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Para Zuenir Ventura, fake news são tão nocivas quanto a censura da ditadura militar

Jornalista e escritor participou do 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji

Alessandra Monnerat e Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2018 | 19h57

Classificado pelos colegas como um “vampiro da juventude”, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, de 87 anos, falou sobre um dos assuntos mais atuais entre a imprensa: as fake news. Homenageado no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que começou nesta quinta-feira, 28, e vai até sábado, 30, o veterano afirmou que as notícias falsas são “um problema tão nocivo quanto a censura nos tempos da ditadura.”

O jornalista lembrou da declaração do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luiz Fux, de que as eleições poderiam ser canceladas caso fosse detectada a influência das notícias falsas. “São uma contradição em termos: se são fakes, não são news. É só um novo nome para uma velha forma”, disse. “A imprensa às vezes consegue desmoralizar a mentira. Nosso trabalho é fazer as instituições prestarem contas à sociedade.”

Ventura também rememorou histórias de sua carreira ao lado do amigo de décadas e colunista do Estado Luiz Fernando Verissimo –— como a vez em que, com uma trena, mediu a área em frente ao Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro, para determinar o tamanho de um público com precisão. O colega e ex-chefe Elio Gaspari, autor de uma das principais obras sobre o regime militar, lembrou da atuação de Zuenir para trazer de volta ao Brasil alguns exilados pela ditadura, como o cineasta Glauber Rocha e o poeta Ferreira Gullar. 

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Zuenir descreve a época em que vivemos como um “acúmulo de crises”. Para Verissimo, o grande perigo está em uma geração de jovens sem memória do que foi o regime militar. “É só ver os índices de intenção de voto para Bolsonaro. É gente que não sabe o que foi a ditadura. Acho preocupante”, apontou.

Ventura complementou a fala do amigo citando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman — o presente está tão ruim, disse, que as pessoas fogem para o passado, em uma espécie de "retropia".“Não entendo. Fico mais querendo que achando que vai haver uma mudança disso. Que é um momento de insanidade dos jovens. É muito difícil de explicar.”

Congresso. O primeiro dia do congresso também teve como destaque o balanço de um ano do Programa Tim Lopes de Proteção a Jornalistas da Abraji, que investiga assassinatos, ameaças e violência contra profissionais de imprensa. A equipe, além de acompanhar os desdobramentos dos casos, busca dar continuidade às próprias denúncias feitas pelo jornalista que foi vítima. O próximo trabalho do grupo será em Bragança, no Pará, onde um radialista foi morto na semana passada. 

++ Projeto Comprova vai combater fake news nas eleições 2018

Segundo o diretor da Abraji e da sucursal de Brasília do Estado, Marcelo Beraba, a ideia vem desde o assassinato do repórter Tim Lopes, em 2002, que motivou inclusive a criação da associação. Beraba diz que a principal constatação nesse tempo de projeto foi a de que os casos mais graves de ameaças a jornalistas ocorrem em áreas social e jornalisticamente precárias - tirando algumas exceções, como a de Tim Lopes, morto no Complexo do Alemão, zona norte do Rio. “E não precisa ser só no interior do País. Às vezes acontece em periferias urbanas, como na Baixada Fluminense.”

Além das palestras, o congresso oferece anualmente uma série de oficinas para os participantes — que vão desde estudantes de jornalismo até os profissionais mais experientes do País. 

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