Reprodução/Youtube
Reprodução/Youtube

Pastor ‘desafia’ fiéis a assinarem apoio a partido de Bolsonaro, em meio a culto

Reverendo Emerson Patriota, da Igreja Presbiteriana Central de Londrina, usou o púlpito para pedir apoio a membros da congregação

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 16h34
Atualizado 29 de janeiro de 2020 | 16h38

BRASÍLIA - Entre louvores e orações, fiéis da Igreja Presbiteriana Central de Londrina, no Paraná, foram "desafiados" no último domingo, 26, a assinarem uma ficha de apoio à criação do Aliança pelo Brasil, partido idealizado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

O reverendo Emerson Patriota foi quem pediu, do púlpito, para os membros da congregação colocarem seus nomes na lista que será entregue à Justiça Eleitoral. Representantes de um cartório da cidade estavam no local para reconhecer as assinaturas.

Para tirar o Aliança do papel, Bolsonaro precisa de aproximadamente 492 mil assinaturas. O movimento na Presbiteriana de Londrina foi articulado pelo deputado Filipe Barros (PSL-PR), aliado do presidente e membro da igreja, com a direção da instituição. O parlamentar disse ao Estadão/Broadcast que "centenas" de assinaturas foram recolhidas no local. Do lado de fora, o grupo colocou um ônibus estampado com a marca do Aliança e as fotos de Jair Bolsonaro e Filipe Barros. 

Enquanto dava os avisos sobre as atividades da igreja no culto, o pastor anunciou a presença dos funcionários do cartório. "Nós estamos desafiando você, todos, a passarem lá, conhecerem o estatuto, os valores", disse o reverendo. "Na verdade, eu estava conversando com algumas pessoas e disseram que é mais difícil entrar nesse partido do que em algumas igrejas por aí. Tem que ter mais vida idônea do que algumas igrejas exigem. Isso é muito bom porque tem valores familiares." 

Como o Estado publicou em dezembro, aliados do presidente Jair Bolsonaro apostam em igrejas evangélicas, entidades de classe de policiais militares, Exército e bombeiros para viabilizar o Aliança pelo Brasil. A ideia é aproveitar a aglomeração de pessoas nestes locais para atingir o número de assinaturas exigidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

O Aliança precisa ser homologado até 4 de abril para concorrer nas eleições municipais de 2020. Articuladores admitem que o partido pode não estar formalizado a tempo do pleito de outubro. O culto foi transmitido pelas redes sociais. No YouTube, internautas começaram a fazer comentários criticando a igreja. Nesta terça-feira, 28, o vídeo já não estava mais disponível. Procurada, a instituição ainda não se manifestou. 

Especialistas dizem que coletar assinaturas em igrejas para criar um partido político não é ilegal. A restrição só ocorre em período de campanha eleitoral, quando candidatos não podem pedir votos em locais classificadas como “bens públicos”. 

“Se não houver constrangimento para que as pessoas assinem, não há ilegalidade. Neste caso, está dentro do espaço da confissão e não há problema”, afirmou o ex-procurador regional eleitoral de São Paulo Luiz Carlos dos Santos Gonçalves.

Um integrante da cúpula da Procuradoria-Geral da República (PGR) ouvido reservadamente comentou que não simpatiza “com esse uso da liberdade", mas enfatizou que não há proibição legal.

“No Brasil, é plenamente possível que os movimentos religiosos, como grupo de interesse, se organizem e apoiem a criação de partidos políticos que reverberem sua pauta de interesses e valores”, afirmou a professora Maria Cláudia Bucchianeri, especialista em Direito Eleitoral do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP).

'Dever'

Ao Estadão/Broadcast, o deputado Filipe Barros disse que o movimento foi articulado com a direção da igreja e que outras instituições religiosas estão se mobilizando para reunir as assinaturas. Ele afirmou que o "busão do Aliança", como foi batizado, está percorrendo cidades do Paraná para mobilizar aliados e é bancado por apoiadores de Bolsonaro.

Entre os princípios elencados no estatuto do Aliança, estão os "valores culturais e religiosos dos brasileiros". "Dentro da doutrina da minha igreja, a gente considera que é um dever do cristão participar da vida pública, da vida política de um país", disse Filipe Barros. 

O parlamentar pontuou que não há impedimentos legais para a mobilização de apoio em igrejas. "A nossa Constituição prevê a livre associação. A igreja é uma instituição privada, não tem dinheiro público envolvido", afirmou. "É natural que as pessoas participem da criação de um partido político. Aliás, eu não vejo estardalhaço quando o Lula fala que o PT tem que se aproximar das igrejas evangélicas", comentou.

Outras igrejas

Além da Presbiteriana em Londrina, lideranças de outras igrejas evangélicas no País se mobilizam para ajudar Bolsonaro a oficializar o Aliança pelo Brasil. No último sábado, 25, aliados do presidente recolheram assinaturas na Assembleia Legislativa do Amazonas. O presidente da Assembleia de Deus no Estado, Jônatas Câmara, pediu que apoiadores fossem ao local para integrar a lista.

O pastor, que recebeu Bolsonaro em novembro para um culto em Manaus, é irmão do deputado Silas Câmara (Republicanos-AM), líder da bancada evangélica na Câmara. É também irmão do pastor Samuel Câmara, presidente da Assembleia de Deus no Pará e um dos maiores líderes da denominação evangélica no País.

O deputado Silas Câmara disse que o apoio ao Aliança pelo Brasil não é institucional, mas é feito pela movimentação de pastores e outros líderes simpáticos à nova sigla. "Dentro de igreja, esquece. Eles (os pastores) estão atentos a esses movimentos de direita organizados e participam indo lá", afirmou o deputado ao Broadcast Político. / COLABOROU RAFAEL MORAES MOURA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.