Bolsonaro vende um Brasil distante do real em Dubai e diz que 'Amazônia não pega fogo'

Bolsonaro vende um Brasil distante do real em Dubai e diz que 'Amazônia não pega fogo'

Presidente e ministros descrevem cenários positivos para meio ambiente e economia; falas foram feitas durante fórum Invest in Brazil

Felipe Frazão, enviado especial a Dubai, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2021 | 05h37
Atualizado 15 de novembro de 2021 | 14h58

O presidente Jair Bolsonaro e seus ministros passaram a imagem de um País distante do real a autoridades do governo dos Emirados Árabes Unidos e empresários locais durante a viagem a Dubai. Na abertura do fórum Invest in Brazil, nesta segunda-feira, dia 15, Bolsonaro disse que a Amazônia “não pega fogo”, enquanto o chanceler Carlos França sustentou que o governo é bem sucedido na proteção ao meio ambiente. Atrás dos “petrodólares”, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que os juros estão baixos, apesar do ciclo de alta da taxa Selic, que chegou a 7,75% e deve atingir um patamar acima de 10% no ano que vem, conforme projeções de economistas e bancos privados.

“Nós queremos que os senhores conheçam o Brasil de fato, e uma viagem, um passeio pela Amazônia é algo fantástico, até para que os senhores vejam que a nossa Amazônia, por ser floresta úmida, não pega fogo”, afirmou Bolsonaro, repetindo argumento sem validade científica, adotado por ele depois da repercussão mundial da série de incêndios florestais no País, nos primeiros dois anos de governo.

Bolsonaro disse aos potenciais investidores que a Amazônia é “fantástica”, um “paraíso na terra”. Ele repetiu que mais de 90% da vegetação está preservada. Bolsonaro reclamou das críticas e cobranças de líderes mundiais e ativistas pela proteção do bioma.

“A Amazônia é um patrimônio, a Amazônia é brasileira, e vocês lá comprovarão isso e trarão realmente uma imagem que condiz com a realidade. Os ataques que o Brasil sofre quando se fala em Amazônia não são justos. A Amazônia é fantástica”, afirmou o presidente da República.

Ao contrário do discurso do governo, dados do sistema de monitoramento Deter mostram nova alta em outubro, com 877 quilômetros quadrados de vegetação devastada, 5% a mais que no ano passado e recorde para o mês.

Como já mostrou o Estadão Verifica, a informação de que a Amazônia "não pega fogo" é falsa. Desde 1985, o INPE monitora focos de calor na região para ajudar no combate a incêndios florestais e ao desmatamento. O maior número de focos de calor foi em 2004, com 218 mil ocorrências detectadas. No governo Bolsonaro, o ano com maior número de registros até o momento foi 2020, com 103 mil focos identificados.

O próprio INPE explica que queimadas naturais são causadas por raios e que, portanto, inexistem nos períodos de estiagem prolongada. No entanto, este é o período em que mais se queima no País. “Quase a totalidade das queimadas é causada pelo homem, por razões muito variadas: limpeza de pastos, preparo de plantios, desmatamentos, colheita manual de cana-de-açúcar, vandalismo, balões de São João, disputas fundiárias, protestos sociais, e etc”, informa o INPE. Para ser detectado pelos satélites, um foco de queimada precisa ter no mínimo 30 metros de extensão. 

Pouco antes de o presidente falar, ministros se revezaram no palanque árabe, tentando promover uma imagem positiva do governo. O chanceler Carlos França também abordou as políticas verdes e citou que a operação das Forças Armadas e de segurança pública, já encerrada, teve sucesso na Amazônia e que a legislação nacional garante “grande proteção” ao meio ambiente.

“Temos no Brasil uma agricultura que é exemplar, e um Código Florestal que garante grande proteção ao meio ambiente. Desde 2019, o governo com apoio das Forças Armadas e de segurança pública tem incrementado políticas contra crimes ambientais. Os desafios de cuidar do meio ambiente num País continental como o Brasil são imensos, mas o governo brasileiro tem envidado esforços bem sucedidos nesse sentido”, disse o ministro das Relações Exteriores.

