BRENDAN SMIALOWSKI / AFP
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Na ONU, Bolsonaro mistura alhos com bugalhos para transferir culpa pela alta na inflação

Presidente usa discurso como palanque eleitoral e distorce a lógica dos acontecimentos ao citar lockdown como vilão da alta de preços

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 15h28

O presidente Jair Bolsonaro usou o seu discurso na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas como palanque eleitoral para se livrar da pressão que o seu governo sofre com a alta da inflação.

A desculpa da vez foi que as medidas de isolamento e lockdown deixaram um legado de inflação, numa nova tentativa de culpar governadores e prefeitos pela elevação atual dos preços no Brasil e que pode lhe tirar capital político nas eleições do ano que vem, quando buscará a reeleição.

O presidente mistura alhos com bugalhos invertendo e distorcendo a lógica dos acontecimentos para transferir a culpa da inflação. Aliás, como tem feito com quase todos os grandes problemas que aparecem. A culpa é dos outros.

“As medidas de isolamento e lockdown deixaram um legado de inflação, em especial, nos gêneros alimentícios no mundo todo”, disse o presidente no seu discurso.

A retórica presidencial na ONU, porém, espertamente esquece que o lockdown à brasileira (que nunca chegou a ser efetivo por conta da pressão contrária do próprio governo federal) do início da pandemia não trouxe problemas de abastecimento de alimentos.

Pelo contrário, a agricultura funcionou normalmente com produção, logística e comercialização atendendo sem pressão de oferta. “A parte de produção de alimentos na pandemia, vamos ser sinceros, olhando qualquer indicador de mercado de trabalho e hora de trabalhada, não teve impacto”, resume bem a economista Silvia Matos, que coordena o Boletim Macroeconômico do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE).

Fora as medidas de isolamento (mesmo incompletas) terem sido inevitáveis em todo mundo e ajudado a evitar uma disseminação ainda maior da covid-19 e mais mortes, o presidente esquece que a inflação se aqueceu na fase de retomada da economia e no rastro da quebra das cadeias produtivas em todo mundo, que trouxe dificuldades de suprimento de insumos para a indústria. A alta dos preços de commodities de alimentos no mundo inteiro ajudou a piorar. Problemas que não são só brasileiros.

O problema brasileiro foi, sim, o governo não ter se beneficiado completamente do boom de commodities e aumento das exportações.

A despeito desse movimento, o real continuou bastante desvalorizado e a taxa de câmbio pressionada por fatores internos com ruídos políticos alimentados pelo próprio presidente e econômicos. Como esquecer o impasse em torno do Orçamento de 2021 no primeiro trimestre e agora com o pagamento dos precatórios em 2022 e o valor no novo Bolsa Família, o Auxílio Brasil.

O câmbio desvalorizou mais no Brasil por conta desse cenário de incertezas com impacto direto nos preços e nas expectativas futuras de inflação. Jogamos lenha na fogueira em meio ao cenário de choque inflacionário provocado também por questões climáticas.

Tudo isso se somou a administração titubeante da crise hídrica com o tarifaço de energia potencializaram os problemas para o controle da inflação que começou a dar as caras no segundo semestre do ano passado. Trata-se de mais desinformação que Bolsonaro tenta emplacar para o seu eleitorado.

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