Gabriela Biló/ Estadão
Gabriela Biló/ Estadão

‘O presidente sou eu, pô’, diz Bolsonaro sobre fala de Mourão

Declaração foi dada ao ser questionado sobre vice, que defendeu quarentena; para presidente, brasileiro ‘não pega nada’

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 19h34

BRASÍLIA – “O presidente sou eu, pô!” Foi assim que Jair Bolsonaro reagiu ao ser questionado, nesta quinta-feira, 26, sobre a declaração do vice, Hamilton Mourão, defendendo o  isolamento social durante a pandemia do novo coronavírus.

Menos de 24 horas após Bolsonaro fazer um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV pregando a reabertura de escolas e do comércio, Mourão afirmou que a posição do governo para combater o coronavírus continuava sendo  “uma só”: a da quarentena.

Apesar de desautorizar Mourão, Bolsonaro elogiou o vice em conversa com jornalistas. “O presidente sou eu, pô. O presidente sou eu”, repetiu ele, diante do Palácio da Alvorada. “Os ministros seguem as minhas determinações. E o Mourão tem ajudado bastante, colaborado, dado opiniões, é uma pessoa que está do meu lado ali. É o reserva de vocês. Se eu empacotar aí, vocês vão ter que engolir o Mourão. É uma boa pessoa, podem ter certeza”, declarou.

‘Brasileiro não pega nada’, diz Bolsonaro

Bolsonaro disse que o Brasil não chegará no mesmo nível de contaminação e de mortes verificadas em  países como Estados Unidos e Itália porque os brasileiros possuem algum tipo de diferenciação. Não apresentou, porém, qualquer embasamento para justificar o que disse. “Acho que não vai chegar a esse ponto, até porque o brasileiro tem que ser estudado, não pega nada. Vê o cara pulando em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada”, insistiu.

Ao afirmar que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já concordou em alterar o formato de quarentena - de isolamento horizontal para vertical (idosos e pessoas com outras doenças) -, Bolsonaro disse que o governo ainda estuda como adotar a medida. No Ministério da Saúde, a mudança é vista como algo que depende da realização de testes rápidos em larga escala no País. Assim, será possível verificar quem está com a doença e quem está liberado para outras atividades.

O modelo vertical defendido por Bolsonaro considera apenas o isolamento para pessoas do grupo de risco, idosos e aqueles com doenças crônicas. O presidente observou, porém, que não há prazo para que a transição ocorra. Para ele, pode até começar amanhã.

Mais uma vez, Bolsonaro disse que “alguns governadores e prefeitos erraram na dose” das medidas de contenção, que incluíram fechamento do comércio e de escolas. “O povo quer trabalhar”, afirmou. Pelas suas contas, parte dos  governadores já reavalia medidas restritivas de circulação.

“A gente consegue aguentar dois, três meses com o plano que está aí? Não sei quanto vai chegar a nossa despesa, centenas de bilhões de reais. Tem que voltar quase tudo (reabertura do comércio). E fazer uma campanha “Fique em casa”. Não deixa o vovô sair de casa, deixa em um cantinho. Quando voltar toma banho, lava as mãos, passa álcool na orelha. É isso daí”, declarou.

Bolsonaro disse, ainda, que muitas pessoas no Brasil já devem ter se contaminado pela covid-19 nas últimas semanas, inclusive ele, mas, como não apresentaram sintomas, agora possuem imunidade. Ainda assim, o presidente afirmou que não vai mostrar seus dois exames, que afirma terem dado negativo para a doença. “A minha palavra vale mais do que um pedaço de papel”, reagiu.

Até o momento, 24 pessoas que estiveram com Bolsonaro na recente viagem para os Estados Unidos foram infectadas pelo coronavírus. Além disso, um segurança do presidente foi diagnosticado com a doença e está internado, em Brasília. Para Bolsonaro, no entanto, a internação ocorreu por outras pré-condições de saúde.

Apesar das milhares de mortes em países como Itália (mais de 8 mil), Estados Unidos (mais de mil), Espanha (mais de 4 mil) e China (mais de 3 mil), Bolsonaro afirmou que “o povo foi enganado” sobre a gravidade da infecção porque a previsão de milhares de mortes não se confirmou.

Bolsonaro também aposta no uso da hidroxicloroquina como saída para curar infecções, embora ainda não haja comprovação científica de sua eficácia. “Até agora, do pessoal que estou falando, é 100% a efetividade que está se notando, 100%”, disse ele. Mais cedo, o presidente chegou a mostrar o medicamento durante reunião com líderes do G20.

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