WASHINGTON ALVES/ESTADÃO
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'Não construiremos o caminho para a paz pela força das armas', diz presidente da CNBB

D. Walmor Oliveira de Azevedo teme impacto de decreto 'numa sociedade cheia de polarizações' e defende uma Igreja apartidária

Entrevista com

D. Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2019 | 05h00

ENVIADO ESPECIAL / BELO HORIZONTE - Eleito no dia 6 de maio novo presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), durante a 57.ª Assembleia-Geral do Episcopado, em Aparecida (SP), o arcebispo de Belo Horizonte, d. Walmor Oliveira de Azevedo, afirmou ao Estado que o "caminho da paz" não será construído "pela força das armas", mas pelo diálogo e pela educação. "Tememos o que pode acontecer numa sociedade cheia de polarizações", disse, sobre o decreto presidencial que flexibilizou a posse e o porte de armas.

No início deste mês, dias após ser eleito, d. Walmor, ao anunciar as metas para a próxima gestão da CNBB, já havia dito que esperança, diálogo e disposição para enfrentar e vencer as dificuldades são alguns dos principais itens do programa do episcopado para os próximos quatro anos.

Questionado sobre o governo Jair Bolsonaro, o presidente da CNBB defendeu a importância de uma atuação da Igreja "sem ser partidária". "Diálogo para ouvir e ser ouvido, para poder dizer o que a Igreja tem a dizer para além de qualquer tipo de ideologia ou partidarização", declarou d. Walmor, baiano da cidade de Cocos. Doutor em teologia bíblica, ele foi transferido para Belo Horizonte em 2004.

Como será a relação da CNBB com o governo federal?

O ponto de partida da relação com o governo federal e com todas as instâncias de governo, assim como com outros segmentos da sociedade, é o diálogo. Diálogo para ouvir e ser ouvido, para poder dizer aquilo que a Igreja tem a dizer para além de qualquer tipo de ideologia ou partidarização, pela força de seu Evangelho.

O País tem mais de 13 milhões desempregados. Como o senhor analisa essa situação?

Quando a gente constata cenários de pobreza e de miséria, isso nos aflige. Inclusive deve nos envergonhar, exigindo de nós que encontremos novos caminhos. Porém, há urgência de novas respostas. A Igreja, sem ser partidária, sem mover-se por ideologias, está para dialogar, para ajudar, por uma compreensão que nos dê saídas, novas respostas. Mas sempre respeitando as competências das instâncias que têm a tarefa de resolver esse problema.

O que o senhor pensa a respeito da questão da flexibilização da posse e do porte de armas?

Não compreendemos que o caminho para a paz, para o entendimento, para a solidariedade, nós construiremos pela força das armas. Nós construiremos pela força da educação, pela força do diálogo, do amor. Não é para nós uma opção dizer que vamos trabalhar mais a paz exatamente com uso de armas. Pelo contrário. Tememos o que pode acontecer numa sociedade como a nossa, cheia de polarizações.

Cortes na Educação levaram a protestos nas ruas. Como o sr. vê esse contingenciamento?

A justificativa dada é de otimização de recursos. Mas a Educação não pode sofrer cortes por ser uma prioridade das prioridades. Não pode sofrer cortes de modo que, por exemplo, a pesquisa pare. Não podemos cortar de modo que a educação de base não seja qualificada. É preciso muito discernimento para se fazer isso sem prejuízos não apenas hoje, mas nas gerações futuras.

O senhor vai exercer dupla função, em Belo Horizonte e Brasília. Como vai conciliar?

Dou graças a Deus de ser chamado para esse serviço na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil depois de 15 anos de experiência aqui. Portanto, somos uma equipe de bispos, de colaboradores e de muitos que se engajam nas tarefas da arquidiocese, que me dão condição de, sem abandonar esse serviço, sem deixar de fazer tudo o que tenho de fazer, me dão condições de poder, de fato, fazer também esse serviço na CNBB. Digo isso com muita gratidão e muita confiança a certeza de que podermos fazer um caminho fecundo.

A CNBB agora tem dois vices.

Esta foi uma novidade introduzida no estatuto nesta assembleia. Foi votado na assembleia passada, mas precisava ter o reconhecimento e aprovação da instância competente da Sé Apostólica. E tivemos. Então implementamos essa experiência de um presidente e dois vices, e o secretário-geral, formando, assim, com quatro pessoas, a presidência.

