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O único beneficiário de uma crise artificial entre Senado e Forças Armadas é Bolsonaro

Presidente atraiu chuvas, trovoadas, mortes e CPI contra ele e, como sempre, tenta usar os militares para demonstrar uma força que já não tem

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2021 | 03h00

A quem interessa criar uma crise, neste momento já tão confuso, entre as Forças Armadas e o Congresso Nacional? O único beneficiário de uma crise assim é, ou seria, o presidente Jair Messias Bolsonaro, que atraiu chuvas, trovoadas, mortes e CPI contra ele e, como sempre, tenta usar os militares para demonstrar uma força que já não tem e compensar a queda de popularidade e de credibilidade.

É evidente que não é bom para a imagem das Forças Armadas ter uma dezena de oficiais citados em histórias muito mal contadas, tanto na CPI e na compra de vacinas pelo Ministério da Saúde, quanto até nos áudios da ex-cunhada de Bolsonaro, Andrea Valle, que incluiu o “tio Hudson”, um coronel da reserva do Exército, no esquema de rachadinhas dos gabinetes parlamentares da agora família presidencial.

Em vez de defender a instituição, separar o joio do trigo e declarar que quem cometeu erros que assuma suas responsabilidades, o ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica tomaram a pior decisão: jogaram as suspeitas e os suspeitos para debaixo do tapete e atacaram o senador Omar Aziz, presidente da CPI que traz os nomes desses oficiais à tona.

O que irritou a nova cúpula militar foi Aziz dizer que “os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados” e que “fazia muito tempo que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos em falcatrua”. Não há “lado podre”, e sim indivíduos suspeitos, mas ninguém deveria estar mais interessado em distinguir os “bons” dos “podres” do que as próprias forças, que são a instituição mais admirada pelos brasileiros nas pesquisas.

Em nota, porém, o ministro e os três comandantes condenam “a forma vil e leviana” e Aziz, um dos políticos mais respeitosos com os militares. Atacar Aziz é atacar a CPI, o que é atacar o Senado, o que é atacar o Congresso e abrir uma crise entre Poderes. É consenso que foi uma intimidação contra o Congresso e que Braga Netto não faria isso sem combinar com Bolsonaro.

E a nota não foi nada inteligente. Após a ordem de prisão de Roberto Dias, o ex-diretor de Logística da Saúde, que tem um dossiê explosivo contra o governo e militares, ninguém lembrava da frase de Aziz. A nota lançou luzes e amplificou a expressão “lado podre”.

Feito o estrago, Braga Netto e o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Oliveira, telefonaram nesta quinta-feira, 8, para o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para dissipar o mal-estar e dizer que a reação foi direcionada a Aziz, não ao Senado. Para Pacheco, que fora criticado por Aziz por não assumir a defesa do Parlamento, o episódio “está superado”. Tomara, mas é preciso combinar com a realidade e os adversários.

Na realidade, a CPI aprofunda as investigações sobre a guerra entre o “grupo político” e a “turma militar” desde o general da ativa Eduardo Pazuello na Saúde. Nenhum dos dois lados é santo. Alguns militares foram tragados por esquemas no que o Ministério Público classifica de gestão “gravemente ineficiente e dolosamente desleal”.

E o principal adversário à bandeira branca entre FA e Senado é o próprio Bolsonaro, que vive, respira e governa criando atritos, crises e ameaças. A última delas é bem explícita: “Ou fazemos eleições limpas, ou não temos eleições”. “Eleições limpas” são as que só ele possa ganhar? Então, está ficando difícil mesmo...

A última coisa que a sociedade brasileira pode imaginar, ou muito menos querer, é que as Forças Armadas sejam parte desse tipo de ameaça à democracia, ou golpe. Aliás, como nunca quis que os militares mergulhassem tão fundo na política e se embolassem com o Centrão. O “lado podre” adora. A marca Forças Armadas paga o preço.

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