉCIO – Uma hora que você… que eu pudesse dar um pulo ai. Pelo seguinte, contudo é.. é.. na verdade…. pela Súmula 14 que faculta a defesa ao acesso, né? Ao processo, aos autos, aos depoimentos, o delegado se negou a entregar a defesa, ontem, a cópia do depoimento que ele já tinha colhido, tá?
LEANDRO DAIELLO – Tá.
AÉCIO – Mas é uma coisa que afronta a lei, inclusive. Você essa súmula que determina que a defesa tenha acesso, né? Aos demais depoimentos, aos autos do processo, enfim… e o Toron que é o meu advogado que te conhece.
LEANDRO DAIELLO – Sim, conheço o Toron. É um bom advogado.
AÉCIO – Ele tá até ai. Ele tá indo ai no meu lugar, porque o que aconteceu. Como ele (delegado) não quis nos dar acesso, uma coisa absolutamente absurda! Que mostra um pouco aquilo que já percebíamos. Nós fizemos uma reclamação no Supremo que obviamente concedeu o direito de que eu tenha acesso. ahhh…. aos demais depoimentos já colhidos.
LEANDRO DAIELLO – Tá.
AÉCIO – Já colhidos, que é natural que quando eu vá depor eu saiba, né? O que os outros já falaram. A coisa mais óbvia do mundo. E ele negou-se a isso, então… então o juiz relator éeeee…. pediu adiamento de pelo menos de quarenta e oito horas. Terminou que ele entregue a defesa os depoimentos já recolhidos, então isso ficou adiado. Eu quero fazer ainda nessa semana. Eu quero fazer até sexta-feira. Agora…
LEANDRO DAIELLO – Eu vou fazer o seguinte senador. Dr. Toron tá vindo aqui?
AÉCIO – Deve tá chegando com o dr. Alckmin ai agora. Já deve estar ai.
LEANDRO DAIELLO – Eu converso com eles aqui e já resolvo e ai a gente vê e já remarca, pode ser?
AÉCIO – Pode … faça isso então! Localize ele ai.
LEANDRO DAIELLO – Então eu já… já vou…. O dr. Toron já é membro desde São Paulo.
AÉCIO – É isso, ele me falou muito bem éeee…. do senhor lá, até por em razão do que está por vir ainda, entendeu? Depois… Depois me concede uma audiência para nós falarmos de Previdência por uns vinte minutos… Veja aí com a sua agenda.
LEANDRO DAIELLO – O senhor manda senador. Só me fala o horário.
AÉCIO – Me fala o horário para que eu possa dar um pulo de vinte minutos ai.
LEANDRO DAIELLO – Eu falo. O senhor só me diga o dia e horário e eu vou dar um jeito de lhe atender.
AÉCIO – Me atenda ai hoje no meio da tarde. Pode ser?
LEANDRO DAIELLO – No meio da tarde. O senhor só me liga e eu vou abrir a agenda e ficar o dia inteiro lhe esperando.
AÉCIO – Me fale.. me fale o horário ai que é quinze minutos sobre coisa da Previdência. Que horário?
LEANDRO DAIELLO – A hora que o senhor quiser.
AÉCIO – Quatro horas, pode ser bom?
LEANDRO DAIELLO – Quatro horas tá combinado.
AÉCIO – Eu vou quatro no teu gabinete quatro horas hoje. Um grande abraço.
LEANDRO DAIELLO – Tá… tá todo mundo aqui lhe esperando. Abraço.
AÉCIO – Abraço.

 

COM A PALAVRA, AÉCIO NEVES

Nota assessoria senador Aécio Neves

A assessoria do senador Aécio Neves informa que não houve qualquer tentativa dele de pressionar o diretor geral da PF, Leandro Daiello, em relação ao inquérito tratado. O senador tem certeza de que o diretor da PF não se sujeitaria a qualquer tipo de pressão. Além disso, a queixa feita – o não acesso aos autos do inquérito – já havia sido sanada por decisão do STF.

O senador considera que o diálogo mantido com o diretor da PF foi republicano e teve como único objetivo comunicar ao dr. Daiello o adiamento do depoimento, assegurado pelo Supremo tendo como base a aplicação da Súmula 14 que permite a qualquer cidadão acesso aos autos do inquérito do qual é parte. O depoimento foi remarcado e ocorreu poucos dias depois, quando todos os esclarecimentos foram prestados.

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