Qual é o ponto principal para o Sínodo da Amazônia?

O grande foco importante é a evangelização. É a Igreja presente na Amazônia levando o Evangelho de Jesus Cristo para ser assimilado, desdobrado, com consequências para uma vida melhor, um desenvolvimento integrado. Esse é o nosso caminho. O compromisso de construir uma sociedade justa e solidária é um compromisso inarredável. A Igreja tem um lugar próprio, não pode estar ausente dele, mas não é de um partido político nem de nenhum tipo de ideologia.

Por que a Amazônia e não áreas urbanas?

Nós temos trabalhado muito a questão urbana, inclusive, nas nossas diretrizes gerais para a evangelização da Igreja no Brasil, falamos exatamente para evangelizar um Brasil cada vez mais urbano. Essa é uma questão que nós já estamos enfrentando. A Amazônia se torna agora uma prioridade exatamente pela importância e complexidade e por tudo aquilo que a Igreja precisa fazer de evangelização na Amazônia. Portanto, cultura urbana, sem abandoná-la, e também a Amazônia, como muitos outros temas que a nossa Igreja tem de trabalhar ao mesmo tempo. 

Na Amazônia, há a questão da imigração de venezuelanos. O Sínodo vai tratar do tema?

Certamente esse será um ponto a ser tratado. Os imigrantes são muitos, trazendo um problema social e uma discussão que toca e confronta muito tipo de ideologia e, consequentemente, muitas escolhas no sentido do acolhimento. Nós estamos no Brasil. Não é uma questão dos outros, é nossa também.

O cardeal d. Claudio Hummes, no livro sobre o Sínodo, fala em industrialização e ocupação predatórias na Amazônia. Como o senhor vê essa questão da ocupação da região?

Essa é uma preocupação fundamental. Temos um riquíssimo horizonte na carta encíclica do papa Francisco, Laudato Síi, do cuidado com a casa comum. Vemos isso em geral, em todo o Brasil. Em Minas Gerais, vemos isso como uma consequência muito terrível pelo modo como se fez, exatamente em razão da ganância, do lucro, da hegemonia e da idolatria do dinheiro, consequências muito desastrosas.

É o caso de Brumadinho?

Sim, de Brumadinho, mas também pelo Brasil afora. É uma preocupação fundamental. Por isso temos um grupo de trabalho na CNBB para problemas ambientais que vai avançar para ser uma comissão especial para tratar questões de ecologia integral e desenvolvimento integral sustentado. Essa é uma preocupação que decorre do Evangelho, afinal, Deus é o Deus da Criação, e a criação é um dom para todos nós, que não pode ser tratada de modo inadequado.

O senhor, eleito, já foi se apresentar ao Vaticano?

Temos uma visita da presidência planejada para a primeira quinzena de novembro. Seria em outubro, mas em outubro teremos o Sínodo dos Bispos para a Amazônia. Então faremos a visita em novembro. Para o Sínodo, o presidente da CNBB é convocado pelo papa Francisco. Deverei ir também. Então, logo após, aproveitarei para fazer a visita ao papa Francisco e à Cúria Romana.

Qual a posição do sr. sobre casos de abuso sexual na Igreja?

A Igreja no Brasil, em sintonia com o Papa Francisco, tem o compromisso de combater, radicalmente, o abuso sexual, tolerância zero em relação a este crime. É inadmissível qualquer tipo de silêncio diante de situações que merecem as devidas denúncias e investigações. E as vítimas desses crimes devem receber da Igreja todo o apoio necessário, sobretudo na escuta e acolhimento. Cada vez mais a Igreja investe na formação humana e espiritual de todos que se preparam para a vida consagrada. A CNBB trabalha e está empenhada na elaboração de um guia com orientações claras e objetivas para a proteção dos menores e indicações de procedimentos que ajudarão dioceses e arquidioceses a contribuírem para a maior celeridade na apuração de denúncias e na adoção de medidas para amparar as vítimas. Trata-se de uma urgência, urgentíssima. Para ontem. Um passo a passo naquilo que é importante sobre as vítimas e no que compete à punição canônica e àquilo que a sociedade civil tem de fazer. Evidentemente que também estamos empenhados no trabalho de prevenção, não apenas restritos ao combate deste crime abominável. / COLABOROU JOSÉ MARIA MAYRINK

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