O espectro do golpe ronda o governo Bolsonaro

Generais questionaram a legitimidade da eleição de 2018 e houve um grupo que quis virar a mesa; perspectiva de vitória do capitão impediu o golpe

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 10h10

Caro leitor, 

 

As ameaças contra a democracia e as eleições de 2022 do ministro Walter Braga Netto não foram as primeiras de generais desde que Jair Bolsonaro despontou como opção real para a conquista da Presidência da República, em 2018. Apesar da negativa do ministro, os espectros do golpe de Estado e do cancelamento das eleições rondam o governo. Eles passaram pela cabeça de integrantes do Alto Comando do Exército, por exemplo, em 6 de setembro de 2018. Era o dia do atentado à faca contra o então candidato do PSL, em Juiz de Fora, em Minas.

Um general amigo de Hamilton Mourão – com quem ele trabalhou – e do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, contou em duas oportunidades à coluna os detalhes de um segredo: a intenção de se melar as eleições de 2018. Era, segundo ele, ideia de quatro, cinco colegas favoráveis à virar a mesa, pois acreditavam que, se Bolsonaro morresse, as eleições perderiam a legitimidade. Prevaleceu no Alto Comando a visão do general Eduardo Villas Bôas: Bolsonaro ia se recuperar e tinha grande chance de vencer o pleito. Desnecessário, portanto, o golpe.

Segundo o general, havia um grupo que queria virar o "negócio do avesso". Se Bolsonaro morresse em razão da facada, repetiu o oficial, "isso virava", pois havia quatro estrelas de peso que iam "virar o negócio". Para o militar, tratava-se de uma posição emocional, mas que seria um "grave retrocesso". Generais de peso são, segundo ele, aqueles que detém o comando de tropas. Pelo menos três dos mais exaltados estavam nessa situação em 2018.

Pouco depois da facada, em 9 de setembro, Villas Bôas, então comandante do Exército, disse ao Estadão: "Nós estamos agora construindo dificuldade para que o novo governo tenha uma estabilidade, para a sua governabilidade e podendo até mesmo ter sua legitimidade questionada". E completou: "Com relação a Bolsonaro, ele não sendo eleito, ele pode dizer que prejudicaram a campanha dele. E, ele sendo eleito, provavelmente será dito que ele foi beneficiado pelo atentado, porque gerou comoção". 

Villas Bôas admitia o óbvio. E dizia que Bolsonaro contava com simpatias entre os militares. Os comandantes das Forças foram visitar o candidato internado em São Paulo. O relato mostra que conversas sobre ter ou não eleições não são algo estranho entre militares.  Alguns dizem que isso é mera manifestação de zap zap, coisa de grupos fechados de redes sociais nos quais valentões, às vezes, dizem que estão preparados para matar ou morrer ou que prendem e arrebentam. Ou ainda que teremos danos colaterais em uma ação do Exército para "reestabelecer a ordem". Uma ordem que interessa só a esses militares. 

O espectro do golpe ronda os militares e é também alimentado pelos civis. Pelos que desejam um novo AI-5 e pelos que acreditam ver em cada general um Olympio Mourão Filho. No atual Alto Comando há integrantes que são constrangidos dia sim e dia sim também a reafirmar o compromisso da Força Terrestre com a defesa da democracia. Não aquela entendida por Bolsonaro, onde somente seus amigos podem se manifestar, mas a outra, a que resulta da soberania do povo. 

A República no Brasil parece sofrer daquela maldição que o professor Roberto Romano dizia que Montesquieu via na Rússia: países com enormes extensões e populações não poderiam ser democráticos; apenas despóticos. É que entre a realidade e a consciência há um intervalo. E nele se insinua não o diálogo, mas a força. A natureza última do poder para militares envolvidos na política é justamente esta: a força. Se um grupo deixar de usá-la, pensam, inexoravelmente, outro vai utilizá-la. O agir comunicativo, como imaginado por Jurgen Habermas, não tem cidadania diante das armas. 

Villas Bôas já disse que fez seu famoso tuíte contra a libertação de Lula, então preso e condenado pela Lava Jato, porque assistira a manifestações de generais, como Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, ex-presidente do Clube Militar, que diziam que o Supremo poderia se tornar “indutor da violência”, caso libertasse o petista. Da ideia de Lessa à ação de Vilas Bôas foi um pulo. Fenômeno igual se observa com Braga Netto.

O ministro da Defesa já subiu no palanque do presidente e assinou nota com os comandantes das Forças para dar "um pito" no senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid. Ainda que Aziz tenha sido infeliz ao se referir ao "lado podre do Exército", a reação foi interpretada em Brasília como desproporcional. Agora, ao tentar desmentir a reportagem do Estadão sobre o golpe, o general se vale de nova nota, que, em seus dois últimos parágrafos, faz a defesa do voto impresso. Mas este não é um tema do Ministério da Defesa. A Pasta sob Bolsonaro parece se tornar uma Secretaria de Governo.

Se é assim, em breve seria bom o Ministério responder sobre os contratos sob suspeita revelados pela CPI da Covid. E talvez nos dê uma explicação sobre a desfaçatez de quem cria uma regra para ganhar acima do teto enquanto todos os demais funcionários estão com salários congelados. Ou sobre os empregos para mulheres, filhos e parentes em boquinhas de empresas públicas e repartições. Ou ainda sobre a entrega de bilhões do orçamento deixado às saúvas do Centrão. Podemos ver notas de repúdio ao extremismo de direita que se infiltrou por meio de uma ralé ressentida no governo e atacou a Educação, a Saúde e a Ciência e Tecnologia? Ou uma manifestação sobre os mais de 545 mil mortos da pandemia e a volta do lulismo, os dois maiores legados de Bolsonaro?

Para analistas políticos, como o professor José Álvaro Moisés, Braga Netto produziu a nota sobre o voto impresso porque essa é a estratégia desse governo impopular para questionar as eleições. Pouco importa se ele será ou não adotado. O resultado será o mesmo. Sem ele, o bolsonarismo questionará as eleições por não serem auditáveis. Com ele, só a queixa mudará. Haverá a recontagem infinita para não se admitir a derrota do presidente e preparar o terreno para o golpe. Não se quer transparência. O que se deseja é uma desculpa. Os liberticidas procuram sempre produzir exceções. De preferência por meios supostamente legais.  

Há uma diferença entre o pleito de 2018 e o de 2022: a perspectiva de poder de Bolsonaro. Se em 2018 os pensamentos golpistas foram esconjurados por que a vitória eleitoral se avizinhava do capitão, desta vez, a certeza do triunfo nas urnas  é algo distante do presidente. Em vez de apaziguamento, tudo aponta para a radicalização de um governo que começou a ruir no dia em que o pai resolveu proteger o filho rico, o senador Flávio Bolsonaro. O temperamento do presidente e o radicalismo da extrema-direita e dos oportunistas que o circundam fizeram o restante do serviço. 

Hoje, militares procuram se desvincular da criação das urnas eletrônicas e do processo de verificação dos equipamentos – em ambos os casos, oficiais das três Forças estiveram presentes. Não percebem que a oportunidade para uma saída honrosa é cada vez mais estreita? Há Chamberlains demais neste País. Eles só fortalecem os autoritários de todos os matizes. O Brasil conviveu muito tempo com os atos antidemocráticos investigados pelo Supremo Tribunal Federal. Está na hora de passar do diálogo aos depoimentos e interrogatórios. É preciso mostrar que o destino que a lei reserva aos liberticidas é a cadeia.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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