Pouco antes, a ministra da Mudança Climática e Meio Ambiente dos Emirados Árabes Unidos, Mariam Almheiri, havia citado os esforços do país para a transição energética e proteção de manguezais e do elo entre comércio global e meio ambiente.

Bolsonaro disse que o Brasil está de portas abertas para negócios principalmente na agricultura e infraestrutura. O presidente afirmou que os árabes são os parceiros preferidos do Brasil e que já considera os Emirados Árabes Unidos seu “segundo país”.

Bolsonaro ainda aproveitou a ocasião para promover o avião KC-390 Millennium - o que a Embraer “tem de melhor no momento”, disse. A declaração é mais uma forma de tentar minimizar o mal-estar com a empresa, após o Comando da Aeronáutica decidir unilateralmente reduzir a compra dos cargueiros encomendados à companhia, de 28 para 15 unidades. A Força Aérea local, segundo fontes do governo brasileiro, tem interesse em adotar a aeronave em sua frota.

“O Brasil cada vez mais conquista a segurança e credibilidade junto ao mundo”, discursou o presidente. “Temos um ministro da Economia que tem coração, mas é muito sério com a questão fiscal em nosso País.”

Juros em alta e baixo crescimento contrariam discursos 

O titular da Economia, Paulo Guedes, havia discursado antes e tem sido contestado por ceder à pressão política com a proximidade das eleições e a mudança na política do teto de gastos, que limita o aumento das despesas à inflação.

Guedes também disse que a Economia está crescendo, apesar das constantes projeções para baixo de economistas e instituições financeiras, e do aumento da taxa de juros promovido pelo Banco Central para tentar conter a alta da inflação. O ministro disse que o Brasil tinha “muito juros” no passado e que agora estão “mais baixos”. Segundo ele, além do crescimento de 5,5% neste ano, o Brasil tem mais de 100 bilhões de dólares de investimento estrutural contratados nos próximos.

“A economia era um paraíso dos rentistas, e o inferno dos empreendedores. Agora o Brasil está virando um paraíso para os empreendedores. Os juros estão mais baixos, a economia está crescendo mais rápido, e o eixo de crescimento vai ser o setor privado”, afirmou Guedes. “O Brasil foi uma das economias que menos caíram, voltaram mais rápido, criaram mais empregos, estamos crescendo também acima da média mundial, graças à orientação de nosso presidente de não deixar nenhum brasileiro para trás durante a pandemia. Não faltou dinheiro para a saúde, mas ao mesmo tempo prosseguimos com as reformas estruturantes.”

O ministro voltou a dizer que deseja atrair os “petrodólares” para o País, principalmente para infraestrutura, e disse aos árabes que eles podem ser os “sócios ideais” para os recursos naturais do Brasil.

 


“Vendo essa demonstração de capacidade de reciclagem de petrodólares, vendo como no meio das areias do deserto toda essa riqueza emergiu, são sócios ideais para os recursos naturais que temos no Brasil. Precisamos dessa parceria no Brasil. Seremos sócios na criação e na reciclagem desses recursos”, disse Guedes, que citou ainda a privatização do Porto de Santos (SP) como oportunidade.

Guedes afirmou que, no passado, o Brasil “afundou numa armadilha de excesso de intervenção estatal” e que Bolsonaro lhe deu a responsabilidade de trocar o eixo de crescimento da economia. Segundo ele, o governo também já removeu os “privilégios” da previdência social.

“O Brasil prossegue com as reformas. Banco Central independente, gatilhos fiscais, marco regulatório do gás natural, do petróleo, das ferrovias, seguimos fazendo a transformação e esperamos que os senhores participem dessa mudança”, disse o titular da Economia. “Vocês têm vocação milenar para comércio e finanças. O Brasil precisa desse eixo. Vocês são nosso hub de exportação em direção à Ásia e da mesma forma o hub de reciclagem desses petrodólares, desses recursos em direção às Américas.”

Conforme Guedes, o País está começando a se abrir de novo economicamente, e o governo estima que irá atingir o patamar de meio trilhão de dólares em comércio ainda neste ano.

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