Militares bolsonaristas se aliam a negacionistas das mudanças climáticas

Generais minimizam dados de desmatamento da Amazônia ao mesmo tempo em que difundem ideias que negam o aquecimento global

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2021 | 09h56

Caro leitor, 

 

Os militares bolsonaristas precisam acertar as contas com o negacionismo climático e com as teorias que ajudaram a espalhar, como a ideia de que a Amazônia não pega fogo e os milhares de quilômetros desmatados ou queimados são obra de ribeirinhos ou indígenas com suas pequenas roças. O que o presidente Jair Bolsonaro disse em sua última live tem a origem na relação entre conhecidos difusores de teorias da conspiração – como a da mentira de que o corredor Triplo A está citado no Acordo de Paris – e setores do pensamento verde-oliva, como o Instituto Villas Bôas. 

Em agosto, o instituto do ex-comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, promoveu um evento que contou com a presença de dois dos mais conhecidos negacionistas brasileiros: o meteorologista Luiz Carlos Molion e o geólogo Geraldo Lino. São os mesmos que os extremistas do agronegócio ligados ao bolsonarismo adoram convidar para que o primeiro afirme que o "alarmismo sobre a Amazônia não tem base científica", que as "mudanças climáticas não são causadas pelo homem" ou que "há resfriamento global, não aquecimento". Já o segundo é conhecido por classificar o aquecimento global como "fraude" e o ambientalismo de "máfia". 

Natural, portanto, que Villas Bôas os convidasse. No livro Conversa com o Comandante, organizado pelo antropólogo Celso Castro, o general assume que parte de suas concepções sobre a Amazônia é baseada em publicações da editora ligada ao Movimento de Solidariedade Iberoamericano, (MSIa), cujo coordenador, o mexicano Lorenzo Carrasco, é autor do livro Máfia Verde: O Ambientalismo a Serviço do Governo Mundial. O reacionarismo antiglobalização se une aos delírios de um anticomunismo de aldeia.

Para Villas Bôas, "sobre a Amazônia, existe muita desinformação, até de caráter intencional, principalmente sobre os temas meio ambiente e questão indígena. Este 'filtro' não permite que a realidade chegue aos centros econômicos culturais e políticos, impedindo que a população esclarecida, bem como as instâncias decisórias, posicione-se adequadamente. A grande imprensa tem parcela de responsabilidade". O general vê na luta contra o aquecimento global e pela preservação da Amazônia apenas “formas contemporâneas de imperialismo, movidas pelo grande capital, corporações, organismos internacionais e as ONGs”

No Império, os senhores de escravos viam a pressão inglesa pela abolição do tráfico negreiro contra a maior das chagas de nossa história como um atentado à soberania nacional e aos interesses de quem produzia. Quando na regência de Feijó se proibiu o tráfico negreiro, em vez de um passo rumo à civilização, o País inaugurou a expressão "lei para inglês ver". Em 1845, os súditos da coroa britânica se cansaram de ver os navios despejando escravos no cais brasileiros e aprovaram o Slave Trade Suppression Act ou Bill Aberdeen. A partir de então, os navios negreiros podiam ser apresados e a tripulação julgada por pirataria na Inglaterra. 

Mas a escravidão seria mesmo assim mantida até 1888, e o Brasil perderia o bonde da Revolução Industrial, com sua mão de obra assalariada. Os saquaremas conseguiram manter no governo sua visão iberista do mundo, estudada entre outros por Luiz Werneck Vianna. Mais de 150 anos depois, são os conservadores da extrema-direita bolsonarista que remam obstinadamente para tentar fazer o País perder mais uma revolução, a Revolução Verde, naquilo que Vianna acredita ser o último suspiro saquarema de nossa história. 

São os bolsonaristas que patrocinam o que Celso Lafer chamou de "cupinização das instituições" e do Direito. Enquanto Villas Bôas elogiava o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a Polícia Federal investigava as canetadas da Pasta por detrás do contrabando de madeira da Amazônia. Para o general, Salles era apenas o homem que vinha "lutando para desmontar estruturas aparelhadas, ineficientes e corrompidas, que criaram um ambiente favorável à dissipação de recursos financeiros". 

Exigir o que do bolsonarismo, seja civil ou verde-oliva? Se não enxergam uma mansão de R$ 6 milhões comprada em Brasília pelo senador Flávio Bolsonaro, por que veriam jamegões em papéis do Ibama descobertos pelo delegado Alexandre Saraiva para impedir a passagem das boiadas? Por que Bolsonaro e seus turibulários iriam se incomodar com os dados sobre desmatamento na Amazônia se eles acreditam que tudo não passa de uma conspiração de burocratas esquerdistas que esquecem o patriotismo ao publicar sobre a devastação do bioma? 

No começo do ano, o vice-presidente Hamilton Mourão dizia estimar em 70% a queda do desmatamento, depois reduziu sua previsão para 12% de recuo. Enviou 6 mil militares para as matas a fim de impedir a destruição da floresta. Quando a realidade desbancou as profecias de Mourão e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou o maior índice de desmatamento dos últimos 15 anos na Amazônia Legal, o general afirmou que o governo ainda avaliava os números para "ver qual a realidade". 

Produziu então mais uma frase que expõe a atitude do governo e ao mesmo tempo explica o desastre amazônico. “Sem desfazer dos números, que obviamente não são bons, a gente tem que olhar o tamanho da Amazônia, né? Vamos ver que a Amazônia Legal tem 5 milhões de quilômetros quadrados. Então, se nós tivemos 13 mil quilômetros de desmatamento, isso dá 0,23% da Amazônia que teria sido desmatada." O papo do general podia edulcorar tudo o que de ruim acontece no Brasil. Ou o que é a ação de ladrões de banco que invadem uma ou outra agência pelo País afora? Não roubam tão pouco diante dos bilhões movimentados pelo sistema bancário? 

No mesmo dia, Bolsonaro voltou a repetir a patranha de que a Amazônia não pega fogo e pôs na agricultura de subsistência a culpa pelo desmatamento. Descuidados com as palavras, a atuação dos integrantes do governo poderia ser alvo da crítica de Mac Navalha, o personagem da Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht, condenado à forca por seus crimes. Mas, em vez da famosa comparação do ato de assaltar com o de fundar um banco, Mac indagaria: o que é um negacionista do clima participar de palestras em um instituto privado diante da possibilidade de se controlar um governo? O que será preciso acontecer para que se dê valor a 0,23% da Amazônia?

 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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