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O Brasil da realidade paralela

Na ONU, Bolsonaro cria realidade paralela e confronta o mundo por não tomar vacina, ser contra isolamento e pregar o 'tratamento precoce'

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 12h46

O presidente Jair Bolsonaro usou a abertura da Assembleia-Geral da ONU para se gabar de vitórias dos governos passados, transformar erros da sua gestão em méritos e confrontar todo o mundo civilizado, ao discursar sem tomar vacina, fazer apologia do “tratamento precoce” contra a covid-19 e condenar o isolamento social

Só faltou Bolsonaro se referir diretamente à “imunidade de rebanho” e atacar também as máscaras, mas não chegou a tanto. Sem vacina e depois de comer pizza na calçada em Nova York, falar em deixar todo mundo morrer e aparecer sem máscara seria demais, mesmo para padrões bolsonaristas.

Segundo o presidente do Brasil, massacrando a realidade e contrariando o consenso internacional, “a história e a ciência” vão responsabilizar quem batalhou pelas vacinas e pelo isolamento social e rejeitou a cloroquina e a ivermectina (que foram condenadas pela Organização Mundial da Saúde e por todas as agências sanitárias mundo afora). Na verdade, ocorrerá o oposto: a história e a ciência condenarão quem trabalhou a favor do coronavírus e de tratamentos inadequados, como ele.

Convicto em sua realidade paralela, Bolsonaro voltou a insistir na ONU que seu governo tirou o Brasil do rumo do comunismo — o que é não só ficção, mas uma fraude histórica —, e fez a descrição de um país onde tudo está uma maravilha: queda do desmatamento, comunidades indígenas livres e felizes, recuperação de credibilidade externa, economia de vento em popa, empregos brotando, vacinas para todos.

Quem acha que não é bem assim, levante o dedo! Mas, por favor, não como o dr. Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, para manifestantes anti-Bolsonaro na Big Apple.

Além de criticar diretamente o “passaporte vacinal” exigido por todos os países responsáveis, inclusive o anfitrião, Bolsonaro convidou a todos a visitarem “a nossa Amazônia”, que, apesar de ele negar e esconder, vem sendo queimada e desmatada como poucas vezes se viu. Os fundos internacionais já até ameaçaram retaliar o Brasil e os próprios EUA já denunciaram a exportação criminosa de madeira de lei brasileira.

Atenção: praticamente todas as vitórias reais do Brasil citadas no discurso não são fruto do governo Bolsonaro, mas dos vários governos que o antecederam, como a legislação ambiental, considerada das melhores do mundo, a extraordinária geração de energia limpa, também invejável, e a posição brasileira entre os principais fornecedores de alimentos do planeta.

Como fecho de ouro, o presidente brasileiro destacou a “liberdade de culto e de expressão” no Brasil e defendeu “a família tradicional” como base civilizatória. Ou seja: Bolsonaro virou as costas ao mundo no combate à pandemia, na preservação do meio ambiente e até no enorme esforço internacional pela inclusão e pelo respeito à orientação sexual e aos direitos LGBT+. Logo, falou exclusivamente para o cercadinho do Alvorada.

 

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