WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Os últimos dias do capitão Adriano na Bahia

Após receber aviso, ele deixou condomínio de luxo, cruzou mangue e se refugiou em fazenda

Caio Sartori, ENVIADO ESPECIAL ESPLANADA E MATA DE SÃO JOÃO (BA), O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2020 | 19h30

O manguezal vizinho aos condomínios de luxo da Costa do Sauípe, a 100 km de Salvador, parece tranquilo. Famílias pobres tiram dos caranguejos seu sustento. Uma moradora, no entanto, alerta: “Vocês são doidos de ficar aqui, isso aqui é cheio de gente ruim”, diz, em referência a ladrões que aproveitam a mata fechada para praticar pequenos furtos. Foi dessa região que, há duas semanas, o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega teria protagonizado uma fuga para a cidade de Esplanada, no norte baiano, onde acabou morto por policiais.

Acusado de chefiar a milícia Escritório do Crime – citada em investigações da morte da vereadora do PSOL Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes –, Nóbrega estava na Costa do Sauípe desde dezembro do ano passado. Antes que a polícia chegasse ao “esconderijo”, ele saiu pelo fundo da casa, cruzou a área de mangue, nadou e passou pela praia. Depois, chegou à área urbana e alugou um carro, de acordo com a reconstituição feita pela Polícia Civil.

Estado passou os últimos dias à procura de pistas deixadas na Bahia pelo “capitão Adriano”, como era conhecido o ex-oficial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM fluminense. Nos três endereços por onde passou nos últimos dois meses, os relatos descrevem Nóbrega como um homem discreto, de pouca disposição para conversar.

Para uma funcionária do condomínio de luxo em que ele ficou por quase dois meses no Sauípe, o ex-policial militar chamava atenção pelas “costas fortes” e pela expressão fechada que carregava no rosto. “Ele vivia andando de bicicleta pelo condomínio, via sempre. Um homem bonito daqueles fazer uma coisa dessas”, afirmou. Além de deixar para trás uma identidade falsa, Adriano abandonou uma quantidade grande de alimentos estocados.

O destino dele, a partir dali, foi uma fazenda no município de Esplanada, que tem menos de 30 mil habitantes. Ali vive o fazendeiro Leandro Guimarães, famoso pelas vaquejadas que promove em sua propriedade, chamada Parque Gilton Guimarães. O terreno, repleto de cabeças de gado, é conhecido como “entrada dos coqueiros”.

O terreno principal da fazenda tem duas casas. Uma delas é mais discreta, reservada a um funcionário. A outra é pintada de amarelo claro e abriga a família Guimarães, que vive entre Esplanada e Pojuca, município a cerca de 80 quilômetros dali. Foi nesse espaço que Nóbrega se instalou e permaneceu durante uma semana, até ser morto em uma operação policial.

Guimarães disse à polícia que não sabia que Adriano era foragido e só percebeu que era um homem “perigoso” quando o ex-PM o ameaçou. O fazendeiro foi preso por porte ilegal de armas. Foi solto pela Justiça, que fixou fiança e ordenou que usasse tornozeleira eletrônica.

Em seus últimos dias de vida em Esplanada, o ex-capitão circulou armado pelo campo, andou a cavalo e fez caminhadas. Só conversava com o “patrão”, segundo um funcionário da fazenda. Era misterioso e “dava medo”, segundo ele. Guimarães relatou que Adriano disse que queria comprar uma propriedade na região e, em sua companhia, visitou algumas, mas não gostou de nenhuma.

O delegado Maurício Sansão, diretor do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), disse que o miliciano visitava a Bahia havia quase três anos. Os investigadores baianos apuram, agora, se Adriano lavava dinheiro por meio da compra de gado.

Além da suspeita de ligação com a morte de Marielle, Adriano também era um dos alvos da investigação sobre “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio.

Cerco

No dia anterior à morte, sábado, o ex-capitão do Bope sabia que a polícia preparava uma operação para capturá-lo. Ex-policial, ele teria informantes que lhe passavam dicas sobre os planos dos investigadores. Sua mulher, Júlia Mello, que ficou em Sauípe, foi parada numa blitz quando voltava ao Rio, de carro, e o avisou de que o cerco policial se aproximava.

Guimarães disse aos investigadores que, por causa disso, foi obrigado a levar Nóbrega para outro lugar. Os policiais, porém, suspeitam que os dois eram cúmplices. O destino “mais seguro”, a cerca de dez quilômetros dali, era muito diferente das acomodações em Sauípe e da fazenda de Guimarães. Nóbrega se abrigou em uma casa de dois quartos num pequeno sítio, que pertence ao vereador de Esplanada Gilson de Dedé (PSL). Ali foi o terceiro ponto conhecido da fuga do miliciano. Questionado, o vereador disse não conhecer o ex-capitão do Bope e afirmou que o imóvel foi invadido.

Para o advogado de Nóbrega, Paulo Emilio Catta Preta, a morte pode ter sido uma operação de “queima de arquivo”. A polícia nega execução e diz que o miliciano resistiu, armado, à ordem de prisão.

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