Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Médica cotada para assumir Ministério da Saúde é crítica à condução de Bolsonaro na pandemia

Ludhimila Hajjar defende a necessidade de um plano de coordenação nacional de controle da doença, além de uso de máscara, isolamento social e rastreamento de infectados; Eduardo Pazuello teria pedido para deixar o cargo

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 16h52

Mais forte candidata a assumir o Ministério da Saúde, a cardiologista e intensivista Ludhimila Abrahão Hajjar é crítica à condução do presidente Jair Bolsonaro na pandemia. Em diversas manifestações ao longo do último ano, a médica sempre ressaltou ser contra  o chamado "tratamento precoce", à base de cloroquina, e defensora de todas as medidas combatidas pelo Planalto, como uso de máscaras, distanciamento social e até lockdown de acordo com as estatísticas de cada região.

Natural de Anápolis (GO), a médica afirmou ao jornal goiano Opção, há exatos sete dias, que o "Brasil está fazendo tudo errado na pandemia". Segundo Ludhimila, o Brasil deveria estar hoje com cinco ou seis vacinas disponíveis quando na realidade apenas dois tipos de imunizantes já são oferecidos aos grupos já definidos no Plano Nacional de Imunização.

Enquanto o presidente Bolsonaro reclama até hoje da decisão do STF que deu liberdade para governadores e prefeitos tomarem medidas de enfrentamento à pandemia, Ludhmila é favorável às decisões descentralizadas, incluindo a adoção de medidas mais restritivas de isolamento social – alvo dos protestos de bolsonaristas em todo o País.

"A questão de fazer lockdown e toque de recolher tem de ser tratado Estado por Estado, semana a semana, pelos técnicos e cientistas locais. Não acredito que deve haver uma medida nacional única que sirva para todo o Brasil. Tem de ser tratado individualmente”, afirmou na entrevista ao jornal.

O aumento da pressão pela saída do general Eduardo Pazuello da pasta se dá no momento em que o País bare recorde de mortos pela covid-19: foram 2.349 em 24 horas no último dia 10. Desde o início da pandemia, já são 277.216 óbitos. 

O nome da cardiologista foi levado ao Planalto pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).  Ela e Bolsonaro conversaram na tarde deste domingo, 14, mas seu nome não foi anunciado. Pazuello, por sua vez, diz que fica no posto até quando o presidente assim desejar.

No sábado à noite, o presidente se reuniu com ministros da ala militar do governo no Hotel de Trânsito de Oficiais do Exército, onde mora Pazuello. Além de ministro da Saúde, participaram da conversa os ministros Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, Braga Netto, da Casa Civil, e Fernando Azevedo, da Defesa. Todos são generais do Exército da reserva, à exceção de Pazuello, que permanece no serviço ativo.

A reunião ocorreu de última hora e não constava na agenda oficial da Presidência ou dos ministros. Eles deixaram o local sem dar declarações à imprensa. A troca no comando da Saúde foi colocada por parlamentares a palacianos como uma forma de segurar a CPI da Covid-19 no Senado.

Ministros com assento no Palácio do Planalto entenderam que a pandemia não é “gripezinha” e que o País enfrenta o pior momento da crise. Essa mensagem foi reforçada a Bolsonaro em reuniões durante a semana.  Em meio às especulações sobre a saída de Pazuello, o Ministério da Saúde afirmou em nota na tarde deste domingo que "até o presente momento ele segue no cargo". Em seguida, o ministro divulgou uma nota na qual diz não estar doente e que não entrega o cargo se o presidente não o pediu. "Sigo como ministro da saúde no combate ao coronavírus e salvando mais vidas.”

Cardiologista renomada

Ludhimila Hajjar ingressou na Universidade de Brasília (UNB) aos 17 anos e, atualmente, é professora da Associação de Cardiologia da Faculdade de Medicina da USP, coordenadora de cardio-oncologia do InCor e coordenadora da cardiologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo. Suas linhas de pesquisa têm como foco a cardiologia crítica, a terapia intensiva cirúrgica, a terapia intensiva no paciente oncológico e a cardio-oncologia.

No setor privado, a médica atua em hospitais da Rede D’Or, como o Vila Nova Star, em São Paulo, e o DF Star, em Brasília. Foi atuando nestas unidades que ela atendeu nomes importantes da política que tiveram covid-19 nos últimos meses. Na lista de pacientes estão o ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, o ministro dos Transportes, Tarcísio Gomes de Freitas, além do próprio general Pazuello.

Em entrevista à revista Forbes no fim do ano passado, Ludhmila Hajjar defendeu a necessidade de um plano de coordenação nacional de controle da pandemia. Ela apontou como uma das causas da atual crise sanitária no País a ineficiência do governo na adoção de medidas que poderiam ter minimizado a prevalência da covid-19.  A médica também é defensora de medidas combatidas por Bolsonaro, como o uso de máscaras, o distancimento social e o rastreamento dos infectados como forma de evitar a transmissão.

O outro cotado é Marcelo Queiroga, atual presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Paraíba, Queiroga é especialista em cardiologia e tem doutorado em Bioética pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto/Portugal. Atualmente, o médico dirige o departamento de hemodinâmica e cardiologia intervencionista (Cardiocenter) do Hospital Alberto Urquiza Wanderley (Unimed João Pessoa) e é médico cardiologista intervencionista no Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires, Paraíba. 

Queiroga também atuou como dirigente da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, na qual exerceu a presidência no biênio 2012/2013, sendo membro permanente do seu Conselho Consultivo. Integra o Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba como Conselheiro Titular. 

Assim como Ludhmila Hajjar, Marcelo Queiroga defende o isolamento social como forma de combate à pandemia. Ele também se posicionou a favor de medidas que viabilizem seguros para profissionais de saúde da linha de frente. Ambos os médicos já se pronunciaram em diversas ocasiões contra o tratamento precoce, como o uso da cloroquina, para a covid.-19

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